No norte do Rio Grande do Sul, Passo Fundo ostenta um título oficial da União, sediado o maior encontro literário da América Latina e nasceu do vau que os tropeiros usavam para atravessar o rio a caminho de São Paulo. É uma cidade que rara tem um nome fluvial e um título federal de Literatura.
A lei que transformou uma cidade em título nacional
É difícil achar cidade brasileira com apelido tão oficial. Em 2 de janeiro de 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 11.264, referendada pelo então ministro da Cultura Gilberto Gil, que confere a Passo Fundo o título de Capital Nacional da Literatura.
O texto da lei tem apenas dois artigos e cita como justificativa o fato de o município ser a sede da Jornada Nacional de Literatura. É uma raridade: poucos municípios brasileiros têm apelido reconhecido em lei federal, com data, número e assinatura verificáveis no Diário Oficial da União.

Uma professora, um escritor e a Jornada que virou referência
A vocação literária tem endereço e nome. Segundo a Universidade de Passo Fundo (UPF), as Jornadas Literárias nasceram em 1981 pelas mãos da professora Tania Rösing, com apoio do escritor Josué Guimarães. A primeira edição foi Sul-Rio-Grandense, realizada na Faculdade de Medicina. Em 1983 o evento virou nacional.
De lá para cá, a Jornada se consolidou como uma das maiores movimentações literárias da América Latina, promovida em parceria pela UPF e pela Prefeitura de Passo Fundo. Reúne escritores, ilustradores, pesquisadores e leitores em conferências, feiras do livro, seminários e a Jornadinha voltada ao público infantil. Tania Rösing coordenou 15 edições até ser jubilada pela UPF em 2017.
Um passo raso no rio que virou nome de cidade
O nome tem origem prática. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região fazia parte da rota dos tropeiros que subiam do pampa rumo a Sorocaba, no estado de São Paulo. O passo raso do rio, ou seja, o trecho onde o curso d’água ficava fundo mas com travessia possível, batizou o rio e depois o povoado.
Antes disso, a região era ocupada por povos tupi-guarani, jês e caingangues, que chamavam a área de Goyo-En, algo como muita água ou rio fundo. Ou seja, o topônimo atual traduz para o português o que os indígenas já registravam em sua língua séculos antes.
Uma fazenda de 1827 que se tornou município e depois 107
O núcleo urbano começou em 1827, quando o militar Manoel José das Neves, o Cabo Neves, ganhou terras do governo imperial para formar uma estância nas margens do caminho tropeiro. A casa dele ficava próxima à atual Praça Tamandaré. Em 1835, foi erguida a Capela de Nossa Senhora da Conceição no mesmo terreno.
Segundo o IBGE, o município foi criado pela Lei Provincial nº 340, de 28 de janeiro de 1857, e instalado em 7 de agosto do mesmo ano, com o primeiro prefeito Manuel José D’Araújo. O território original era tão vasto que hoje abriga 107 municípios gaúchos, entre eles Carazinho, Sarandi, Erechim e Marau. Uma cidade que multiplicou-se em uma centena de outras.

A literatura que saiu dos auditórios e ocupou a cidade
O título federal não é figura de retórica. A literatura desceu para a rua e virou paisagem urbana permanente. Vale conhecer:
- Marco da Capital Nacional da Literatura: escultura na Praça Armando Sbeghen, às margens do rio que dá nome à cidade.
- Túneis da Literatura: canteiro central da Avenida Brasil com trechos de obras trocados periodicamente e letras metálicas gigantes que viraram ponto de foto.
- Largos da Literatura: praças espalhadas pelo centro dedicadas a autores e cenas literárias.
- Circuito da Avenida Brasil: caminhada urbana que conecta os principais marcos entre si, feita a pé em menos de uma hora.
É como se Passo Fundo tivesse levado a sério o próprio decreto federal: se o título é oficial, o cenário urbano precisa acompanhar.
Como é o clima de Passo Fundo durante o ano?
O clima do Planalto Médio gaúcho tem quatro estações bem marcadas. O inverno é rigoroso, com geada frequente e chuva bem distribuída ao longo do ano.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Vale conhecer Passo Fundo
Passo Fundo junta uma origem tropeira, um nome que traduz a geografia local e um título federal que quase nenhuma cidade brasileira consegue exibir. A soma de rio, tropa, universidade e Jornada Literária desenha um perfil raro para uma cidade de porte médio no interior gaúcho.
Você precisa passar um fim de semana em Passo Fundo, caminhar entre as letras gigantes da Avenida Brasil e entender por que uma cidade que nasceu num passo raso hoje se define pelo que faz com os livros.




