Pouca gente para para pensar de onde vêm as coisas que usa todos os dias em casa. A resposta, muitas vezes, está em Joinville, no norte de Santa Catarina, uma cidade que nasceu do presente de casamento de uma princesa brasileira a um príncipe francês e virou um dos maiores parques industriais do país. Das fábricas da cidade saem refrigeradores, compressores, tubos de PVC e peças de motor, e, no meio delas, funciona a única escola do lendário Teatro Bolshoi fora da Rússia.
Por que Joinville é chamada de cidade dos príncipes?
Por causa de um casamento real. Em 1843, a princesa Francisca Carolina, filha de Dom Pedro I e irmã de Dom Pedro II, casou-se com o francês François Ferdinand de Orléans, que tinha o título de Príncipe de Joinville. Entre os bens do dote estavam terras no norte catarinense, que mais tarde receberiam imigrantes europeus.
A colonização começou em 9 de março de 1851, quando a barca Colon chegou com os primeiros 118 colonos, vindos principalmente da Alemanha, da Suíça e da Noruega. O povoado nasceu como Colônia Dona Francisca, em homenagem à princesa, e depois passou a se chamar Joinville, em referência ao título do marido. A herança daqueles imigrantes, habituados a ofícios e pequenas oficinas, ajudaria a explicar a vocação industrial da cidade.

O que sai das fábricas de Joinville e chega à sua casa?
Mais coisas do que parece. A Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, mantém em Joinville uma de suas unidades no Brasil, na Rua Dona Francisca, onde são produzidos refrigeradores e freezers. Na mesma cidade, a japonesa Nidec fabrica os compressores Embraco, o “coração” que faz geladeiras e balcões frigoríficos esfriarem, para uso doméstico e comercial.
Atrás das paredes de muitas casas brasileiras também há um pedaço de Joinville. O Grupo Tigre, com sede na cidade desde 1941, informa ter mais de 5 mil produtos em seu portfólio, presença em 30 países e mais de 85 mil pontos de venda. Foi ali que a empresa deu início à produção de tubos e conexões de PVC para instalações hidráulicas, os canos que levam água às torneiras e ao chuveiro.
Como a cidade chega aos motores de caminhões e máquinas?
Pelas mãos de uma fundição nascida na própria cidade. Segundo a Tupy, a empresa foi fundada em 1938 por imigrantes alemães e mantém em Joinville sua primeira fábrica e sua sede. Hoje, emprega mais de 20 mil pessoas e produz blocos e cabeçotes de motor, as peças de ferro fundido que formam a estrutura dos motores, exportadas para cerca de 40 países.
Na prática, isso significa que caminhões, tratores e máquinas que movimentam o agronegócio e a construção pelo mundo podem ter uma parte essencial fabricada no norte catarinense. A mistura de multinacionais estrangeiras e empresas nascidas na própria cidade transformou Joinville em uma referência industrial, chamada há décadas de Manchester Catarinense, em alusão à cidade inglesa símbolo da Revolução Industrial.
Qual o tamanho da economia de Joinville?
É a maior de Santa Catarina. De acordo com o Governo de Santa Catarina, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Joinville lidera o ranking dos municípios catarinenses pelo Produto Interno Bruto (PIB) de 2023, à frente de Itajaí e Florianópolis, e aparece entre as maiores economias municipais do Brasil.
Esse peso econômico se traduz em empregos e investimentos constantes, com fábricas que ampliam linhas de produção e grupos que mantêm a sede na cidade. Para quem pensa em morar ali, isso significa um mercado de trabalho diversificado, que vai da metalurgia aos plásticos, passando pela tecnologia e pelos eletrodomésticos.
Por que o Bolshoi escolheu Joinville?
Por causa da paixão da cidade pela dança. A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil funciona em Joinville desde 15 de março de 2000 e é a única filial do Teatro Bolshoi fora da Rússia. A história começou em 1996, quando a direção do teatro russo visitou a cidade durante o Festival de Dança de Joinville e se impressionou com o interesse do público pela arte.
Desde então, a escola forma bailarinos pelo método Vaganova, o mesmo usado em Moscou, como instituição sem fins lucrativos que concede bolsas aos alunos. Em sessão solene pelos 25 anos da escola, o Senado Federal registrou que ela formou quase 500 bailarinos, muitos deles dançando hoje em palcos de Moscou, Paris, Londres e Nova York. Na mesma cidade das fábricas, a disciplina do balé russo encontrou casa.

Como é o clima de Joinville ao longo do ano?
A chuva é frequente o ano inteiro, com pico no verão. Janeiro concentra 294 mm em média, enquanto agosto registra 91 mm, e julho, o mês mais frio, tem mínima de 13°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade que fabrica o cotidiano e forma bailarinos
Joinville carrega uma combinação difícil de encontrar. A cidade que nasceu do dote de uma princesa se tornou a maior economia de Santa Catarina, produzindo refrigeradores, compressores, tubos e peças de motor que chegam a casas e estradas do Brasil e do mundo. No meio desse ritmo industrial, a única escola do Bolshoi fora da Rússia transforma jovens brasileiros em bailarinos de carreira internacional.
Você precisa conhecer Joinville, assistir a um espetáculo dos alunos do Bolshoi e lembrar, ao abrir a geladeira em casa, que talvez ela tenha nascido na cidade do príncipe.




