eleições 2026

CNBB cobra dos eleitos compromisso com a democracia e o povo

Mensagem da Conferência dos Bispos chama a atenção dos novos integrantes dos poderes Executivo e Legislativo, que têm a responsabilidade de trabalhar para todos os cidadãos, independentemente das escolhas que fizeram nas urnas

 22/10.2026 - Ed Alves CB/DA Press. Politica. Urna Eletronica. Eleicções 2026. -  (crédito:  Ed Alves CB/DA Press)
22/10.2026 - Ed Alves CB/DA Press. Politica. Urna Eletronica. Eleicções 2026. - (crédito: Ed Alves CB/DA Press)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou, ontem, mensagem aos eleitos nas eleições em que pede o fortalecimento da democracia, o combate às desigualdades sociais e o compromisso dos representantes com o interesse público. A CNBB destaca que a eleição não é uma simples vitória política, mas "a assunção de uma responsabilidade diante de todo o povo brasileiro, inclusive daqueles que fizeram escolhas diferentes nas urnas".

"Desejamos que os representantes escolhidos pelo povo contribuam para fortalecer a convivência democrática, rejeitando a violência, a intolerância, a desinformação e toda forma de discriminação. A pluralidade de ideias, própria da democracia, não deve impedir a busca de convergência em torno daquilo que é essencial para a vida e a dignidade do povo brasileiro", observa.

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Segundo a CNBB, a política não deve se restringir a partidos, setores particulares ou grupos, mas "alcançar especialmente aqueles que mais necessitam da presença e da proteção do Estado". Defende, também, a existência de políticas públicas e diálogo entre os poderes para superar desafios ainda existentes, como pobreza e desigualdade, além da promoção do trabalho digno, do acesso à saúde, à educação, à moradia, assim como a segurança pública e a defesa incondicional da vida e da dignidade humana.

Para a Conferência dos Bispos, os mandatos devem ser conduzidos com espírito democrático, integridade, transparência, diálogo, respeito às instituições e compromisso com a dignidade humana. Mais: a entidade salienta que o exercício da autoridade pública deve ter como finalidade o serviço ao bem comum, sem se limitar aos interesses de partidos, grupos ou setores específicos.

A mensagem destaca uma série de desafios sociais que exigem responsabilidade dos eleitos. Entre as prioridades estão a superação da pobreza e da fome, a redução das desigualdades, a promoção do trabalho digno e a ampliação do acesso à saúde, à educação e à moradia.

"Nossa contribuição nasce do compromisso com o Evangelho de Jesus Cristo, especialmente com os pobres, os pequenos e os que sofrem. Não se confunde com adesão partidária, mas expressa a responsabilidade da Igreja de colaborar para uma sociedade na qual ninguém seja privado das condições necessárias à vida digna", frisa.

Números

No balanço da eleição apresentado ontem pela Polícia Federal, 278 pessoas foram detidas por supostos crimes eleitorais e apreendidos R$ 2.893.733,62 em bens e valores — R$ 524.654,50 em espécie. Também foram apreendidos aparelhos celulares, equipamentos de informática e de som. No primeiro turno, até as 23h59 de 4 de outubro, foram instaurados 49 inquéritos policiais e lavrados 100 termos circunstanciados (TCs) para apurar a prática de crimes eleitorais. As ocorrências foram registradas em pelo menos 24 unidades da Federação.

Somente no primeiro turno, R$ 2.852.313,60 em bens e valores foram apreendidos, sendo R$ 520.497,50 em espécie. Ao todo, 204 pessoas foram conduzidas à PF. Entre os principais crimes apurados estão a propaganda eleitoral irregular e a corrupção eleitoral, especialmente a compra de votos.

No segundo turno, a PF registrou 86 casos relacionados a possíveis crimes eleitorais. Até às 8h de ontem, foram instaurados 13 inquéritos e lavrados 64 TCs. Setenta e quatro foram pessoas detidas e R$ 41.420,02 apreendidos em bens e valores.

