O que você faria se, perto dos 50 anos, alguém lhe oferecesse uma ilha inteira por um preço que cabia num empréstimo? Duas irmãs inglesas responderam em 1965. Evelyn e Babs Atkins, solteiras, criadas em Epsom, perto de Londres, tomaram emprestadas 22 mil libras e compraram a Ilha Looe, um pedaço de rocha e mato de 9 hectares a cerca de 1,6 quilômetro da costa da Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, segundo os registros reunidos pela editora Polperro Press e pelo guia Cornwalls.
A história das irmãs que compraram uma ilha e a transformaram em reserva natural poderia ter parado no gesto excêntrico. Não parou. Elas moraram lá por quase quatro décadas, sem eletricidade da rede, com um gerador a óleo e uma nascente. Quando a mais nova morreu, em 2004, a ilha não foi a leilão: foi para uma ONG de conservação, que a mantém até hoje como abrigo de focas-cinzentas e da maior colônia de gaivotões da região, conforme o Cornwall Wildlife Trust.
Por que duas irmãs compraram uma ilha inteira em vez de uma casa de praia?
A resposta curta está no título do livro que Evelyn publicou em 1976: “We Bought an Island” (Compramos uma ilha).
De acordo com o material de apresentação do livro “Looe Island”, da Polperro Press, o antigo proprietário aceitou uma hipoteca privada, fora do circuito bancário, justamente porque as irmãs prometiam preservar o lugar em vez de explorá-lo. As duas, segundo o guia Cornwalls, sonhavam envelhecer juntas ali. Evelyn, a mais velha, morreu em 1997, aos 87 anos, e Babs em 2004, aos 86, segundo a enciclopédia Wikipedia em inglês; um segundo livro saiu em 1986. O valor de 22 mil libras aparece em três fontes britânicas; a Wikipedia anota 25 mil, e este texto adota o número mais citado.
Como funciona a vida numa ilha sem eletricidade da rede?

Com carga nas costas. Tudo o que chegava à Ilha Looe vinha de barco e subia a pé.
O texto da Polperro Press descreve a rotina: a luz vinha de um gerador instalado numa trilha abaixo da casa principal, a água de uma nascente perto do Smuggler’s Cottage, e o óleo do gerador e o carvão do fogão eram descarregados dos barcos de entrega e transportados à mão. No início não havia telefone nem rádio: uma emergência era gritada aos barcos de pesca com um megafone de couro de baleia. A ilha tem 1,6 quilômetro de circunferência e ponto mais alto a 47 metros do mar, conforme a Wikipedia. O gesto das irmãs custou menos do que muita reforma de apartamento e durou mais do que qualquer cerca.
O que diz o testamento de Babs Atkins e o que mudou em 2004?
O que importa na história não é a compra, e sim o que Babs decidiu fazer quando ficou sozinha. Ela podia ter vendido e escolheu amarrar o destino da ilha.
Segundo a Polperro Press, em 2000, “apesar de ofertas muito substanciais em dinheiro”, Babs deixou a ilha em testamento ao Cornwall Wildlife Trust, com a condição de que o lugar continuasse protegido. A entidade assumiu em 2004, ano da morte dela, e a revista Cornwall Life registra que a ilha é mantida “como reserva natural em perpetuidade”. A casa das irmãs, a Island House, virou um pequeno museu, e Babs foi enterrada na própria ilha. O senso comum diz que patrimônio se deixa para a família ou vira dinheiro; aqui, um testamento transformou bem privado em bem público sem passar pelo Estado.
Quem mora na ilha Looe hoje: focas, gaivotas e ovelhas?
Mora gente também, mas pouca: os guardas-parque do Trust vivem na ilha o ano inteiro.
- Focas-cinzentas: o maior mamífero da Grã-Bretanha, com machos de cerca de 3 metros e 300 quilos, frequenta as pedras; um projeto de fotoidentificação já catalogou mais de 50 indivíduos diferentes, segundo o Cornwall Wildlife Trust e a Cornwall Life.
- Gaivotões: a ilha abriga a maior colônia reprodutiva da Cornualha do gaivotão-real (great black-backed gull); desde 2010, quase 700 aves foram anilhadas ali, conforme o Trust.
- Corvos-marinhos, cormorões e ostraceiros: nidificam nas falésias e no cascalho, na lista de espécies publicada pelo Trust.
- Ovelhas Shetland: um rebanho não reprodutivo pasta metade da ilha, separada por uma cerca, para manter o capim baixo onde as aves fazem ninho no chão; o primeiro rebanho, da raça Hebridean, chegou em agosto de 2006.
As águas em volta integram a Zona de Conservação Marinha de Whitsand e Looe Bay, e o Trust informa que a visita só é possível em passeios organizados, mais ou menos entre a Páscoa e o fim de setembro, sem cães, sem drones e sem pesca. Quem quiser conferir a programação encontra a página oficial da reserva da Ilha Looe mantida pelo Cornwall Wildlife Trust.
Onde o Brasil guarda as suas ilhas Looe: o que é uma RPPN?
Um brasileiro que quisesse repetir o gesto de Babs Atkins não precisaria de uma ONG estrangeira. A lei nacional já prevê a figura da Reserva Particular do Patrimônio Natural, a RPPN.
O artigo 21 da Lei 9.985/2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, define a RPPN como “uma área privada, gravada com perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica”. O gravame vai para a matrícula do imóvel e acompanha a terra em qualquer venda ou herança, conforme o texto integral da Lei do SNUC publicada pelo Planalto. O roteiro de criação de RPPN do ICMBio, de março de 2026, explica que a reserva só pode ser extinta por lei específica, que a área fica isenta de ITR e que o dono continua dono, podendo receber visitantes e pesquisa conforme o plano de manejo. O Cadastro Nacional de Unidades de Conservação registrava 1.136 RPPNs no país em fevereiro de 2024, somando cerca de 621 mil hectares, segundo levantamento a partir do cadastro citado pela Wikipedia; só em Minas Gerais, o Instituto Estadual de Florestas reconheceu a 300ª reserva estadual em janeiro de 2026, e o estado soma 399 RPPNs e cerca de 150 mil hectares com as 99 federais, conforme a Agência Minas. A ideia de limitar o acesso aparece num parque mineiro que aceita no máximo mil visitantes por dia, e a proteção que atravessa gerações está na origem de um dos parques mais antigos do país, no alto do Rio Grande do Sul.
O que convém lembrar sobre a ilha Looe e as irmãs Atkins?
Quem tem um sítio, uma mata ou um trecho de costa e quer garantir que ele não vire loteamento depois da própria morte deve procurar o órgão ambiental (ICMBio para reconhecimento federal, ou o órgão estadual, como o IEF em Minas) e pedir o roteiro de criação de RPPN: o pedido parte do dono, e a perpetuidade só vale depois da averbação na matrícula. Antes de comprar terra rural, convém ler a matrícula: se há RPPN averbada, o novo dono herda a restrição e a isenção de ITR junto. Testamento e RPPN se combinam: dá para deixar o imóvel a uma associação e, ao mesmo tempo, gravá-lo como reserva, para que a herança não dependa da boa vontade de quem receber. E quem viajar à Cornualha deve reservar o passeio, porque a ilha não aceita visita por conta própria.
Este material é informativo e foi montado a partir de publicações do Cornwall Wildlife Trust, de uma editora e de guias da Cornualha, da Lei 9.985/2000 e do roteiro do ICMBio; para criar uma RPPN ou incluir um imóvel em testamento, o caminho seguro passa por um advogado e pelo órgão ambiental competente, que avaliam cada matrícula e cada plano de manejo.




