CONSERVAÇÃO

Iniciativa de restauração do Cerrado celebra reconhecimento da ONU

Evento realizado nesta quinta-feira (24/9) celebra reconhecimento internacional da Araticum e reúne governo, organizações e comunidades para discutir a restauração do Cerrado

O reconhecimento também foi apresentado como resultado de uma articulação entre diferentes setores que atuam na recuperação do Cerrado -  (crédito: Silas Ismael / WWF-Brazil)
O reconhecimento também foi apresentado como resultado de uma articulação entre diferentes setores que atuam na recuperação do Cerrado - (crédito: Silas Ismael / WWF-Brazil)

O reconhecimento Araticum – Restauração do Cerrado Brasileiro como Iniciativa de Referência da Restauração Mundial pela Organização das Nações Unidas (ONU) foi celebrado nesta quinta-feira (24/9), em Brasília, durante um encontro que reuniu representantes do governo, organizações e comunidades envolvidas na recuperação do bioma.

Anunciada pela ONU em 26 de agosto, a iniciativa destacou o trabalho desenvolvido no Brasil para restaurar o Cerrado, um dos biomas mais biodiversos do planeta, que sofre com o desmatamento, a fragmentação da vegetação e as mudanças climáticas.

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Durante o encontro, foram discutidos caminhos para ampliar a restauração com qualidade ecológica, inclusão social e participação dos territórios. Laura Antoniazzi, do Araticum e do Agroicone, afirmou que a dimensão do bioma exige ampliar as ações existentes. “É um território muito grande. A gente precisa de muita ambição, muita ação, muita iniciativa para conseguir alcançar”, disse. Segundo ela, o objetivo da iniciativa é identificar experiências que já apresentam resultados e podem ganhar escala até 2030.

“A intenção não é fazer uma vitrine. A intenção é identificar plataformas vivas que vão buscar cooperação, aprendizagem e mobilização”, explicou.

O reconhecimento também foi apresentado como resultado da articulação entre diferentes setores que atuam na recuperação do Cerrado. Laura Antoniazzi destacou que a seleção representa uma nova camada de reconhecimento ao trabalho realizado no Brasil e ressaltou que o país é o primeiro e único a ter duas iniciativas reconhecidas pela ONU como Iniciativas de Referência da Restauração Mundial.

Durante o evento, Anna Flávia de Senna Franco, secretária-executiva do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, afirmou que o desafio da restauração não pode ser enfrentado por uma única instituição. “Nenhum vai dar conta desse desafio sozinho e, por isso, nós precisamos todos nós estarmos juntos, a sociedade inteira”, declarou. Ela também destacou a importância do Cerrado para o país.

O bioma ocupa 11 estados brasileiros, reúne cerca de 28 milhões de pessoas, o equivalente a 12% da população nacional, conecta diferentes biomas e representa cerca de 30% da biodiversidade brasileira. O Cerrado também concentra nascentes e áreas de cabeceira de importantes bacias hidrográficas, o que o torna estratégico para a segurança hídrica.

Anna Flávia também apresentou dados sobre as ações de combate ao desmatamento e de recuperação da vegetação nativa. Segundo as informações apresentadas no encontro, os alertas de desmatamento no Cerrado registraram queda de 18,9% em agosto, resultado considerado o segundo melhor para o mês nos últimos anos. Também houve redução no período de junho a agosto em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.

O Brasil assumiu o compromisso de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030 e, no Cerrado, já foram identificados cerca de 374 mil hectares em processo de restauração. Entre as medidas citadas estão o fortalecimento do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, a estruturação de territórios de restauração, o monitoramento e a mobilização de novos mecanismos de financiamento.

Eco Invest

No Eco Invest Brasil, cerca de 57% dos investimentos do leilão mencionado foram direcionados ao Cerrado, totalizando R$ 17,2 bilhões. Também foram citados recursos para projetos de restauração na bacia do São Francisco, incluindo cerca de R$ 250 milhões disponibilizados neste ano a partir de recursos da desestatização da Eletrobras.

Para Anna Flávia, o desafio é transformar a capacidade já existente em ações de maior escala. “Nosso desafio é fazer com que essa capacidade encontre as condições necessárias para crescer em escala e produzir resultados para as pessoas, para o Cerrado e para o Brasil”, afirmou.

A experiência das comunidades que atuam diretamente nos territórios também foi apresentada durante o encontro. Claudomiro Cortes, da Associação Cerrado de Pé, relatou o trabalho desenvolvido na Chapada dos Veadeiros, onde a organização reúne atualmente 240 famílias envolvidas na coleta de sementes nativas. 

Segundo ele, 78% dos coletores são mulheres. A atividade começou em 2009, com um experimento de 3,5 quilos de sementes, e atualmente alcança uma média de 20 a 30 toneladas por ano, entre sementes de capim, arbustos e árvores. Ao longo desse período, foram coletadas cerca de 120 toneladas de sementes.

Claudomiro explicou que a atividade envolve diferentes etapas, desde a coleta e o beneficiamento até a preparação das áreas, o plantio e a manutenção. A associação já participou da restauração de aproximadamente 240 hectares, incluindo áreas que anteriormente eram utilizadas como pastagem. Para ele, a recuperação ambiental também precisa estar ligada à participação e à geração de renda para os moradores. 

“Quando a gente consegue incluir as pessoas da comunidade nesse processo, a gente vê que dá certo”, afirmou. Claudomiro também destacou o retorno da fauna às áreas restauradas e resumiu a experiência dizendo: “Restaurar o Cerrado é possível”.

Participação comunitária

O evento desta quinta-feira marcou, portanto, a celebração de um reconhecimento anunciado pela ONU em agosto e colocou em discussão os próximos passos para ampliar a restauração do Cerrado. A iniciativa Araticum reúne diferentes experiências e atores envolvidos na recuperação do bioma e busca articular políticas públicas, financiamento, conhecimento científico, monitoramento e participação comunitária.

Para Anna Flávia, o reconhecimento internacional demonstra a força da rede brasileira que trabalha pela restauração e reforça a necessidade de criar condições para que essas experiências avancem. “Essa é uma conquista da ampla rede de atores que vem construindo a restauração do Cerrado. Antes de tudo, é uma conquista das pessoas, das comunidades, das organizações e instituições que há anos trabalham pela restauração do Cerrado”, afirmou. 

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A proposta discutida no encontro é ampliar a recuperação da vegetação nativa sem desconsiderar as características de cada território, conciliando conservação da biodiversidade, proteção dos recursos hídricos e participação das comunidades que vivem e trabalham no Cerrado.

*Estagiária sob supervisão de Rafaela Gonçalves 

 

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postado em 24/09/2026 17:17
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