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Encontro de trisais busca reconhecimento e respeito: "Não é libertinagem, é amor"

Segundo encontro de trisais reúne mais de 30 famílias no Rio para compartilhar experiências, discutir preconceito e buscar reconhecimento e respeito

Segundo encontro reúne mais de 30 famílias para trocar experiências e discutir os desafios de viver relações poliafetivas -  (crédito: Reprodução/Redes sociais )
Segundo encontro reúne mais de 30 famílias para trocar experiências e discutir os desafios de viver relações poliafetivas - (crédito: Reprodução/Redes sociais )

Quando Renaultt, Jucimara e Vanessa Chaveiro começaram a viver juntos, há 15 anos, eles acreditavam que eram uma exceção. Hoje, o trisal de Goiânia sabe que outras famílias enfrentam dilemas semelhantes — e é justamente esse sentimento de pertencimento que os leva ao segundo Encontro de Trisais, no Rio de Janeiro.

A história dos três começou de maneira turbulenta. Renaultt, 40 anos, já era casado com Jucimara, conhecida como Juba, 41, quando Vanessa, 34, entrou para trabalhar com eles em um estabelecimento que mantinham na época. O envolvimento entre Renaultt e Vanessa começou enquanto ele ainda estava casado, situação que provocou mágoas, inseguranças e tentativas de separação.

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Com o tempo, porém, os três decidiram conversar e tentar construir uma relação conjunta. "Quando sentamos e conversamos sobre nós, resolvemos tentar, unidos sempre!", conta Renaultt.

Hoje, os três trabalham juntos em um depósito de material de construção e construíram uma família. Jucimara é estudante de fisioterapia e Vanessa cursa educação física. Cada uma tem um filho com Renaultt, uma menina de 8 anos e um menino de 6.

A trajetória também mudou a maneira como eles enxergam a própria relação. No começo, o medo do julgamento fazia com que mantivessem a vida privada longe das redes sociais. Segundo Renaultt, alguns familiares se afastaram e outros ainda não concordam com o relacionamento. Por outro lado, os pais dele apoiam a família, e os filhos são tratados com respeito no ambiente escolar.

Foi ao se exporem que eles descobriram que não estavam sozinhos. "Vimos que não somos os únicos, que existem sim famílias do mesmo estilo de amor poliafetivo, que existem pessoas que passaram pela mesma insegurança", afirma.

Para o trisal, uma das maiores dificuldades continua sendo lidar com a curiosidade alheia. Renaultt diz que perguntas sobre a intimidade sexual ultrapassam um limite, independentemente do formato da relação. "É uma coisa pessoal de cada um, independente da forma que se vive", resume.

A família defende que o encontro seja justamente um espaço para discutir essas questões e reivindicar respeito. "Não somos monstros, somos famílias", afirma Renaultt.

 
 
 
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Uma relação que começou sem nome

Ghean Queiroz, 36 anos, Karoline Delmondes, 34, e Larissa Araújo, 29, também passaram por um período em que não encontravam referências para explicar a própria família. Ghean e Karoline se conheceram na igreja. Ele cantava, enquanto ela cuidava do som. Depois, Ghean conheceu Larissa em um grupo de WhatsApp. O momento que fez os três perceberem que poderiam formar uma relação aconteceu depois de um Natal juntos.

A chegada de Larissa à casa, em 25 de fevereiro de 2020, ficou marcada como o momento simbólico em que passaram a se enxergar, de fato, como um trisal. O início, entretanto, teve ciúmes e inseguranças. Antes de existir uma relação entre os três, Ghean mantinha vínculos com as duas mulheres separadamente. Elas sabiam uma da outra, mas não tinham amizade ou convivência.

As famílias também reagiram de formas diferentes. Os pais de Karoline surpreenderam o casal ao priorizarem a felicidade da filha, mesmo sendo mais velhos. Já a família de Larissa ainda não reconhece a relação.

A rotina dos três é organizada a partir de uma regra simples: decisões importantes precisam ser consensuais. Até escolhas cotidianas são discutidas entre os três. "Mesmo se dois quiserem, nós não fazemos. Até os três concordarem", explica Ghean.

A família já enfrentou situações em que a estrutura do relacionamento entrou em conflito com regras sociais pensadas para casais tradicionais. No nascimento do último filho, por exemplo, houve dificuldade para que Karoline acompanhasse Larissa durante o parto. Em eventos relacionados a uma empresa onde Ghean trabalhava, os três também tiveram problemas porque a organização permitia que ele levasse apenas uma esposa.

Com quatro filhos, três deles nascidos enquanto a relação já existia, Ghean afirma que a família ainda enfrenta olhares e julgamentos. "Como famílias, as pessoas veem muito como 'putaria', como falta de amor, mas é muito o contrário. Somos uma família que se ama muito", diz.

De encontro entre amigos a evento nacional

A ideia de reunir essas famílias partiu de Priscila Mira, administradora que vive um trisal há oito anos e participa da organização do encontro desde a primeira edição. A proposta inicial era pequena: reunir alguns amigos em casa para conversar sobre experiências, dificuldades e a dinâmica de uma relação entre três pessoas. A quantidade de interessados, porém, rapidamente mostrou que a casa não seria suficiente.

A solução foi transformar a reunião em um evento. A primeira edição ocorreu no ano passado, em São Paulo, e reuniu mais de 39 famílias de trisais. Para Priscila, os vínculos criados foram um dos principais resultados do encontro. "Além de que as famílias levam seus filhos e os filhos daí convivem com famílias iguais às deles, isso é muito agregador", afirma.

A segunda edição terá uma proposta diferente. Se no primeiro encontro predominou a conversa informal, desta vez haverá rodas de conversa mediadas por psicólogos e especialistas. A intenção é permitir que os participantes compartilhem experiências sobre relacionamento, família, preconceito, religião e convivência social.

A organização espera reunir mais de 30 famílias nesta edição. A quantidade foi reduzida em relação ao primeiro encontro por questões logísticas. A realização no Rio de Janeiro, na mesma época do Rock in Rio, também elevou os custos para algumas famílias.

Priscila afirma que o objetivo não é apenas aproximar pessoas que vivem relações poliafetivas, mas também ampliar a visibilidade dessas famílias. Para ela, o número de pessoas que assumem esse tipo de relacionamento não necessariamente aumentou. O que mudou foi a disposição de algumas famílias para falar sobre o assunto. "Eu acho que sempre existiu, mas antes era mais velado", afirma.

Segundo Priscila, há trisais com 15 e 18 anos de relacionamento que só recentemente passaram a se mostrar publicamente. Para ela, encontros como esse ajudam a criar uma rede de apoio para quem durante muito tempo acreditou estar sozinho.

É também por isso que Ghean considera importante encontrar outras famílias com experiências semelhantes. "Quando começamos, há 11 anos, éramos só malucos e nos sentíamos sozinhos. Nossa relação não tinha nome", conta.

Hoje, participar de um encontro com dezenas de famílias produz o efeito oposto: a sensação de pertencimento. "Dar um alívio" é como ele define a possibilidade de trocar experiências com pessoas que enfrentam dificuldades parecidas.

A expectativa dos participantes é que a convivência ajude a discutir não apenas as particularidades de cada relação, mas também os limites do preconceito e a busca por reconhecimento e respeito. Para Priscila, o principal desafio é fazer com que essas famílias sejam percebidas para além dos estereótipos. "Não se trata de libertinagem, e sim de amor", conclui.

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postado em 08/09/2026 21:12 / atualizado em 08/09/2026 21:13
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