
» RODRIGO NASCIMENTO PINHEIRO, Cirurgião oncológico, diretor científico da World Society of Surgical Oncology (WSSO), presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO)
O câncer é hoje um dos maiores desafios de saúde pública do planeta e está a um passo de se tornar a doença que mais mata no mundo, atrás, no momento, apenas das doenças cardiovasculares. Em 2025, o mundo ultrapassará 20 milhões de novos diagnósticos anuais, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, segundo o Inca, são cerca de 705 mil casos novos de câncer por ano.
Além de refletir aspectos ambientais e comportamentais, esse número também acompanha o principal fenômeno demográfico das últimas décadas: o envelhecimento populacional. A expectativa de vida do brasileiro aumentou de 45,5 anos em 1940 para 76,5 anos em 2023, de acordo com dados do IBGE. Em outras palavras, estamos vivendo mais, o que também implica maior risco de doenças crônicas, como o câncer.
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A crescente incidência tem exigido de todos nós ações rápidas, o reforço da conscientização sobre prevenção e diagnóstico precoce e a busca por ampliar o acesso ao tratamento. O Brasil ainda tem muito a evoluir, mas temos construído uma competência reconhecida internacionalmente. O nosso país é referência global em cirurgia oncológica de alta complexidade, com segurança, precisão e bons resultados.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica, cerca de 90% dos pacientes oncológicos passam por alguma cirurgia, seja para diagnóstico, estadiamento, tratamento curativo ou paliativo. Aproximadamente 60% são submetidos a cirurgia com intenção de cura e 80% passam por cirurgias curativas ou paliativas ao longo de sua jornada.
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Em contrapartida, segundo dados do Datasus, em 2023 o maior investimento foi em tratamento sistêmico medicamentoso (quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo), totalizando R$ 2,77 bilhões. Em cirurgia oncológica, o investimento foi de R$ 1,5 bilhão e, em radioterapia, de R$ 665 milhões. Temos, portanto, um desequilíbrio de investimento, especialmente ao considerar quanto cada um dos três pilares é custo-efetivo.
Apesar dos desafios, somos protagonistas no cenário global, com o Brasil sendo palco da fundação da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), cujo primeiro presidente é o brasileiro Alexandre Ferreira de Oliveira. A diretoria possui cirurgiões de cinco continentes, incluindo Alemanha, Angola, Argentina, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, Grécia, Índia, Itália, Nicarágua, Nova Zelândia e Portugal.
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A cirurgia oncológica no Brasil tem avançado de forma consistente, impulsionada por melhorias na prevenção, no diagnóstico e nas opções terapêuticas, além de progressos importantes na regulação de novas tecnologias. Um marco foi a incorporação da cirurgia robótica pelo Sistema Único de Saúde, que, pela primeira vez, passará a oferecer essa modalidade de alta precisão voltada ao tratamento do câncer. Essa decisão tem impacto direto na qualidade assistencial e na recuperação dos pacientes, especialmente em tumores cuja abordagem cirúrgica exige refinamento técnico.
Outro passo decisivo ocorreu no fim de 2024, com a inclusão da videolaparoscopia no SUS. A principal técnica minimamente invasiva passa agora a ser acessível também na rede pública, ampliando o acesso a procedimentos mais seguros e com melhores desfechos. A portaria publicada em dezembro daquele ano contemplou cirurgias como gastrectomia, colectomia, histerectomia e pancreatectomia.
Além de reduzir o tempo de internação, a dor e o risco de complicações, a videolaparoscopia acelera a reabilitação e melhora a qualidade de vida no pós-operatório. Esse movimento reforça um princípio amplamente demonstrado pela medicina baseada em evidências: abordagens menos invasivas tendem a oferecer resultados clínicos, funcionais e sociais superiores.
Em agosto de 2025, outra decisão reforçou esse caminho. A Conitec emitiu a recomendação final para a prostatectomia radical robótica em casos localizados ou localmente avançados, consolidando a entrada do SUS em uma nova fase tecnológica. Essa aprovação simboliza a maturidade de um processo regulatório cada vez mais atento ao valor da inovação sustentada por evidências científicas e análises de custo-efetividade.
Falamos de grandes evoluções recentes com acessos ampliados. Teremos muito trabalho com a WSSO, símbolo da confiança global na expertise brasileira, o que mostra que, apesar dos desafios, podemos liderar transformações na oncologia mundial.

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