Eleições 2026

Justiça eleitoral do Amapá barra candidatura de advogado suspeito de ligação com facção

TRE-AP nega registro de Dr. Hugo após provas de vínculo com a 'Família Terror do Amapá'; decisão é a primeira do tipo na história eleitoral do estado

Tribunal Regional Eleitoral do Amapá -  (crédito: TRE-AP/Divulgação)
Tribunal Regional Eleitoral do Amapá - (crédito: TRE-AP/Divulgação)

O Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP) indeferiu o registro de candidatura do advogado Hugo Barroso Silva, 38 anos, conhecido como Dr. Hugo (Republicanos). Ele tentava concorrer a uma vaga de deputado estadual nas eleições de 2026, mas teve o pedido negado após a corte concluir que mantém ligação com a facção criminosa Família Terror do Amapá (FTA).

A decisão, apontada como inédita na história eleitoral do estado, teve o apoio de quatro dos sete juízes do TRE-AP e foi defendida pela procuradora eleitoral Sarah Cavalcanti de Britto. Diferentemente do que ocorre em processos baseados na Lei da Ficha Limpa, o indeferimento não decorre de condenação por corrupção ou lavagem de dinheiro, mas do artigo 17, parágrafo 4º, da Constituição Federal, que veda a utilização de organizações criminosas por partidos políticos. Segundo a procuradora, trata-se de norma autoaplicável, que dispensa legislação complementar para incidir sobre os registros de candidatura.

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De acordo com Cavalcanti, as provas apresentadas incluem conversas em que criminosos presos citam Hugo como interlocutor da facção, além de indícios de que seu nome e contato circulavam entre lideranças da FTA como o de alguém capaz de operacionalizar esquemas em nome do grupo. Hugo atuou em defesa própria no julgamento e negou as acusações.

Caso se soma a outras decisões no estado

O episódio ocorre num contexto de decisões recentes do TRE-AP contra a interferência de facções em disputas eleitorais. Em 25 de agosto, a corte cassou o diploma do suplente a vereador de Macapá Luanderson de Oliveira Alves, o "Caçula", e declarou sua inelegibilidade por oito anos, pena estendida ao intermediário Rosemiro de Carvalho Freitas, o "Bira". O tribunal reconheceu abuso de poder econômico por parte de Caçula, que teria se beneficiado do domínio territorial da FTA nas eleições de 2024 — quando obteve 354 votos (0,15%). Caçula já havia sido preso em 2024 numa operação da Polícia Federal que investigava financiamento de campanhas por facções criminosas.

Investigações da PF apontam ainda ligação do esquema com o ex-subsecretário de zeladoria urbana de Macapá, Jesaias Silva e Silva, que teria mencionado, em conversas interceptadas, apoio do então prefeito da capital, Dr. Furlan — hoje candidato ao governo do Amapá em 2026. Furlan foi afastado do cargo por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino em março, renunciou no dia seguinte e lançou pré-candidatura ao Palácio. Ele é alvo de três operações da PF desde setembro de 2025, relacionadas a fraude em licitação, desvio de recursos e financiamento de rede digital de ataques a adversários.

Grupo de trabalho nacional

Os TREs tinham até 14 de setembro para julgar os pedidos de registro de candidatura, com possibilidade de recurso ao TSE nos casos de indeferimento. Diante do avanço de facções na política, o Ministério Público Eleitoral criou um Grupo de Trabalho de Combate ao Crime Organizado no Âmbito Eleitoral, coordenado nacionalmente pela própria Sarah Cavalcanti de Britto, sob articulação do vice-procurador-geral eleitoral Alexandre Espinosa e diretrizes do procurador-geral da República, Paulo Gonet. O grupo tem subsidiado decisões semelhantes em diferentes estados do país.

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postado em 16/09/2026 12:23 / atualizado em 16/09/2026 12:28
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