Poucas cidades brasileiras se estendem por um istmo tão estreito e cumprem função ecológica tão precisa. Fundada em 1773 por imigrantes açorianos para garantir a posse portuguesa do território sul-brasileiro, Mostardas, no Litoral Sul do Rio Grande do Sul, tem cerca de 12 mil habitantes distribuídos entre 100 km de litoral atlântico e 100 km de litoral lagunar. É a cidade-sede do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, unidade de conservação de 36.721 hectares criada em 1986 que virou um dos principais pontos de descanso das aves migratórias que cruzam o continente americano entre o Alasca e a Patagônia.
Como Mostardas se tornou o santuário das aves migratórias?
O Parque Nacional da Lagoa do Peixe foi criado em 6 de novembro de 1986 pelo Decreto nº 93.546 com o objetivo de proteger uma das rotas migratórias mais importantes do continente. Segundo o Portal de Turismo do Rio Grande do Sul, o parque abriga mais de 180 espécies de aves catalogadas, entre elas gansos marinhos, cisnes, marrecos, flamingos, maçaricos e gaivotas. A unidade é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com sede na Praça Prefeito Luíz Martins, em frente à igreja matriz de Mostardas.
O parque virou Sítio Ramsar em 24 de maio de 1993, título internacional destinado a zonas úmidas de importância global. A Lagoa do Peixe, apesar do nome, é tecnicamente uma laguna porque se comunica com o mar. Tem cerca de 35 km de extensão e profundidade média de apenas 60 centímetros, o que forma o ambiente ideal para alimentação e descanso dos grandes bandos que descem do Hemisfério Norte durante o inverno boreal. Os flamingos-chilenos vêm do Chile e da Argentina, e maçaricos atravessam continentes inteiros para descansar nas águas rasas do litoral gaúcho.

O que fazer no Parque Nacional da Lagoa do Peixe?
O parque tem entrada principal pela arenosa Estrada do Talhamar, conectada à BR-101, a 18 km do centro de Mostardas. A visitação é gratuita e o parque funciona todos os dias, mas por questões de segurança e conservação, algumas trilhas exigem contratação de guias locais.
- Trilha do Talhamar: percurso de aproximadamente 12 km, o mais longo do parque, que atravessa dunas, restinga e áreas de banhado.
- Trilha das Dunas: caminho de cerca de 10 km entre os cordões de dunas paralelos ao Atlântico.
- Trilha da Figueira: percurso curto de 1,5 km ideal para observação de aves em ambiente florestado.
- Trilha dos Flamingos: caminho voltado para observação das aves na Lagoa do Peixe, principal atração da unidade.
- Festival de Aves Migratórias: acontece entre outubro e novembro, organizado pela administração municipal em parceria com o ICMBio e a SAVE Brasil, com atividades educativas e observação guiada.
Por que Mostardas guarda uma das mais completas heranças açorianas do Sul?
A cidade foi fundada em 1773 quando imigrantes açorianos vindos das ilhas dos Açores, em Portugal, se estabeleceram na região por decisão da Coroa Portuguesa. O objetivo era povoar o litoral sul do Brasil para garantir a posse do território frente às disputas com a Coroa Espanhola. Os colonos trouxeram a arquitetura das ilhas atlânticas, os métodos de pesca e a tradição do artesanato em lã que resistiram por mais de 250 anos.
O centro histórico de Mostardas mantém casarões coloniais coloridos do século XVIII, com fachadas simétricas e disposição das ruas típicas da colonização açoriana. A cidade também guarda um capítulo importante da Revolução Farroupilha: foi o berço de Menotti Garibaldi, filho dos revolucionários Anita Garibaldi e Giuseppe Garibaldi. Menotti nasceu em 1840, durante os anos em que o casal viveu no litoral gaúcho, e essa conexão histórica virou parte importante da identidade cultural do município.

