
O Litoral Sul de São Paulo voltou a sofrer, ontem, com rajadas de ventos de mais de 100km/h. A cidade de Santos registrou rajadas de vento de 109 km/h, o maior índice entre os municípios do estado, por volta das 6h40, segundo a estação meteorológica da Praticagem — por volta das 9h, a velocidade havia caído para 75 km/h. A ventania ocorreu em meio ao avanço de uma frente fria pela região associada à formação de um "ciclone-bomba" — saiba o que é no quadro abaixo — que vinha da Região Sul do país.
Outro município da Baixada Santista, Itanhaém registrou ventos de 97 km/h. Outras cidades também tiveram rajadas expressivas, como Ubatuba, no LItoral Norte, onde os ventos chegaram a 74,5 km/h. No interior paulista, os efeitos climáticos extremos também se fizeram sentir: Presidente Prudente registrou um vendaval de 70,4 km/h. Em Areias, que fica no Vale do Paraíba, houve registro de ventos de 68 km/h. Até em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, houve fortes rajadas — assustaram ao chegar a 66,9 km/h.
As condições meteorológicas também afetaram a operação do Porto de Santos. A Capitania dos Portos fechou o canal para navegação por volta das 6h45. A navegação foi liberada às 8h20. Pelo menos cinco cidades do litoral paulista suspenderam as aulas na rede pública nesta sexta-feira.
As travessias de balsas entre Santos e Guarujá e de barcas entre Santos e Vicente de Carvalho foram paralisadas às 6h45 e retomadas às 7h25. A travessia entre Guarujá e Bertioga também chegou a ser fechada, mas foi reaberta pouco depois. A travessia entre São Sebastião e Ilhabela segue paralisada devido ao vento forte.
Segundo a Defesa Civil de São Paulo, o Centro de Gerenciamento de Emergências continuará monitorando os efeitos climáticos, pois a previsão para a cidade de São Paulo é de chuvas intensas, embora rápidas, e baixas temperaturas. O CGE só deve ser desmobilizado amanhã, quando a previsão é de que as temperaturas se equalizem e os efeitos do "ciclone-bomba" diminuam, pois a última movimentação é de que seguia na direção do Oceano Atlântico.
O susto, porém, não foi apenas em São Paulo. O Rio de Janeiro também entrou em alerta. A Defesa Civil disparou alertas para os celulares dos moradores do estado informando que a previsão era de ventos fortes na cidade de até 90 km/h. Às 5h05, foi enviado o alerta de nível severo, estágio nível 2. Mas, às 12h35, o alerta foi de nível extremo, estágio nível 3. As aulas nas escolas da rede pública foram suspensas, tanto na capital fluminense quanto no restante do estado. O Parque Nacional da Tijuca, incluindo o Cristo Redentor, fechou por volta das 13h.
A formação do ciclone extratropical intenso está sendo monitorado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O sistema foi iniciado anteontem nos países vizinhos e, depois, avançou em direção ao litoral do Rio Grande do Sul.
Segundo Maria Clara Sassaki, especialista em meteorologia e porta-voz da Tempo OK, o fenômeno El Niño está atualmente em uma categoria de forte intensidade, com uma anomalia térmica de 1,5 °C. "Sua atuação explica o calor acima da média em várias regiões e as chuvas volumosas no Sul do Brasil, que causaram enchentes e elevaram o nível de rios nos vales do Caí e do Taquari", observa.
Para Maria Clara, o cenário clássico do El Niño aponta chuvas no Sul e temperaturas elevadas no Centro-Norte. Quando frentes frias avançam e encontram esse calor, formam-se tempestades com rajadas de vento, descargas elétricas e queda de granizo.
Agora, uma frente fria atinge a Região Sudeste, com as nuvens se espalhando por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Morte no Rio Grande do Sul
Um temporal acompanhado de ventos intensos causou estragos em pelo menos 114 municípios do Rio Grande do Sul entre quarta e ontem. O novo extremo climático matou na cidade de Montenegro, na região metropolitana de Porto Alegre, o motoboy Maicon Veríssimo Milk, de 33 anos, que foi atingido por uma árvore derrubada pela ventania. Houve estragos em imóveis, interrupções no fornecimento de energia, quedas de árvores e postes e bloqueios em rodovias. Em Porto Alegre, as pessoas tentavam ajudar recolhendo entulhos do estraos deixados pelas rajadas.