Vontade do eleitor e esperança no voto

A intensa campanha de rua entre os turnos reverteu a passividade e atraiu eleitores que se abstiveram no primeiro turno. Comparado à primeira etapa da eleição, o número de abstenções diminuiu 1,8%. Apenas 19,22% dos eleitores não foram às urnas— o menor número em 20 anos. Uma mudança significativa na atuação digital garantiu a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

No discurso de vitória,o presidentedestacou o papel dos jovens com mobilização nas ruas além da participação dos idosos. "Agradeço a generosidade da juventude brasileira que foi às ruas para defender a democracia", reconheceu. A importância da presença desses grupos também foi enfatizada pelo senador Camilo Santana em um vídeo publicado nas redes sociais. Ao parabenizar Lula, o ex-ministro da Educação relatou a emoção ao ver jovens e idosos se mobilizando para votar.

Para o analista político e consultor em marketing político Deividi Lira, a movimentação dos candidatos nas redes sociais permitiu que as campanhas reforçassem suas narrativas e mantivessem contato permanente com os eleitores. "As redes sociais se consolidaram como um dos principais ambientes de fazer política, principalmente entre o público jovem, que votou pela primeira vez", destacou.

A aposentada Ana Maria Oliveira de Souza, de 65 anos, acredita que um dos fatores decisivos para a reeleição foi o trabalho do deputado federal André Janones (Rede-MG) nas redes sociais, especialmente no WhatsApp, por meio do canal Exército do Lula, do qual também faz parte. Além disso, ela cita os atos nas ruas como um fator decisivo para a vitória do petista.

"As pessoas se mobilizaram mais e, nesses momentos, percebi o entusiasmo, a alegria e vontade das pessoas em combater a ameaça que a eleição de um Bolsonaro poderia trazer para o país", diz. A aposentada contou que estava insegura quanto à vitória do presidente, mas ao ver as pessoas na rua e o engajamento nas redes sob a coordenação do Janones, "esse receio foi se transformando numa esperança e numa certeza da vitória".

Para o fisioterapeuta Maik Pires, 33 anos, a vitória foi recebida "com tristeza". Para ele, é difícil depositar confiança em Lula depois de tantos anos no poder. Ele considera que a pobreza é "utilizada como instrumento político para conquistar e manter o poder".

"Não consigo enxergar esperança em um futuro que parece nos ensinar a aceitar que a corrupção faz parte da política, que tudo continuará caro, que o pobre sempre será pobre e que nada pode mudar", diz.

Para Maik, a grande rejeição de Flávio se deu, principalmente, pela história do pai, Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado. Além disso, as ações do ex-presidente na pandemia também foram um fator para que o filho não fosse eleito.

"As pessoas utilizam episódios isolados do passado para justificar uma rejeição, sem sequer analisar suas propostas, suas ideias ou a possibilidade de construir algo diferente. Acredito que a alternância de poder é uma das maiores riquezas da democracia. E, para mim, é preocupante quando a rejeição a um nome pesa mais do que uma avaliação consciente sobre o futuro do país", filosofa.

O estudante Alexandre Vilas Boas, de 21 anos, acredita vê na corrida presidencial recé-m encerradaum momento histórico. "Sabia que, ganhando ou perdendo, a diferença de votos entre os dois seria pouca", afirma. Para ele, a postura e a organização foram aspectos importantes da campanha de Lulano segundo turno. Enão fazer ataques e críticas aos eleitores que votaram nas terceiras vias no primeiro turno facilitou "virar o voto" de muitos eleitores.

Segundo o cientista político e coordenador de Análise Política Federal na BMJ Consultores, Lucas Fernandes, a rejeição, a percepção sobre a economia — especialmente sobre emprego, renda e custo de vida — e a capacidade de mobilização e ampliação do eleitorado entre os turnos foram os principais fatores que levaram à vitória de Lula.

Fernandes entende que não há, necessariamente, uma contradição entre a vitória de Lula e a força da direita no Congresso, uma vez que os eleitores adotam critérios diferentes na escolha dos representantes do Executivo e do Legislativo. Enquanto a eleição presidencial é marcada por questões nacionais, pela avaliação do governo e pela rejeição aos candidatos, a disputa legislativa sofre maior influência de fatores locais, como o reconhecimento dos candidatos, as alianças políticas e a capacidade de mobilização regional.

"O recado das urnas é o de um país politicamente dividido. A governabilidade dependerá da capacidade de Lula construir acordos, negociar prioridades e formar coalizões com os partidos do Centrão, que deve continuar exercendo um papel decisivo na definição da agenda legislativa", afirma.

*Beatriz Vasconcelos e Caetano Yamamoto são estagiários sob supervisão de Fabio Grecchi

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CY
postado em 27/10/2026 05:00
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