Quais são as praias e atrações da região?
O território de Mostardas se estende por uma faixa estreita de terra com aproximadamente 100 km de litoral oceânico e mais 100 km de litoral lagunar. É possível ver o sol nascer sobre o Atlântico e se pôr sobre a Lagoa dos Patos no mesmo dia. O território abriga ainda 46 lagoas formando um cordão lagunar entre dunas e banhados.
- Praia do Bacupari: lagoa de águas mornas e cristalinas, perfeita para banhos relaxantes longe do mar agitado; um dos endereços mais buscados por famílias.
- Praia da Solidão: trecho de litoral deserto, praticamente vazio o ano inteiro, ideal para quem busca isolamento e caminhadas contemplativas.
- Farol de Mostardas: sentinela histórica listrada de preto e branco que guia navegantes desde o século XIX, uma das construções mais fotografadas do município.
- Farol da Solidão: torre farolizada na praia homônima, marco visual do litoral remoto.
- Balneário Mostardense: núcleo praiano tradicional com pousadas e infraestrutura básica para banho e pesca.
- Porto do Barquinho: ponto tradicional de birdwatching e pesca esportiva na margem da Lagoa dos Patos.
Como observar as baleias-francas em Mostardas?
Além das aves migratórias, o litoral de Mostardas é rota de passagem das baleias-francas-austrais entre os meses de julho e outubro. Os animais deixam a Península Valdés, na Patagônia argentina, em busca de águas mais quentes na costa catarinense para o período reprodutivo, e passam ao largo do litoral gaúcho durante a migração anual. É possível avistar exemplares a partir das praias do município, principalmente nas primeiras horas do dia, quando as baleias se aproximam da costa em busca de alimento.
A observação em Mostardas é gratuita e não exige embarcação. Diferentemente do que acontece em Santa Catarina, onde saem barcos de Imbituba e Garopaba, no litoral gaúcho o contato é feito da praia, com binóculos ou câmeras teleobjetivas. O período coincide com o auge do inverno na região, e o vento minuano frequentemente cria as condições ideais para observação, com maior movimentação da fauna marinha na plataforma costeira rasa do sul do Brasil.
O que comer em Mostardas?
A gastronomia local combina a herança açoriana com os produtos do Litoral Sul do Rio Grande do Sul. Peixes de água doce e salgada, camarão da Lagoa dos Patos e receitas tradicionais dos pescadores dominam os cardápios dos restaurantes do centro e das pousadas do balneário.
- Camarão da Lagoa dos Patos: pescado artesanalmente e servido em vários preparos, com destaque para o camarão à moda gaúcha.
- Peixe frito: servido geralmente com farofa, arroz e pirão, tradicional nos restaurantes de praia da região.
- Cambucá: prato tradicional dos pescadores açorianos, com peixe cozido em molho de tomate e cebola.
- Arroz de camarão: receita típica do litoral gaúcho, com camarão fresco e tempero regional.
- Tainha assada: peixe característico do inverno sulista, preparado inteiro com temperos regionais.

Como é o clima de Mostardas ao longo do ano?
Mostardas tem clima subtropical úmido, com verões amenos e invernos frios, típicos do Litoral Sul do Rio Grande do Sul. As chuvas são bem distribuídas ao longo do ano, com picos no final do inverno e na primavera. O vento é presença constante em qualquer estação, o que dá ao litoral a característica selvagem que atrai observadores de aves e amantes de praias desertas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Mostardas?
Mostardas fica a cerca de 200 km de Porto Alegre, com acesso pela RS-040 até Capivari do Sul e depois pela BR-101 até o município, trajeto de carro de cerca de três horas. Também é possível chegar pela BR-101 vindo de Osório, no Litoral Norte, a 165 km, ou de Rio Grande, no Litoral Sul, também a 165 km. O Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, é o mais próximo, com voos regulares de várias capitais brasileiras. Para visitar algumas atrações internas ao parque, veículos com tração 4×4 são recomendados por causa das estradas de areia.
Atravesse o istmo gaúcho e conheça o santuário das aves que cruzam continentes
Mostardas é o tipo de destino que faz sentido apenas quando visto pela geografia. A cidade fica em uma faixa estreita de terra entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, com 100 km de litoral em cada margem, o que gera o único lugar do Brasil onde é possível assistir o sol nascer sobre o mar e se pôr sobre uma lagoa no mesmo dia. É essa geografia rara que fez do Parque Nacional da Lagoa do Peixe o principal ponto de descanso das aves migratórias que cruzam o continente americano do Alasca à Patagônia, com mais de 180 espécies catalogadas e o título internacional de Sítio Ramsar desde 1993. Some a isso a herança açoriana de 1773 preservada no centro histórico, os faróis do século XIX, a passagem anual das baleias-francas entre julho e outubro e as praias praticamente desertas.
Você precisa reservar pelo menos três dias em Mostardas, percorrer a Estrada do Talhamar até a Lagoa do Peixe e caminhar pelo centro histórico açoriano para entender por que essa cidade gaúcha de apenas 12 mil habitantes virou um dos santuários ecológicos mais importantes das Américas.




