Muita gente acredita que, como a loja define o próprio preço, não há nada a fazer quando um produto fica mais caro justamente na promoção. Pense em quem paga R$ 2.999 numa TV de 55 polegadas na Black Friday, R$ 400 acima do valor cobrado duas semanas antes. Subir o preço não é proibido por si só, mas anunciar como oferta um valor maior que o praticado pode configurar propaganda enganosa. E o histórico de preços é a prova mais simples desse descompasso.
A loja pode cobrar mais caro na Black Friday do que antes?
Pode, desde que não engane o consumidor sobre o que está oferecendo. No Brasil, o lojista tem liberdade para fixar e alterar preços, e uma alta de R$ 400 em duas semanas não é ilegal de forma automática.
O limite está no artigo 39 do Código de Defesa do Consumidor, que lista as práticas abusivas. O inciso X inclui “elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços”. Cabe ao Procon ou à Justiça avaliar, em cada caso, se houve motivo para o aumento.
O ponto decisivo é a forma como a oferta foi apresentada. Se a página exibia selo de Black Friday, preço riscado ou percentual de desconto, a loja comunicou uma vantagem que, pelo registro anterior, não existia.
Desconto sobre preço inflado configura propaganda enganosa
Quando a loja infla o valor de referência para anunciar um desconto, a oferta pode ser enquadrada como propaganda enganosa. O artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor proíbe a publicidade capaz de induzir o consumidor em erro, inclusive sobre o preço e mesmo por omissão.

A prática ganhou o apelido de “metade do dobro”: o produto sobe semanas antes e depois cai para um valor igual ou maior que o anterior. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) aponta a maquiagem de preços entre os problemas comuns da data. A orientação do órgão é consultar o histórico antes de fechar a compra.
A pressa típica desses dias também pesa na hora de decidir. A matéria abaixo explica como a Black Friday mexe com o comportamento de quem vai às compras.
Como o histórico de preços ajuda a provar a maquiagem?
O histórico mostra quanto a mesma loja cobrava pelo mesmo modelo em cada dia, e é isso que desmonta o desconto de fachada. No caso da TV, o registro de R$ 2.599 duas semanas antes contradiz qualquer anúncio de redução para R$ 2.999.
O Procon-SP orienta conferir o preço praticado nos dias anteriores, pesquisar em mais de um estabelecimento e fazer prints das telas. Guarde também o anúncio com o selo da promoção, o comprovante do pedido e a captura do gráfico de preços, com a data visível.
O próprio órgão paulista mantém um canal oficial com orientações para o período de promoções. No vídeo abaixo, a TV Procon-SP reúne alertas para quem pretende comprar na Black Friday.
Compra pela internet tem sete dias para arrependimento
Se a TV foi comprada no site ou no aplicativo da loja, o consumidor pode desistir em até sete dias. O artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor conta o prazo a partir da contratação ou do recebimento do produto, nas compras feitas fora do estabelecimento comercial.
Ao desistir, a loja precisa devolver de imediato os valores pagos, com correção monetária, conforme o parágrafo único do mesmo artigo. Em loja física, a lei não garante esse direito, e a saída passa a ser a negociação direta ou a reclamação formal.

Procon e consumidor.gov.br recebem a queixa do falso desconto
A reclamação começa pela própria loja, por escrito, pedindo a devolução da diferença ou o cancelamento da compra. Sem acordo, a Senacon indica o consumidor.gov.br, o Procon local e, se necessário, o Juizado Especial Cível.
Na campanha voltada à Black Friday, o Procon paulista informou que as queixas registradas no canal da data seguiam direto para a empresa, com até dez dias para resposta. Na Justiça, o pedido pode incluir a diferença paga, e o juiz analisa as provas de cada caso.
No fim, os R$ 400 entre o preço da promoção e o de duas semanas antes deixam de ser só frustração quando viram prova. Se você está de olho em alguma oferta, acompanhe o valor desde já e guarde os prints; e, se cair numa dessas, conte pra gente como a loja respondeu.
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