Outras cinco pessoas ficaram feridas em todo o estado. Em Dom Feliciano, na região sul do estado, três pessoas sofreram ferimentos por causa dos efeitos da tempestade. Houve mais um ferido em Novo Hamburgo e outro em Osório. Segundo a Defesa Civil, aproximadamente 2,3 mil pessoas estavam desalojadas — em Novo Hamburgo eram 480 desalojados; Sapiranga tinha 360; São Leopoldo, 200; Nova Hartz, 180; e Portão, outros 180.
O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) de Porto Alegre informou que, com o temporal, a Estação de Tratamento de Água São João — que atende mais de 600 mil pessoas — e 12 estações de bombeamento de água tratada ficaram sem energia elétrica. Por isso, pelo menos 45 bairros da capital gaúcha registraram baixa pressão ou falta de água desde a noite de quinta-feira.
Segundo o Dmae, a energia na estação de tratamento de água São João foi restabelecida pela concessionária às 2h. O abastecimento foi normalizado na maior parte do sistema durante a madrugada, mas ainda há duas ocorrências de falta de energia em estações de água, afetando os bairros Arquipélago e São José.
O temporal causou vários estragos materiais. Tal como em Pelotas, onde os ventos derrubaram parte do muro do Presídio Regional. Em Portão, o estrago foi no hospital do município e em Santa Cruz do Sul, numa estrutura no Parque de Eventos. Em Eldorado do Sul, houve danos em escolas e em um assentamento de trabalhadores rurais.
Houve bloqueios e obstruções em vias por árvores, postes, fios e deslizamentos em municípios como Cerro Branco, São João do Polêsine, Cachoeira do Sul, Maquiné e Santa Maria. No Litoral Norte, cidades como Arroio do Sal, Osório e Tramandaí ficaram sem fornecimento de energia devido a danos na rede elétrica.
Houve inúmeros destelhamentos de residências. Como no municídio de Caseiros, que informou danos em 140 residências. Santa Cruz do Sul registrou mais de 100 moradias afetadas pelos vento, enquanto que sem Sapiranga houve aproximadamente 90 casas danificadas. Em Montenegro, aconteceram estragos em 50 residências e, em Igrejinha, pelo menos 20 imóveis foram duramente atingidos pelos efeitos da ventania.
A ventania foi intensa em algumas localidades. As mais fortes chegaram a 134,3 km/h na estação de General Câmara. Porto Alegre registrou ventos de 120,4 km/h, enquanto Canoas teve rajadas de 113 km/h. E pela segunda semana consecutiva, um tornado ocorreu no município de Pedro Osório, no Sul do estado. A confirmação foi feita pela Climatempo Meteorologia, com base em dados da Defesa Civil gaúcha.
A Climatempo informou que os três estados do Sul ainda podem registrar rajadas de vento de até 100 km/h, descargas elétricas, chuvas de forte intensidade em pouco tempo, granizo de grandes dimensões e tornados.
Fenômeno assutador
O que é o "ciclone-bomba"? — Um "ciclone-bomba" (tecnicamente chamado de "ciclogênese explosiva") é um fenômeno extratropical que ganha força de maneira extremamente rápida e violenta devido a uma queda abrupta da pressão atmosférica em seu centro. Para que um sistema seja classificado como "ciclone-bomba", a pressão no centro da baixa pressão precisa despencar pelo menos 24 milibares (hPa) em até 24 horas. Essa variação drástica funciona como um "combustível" que acelera a intensidade dos ventos em pouco tempo.
Como o "ciclone-bomba" se forma?
» Choque térmico — ocorre quando uma massa de ar muito frio e seco (vinda das regiões polares) encontra uma massa de ar quente e úmido (geralmente sobre o oceano).
» Queda da pressão — esse forte contraste de temperatura faz com que o ar quente suba rapidamente, criando uma "vazão" de massa de ar na atmosfera.
» Aceleração dos ventos — para preencher esse espaço de baixa pressão na superfície, o ar ao redor é sugado com muita força, gerando uma espiral de ventos intensos.
Principais impactos
» Ventos intensos — frequentemente ultrapassam os 100 km/h, provocando queda de árvores, destelhamentos e danos à rede elétrica.
» Agitação marítima — provoca ressacas severas e ondas grandes na faixa litorânea.
» Tempestades e queda de temperatura — trazem chuvas volumosas seguidas de uma queda acentuada nos termômetros devido à massa de ar frio que vem logo atrás.
» Ocorrência no Brasil — com o desequilíbrio climático, os "ciclones-bomba" se formam ocasionalmente no Atlântico Sul, afetando principalmente as regiões Sul e Sudeste do país. (FG com Agência Estado)
*Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi
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