Pandemia

Vulnerabilidade social agrava casos de covid-19 registrados no DF

Comorbidades, questão socioeconômica e faixa etária agravam infecção pelo novo coronavírus. No DF, a taxa de letalidade mais alta é em Sol Nascente/Pôr do Sol

Edis Henrique Peres
Eduardo Fernandes*
postado em 16/09/2021 12:04 / atualizado em 16/09/2021 12:45
 (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

O Distrito Federal teve o primeiro caso de covid-19 notificado em 5 de março de 2020. Desde então 481.699 pessoas foram infectadas e 10.230 vidas foram perdidas. No entanto, o novo coronavírus não atinge com a mesma força todos os locais do Distrito Federal. Os pontos com maior vulnerabilidade social são também os locais com o maior número de incidências de casos e mortes. Na avaliação de especialistas, o Sars-CoV-2 evidenciou a desigualdade social vivida na capital do país. Segundo dados do Boletim covid-19 elaborado pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), o DF ocupa o 3° lugar das unidades federativas em número de casos por 100 mil habitantes, com uma taxa de letalidade em 2,13%.

Até o momento, a região administrativa com mais casos de covid-19 é Ceilândia, com um total de 52.649 casos e 1.569 mortes. Contudo, considerando a proporção de moradores, a região com o maior número de infectados se torna Sobradinho, com 27.736 casos a cada 100 mil habitantes. A RA é seguida pelo Lago Sul (25.996 casos/100 mil habitantes) e pelo Plano Piloto (21.991 casos/100 habitantes).

Em relação à letalidade do vírus o Sol Nascente/Pôr do Sol lidera o ranking, com 4,81% dos infectados morrendo por covid-19. A RA é seguida de Santa Maria (3,13%) e Planaltina (2,99%). No entanto, o epidemiologista da Universidade de Brasília, Mauro Sanchez destaca que os indicativos não são totalmente aplicáveis, devido à falta de testagem. “A testagem desde o começo da pandemia não foi extremamente ampla. A maioria dos casos foram notificados pelas pessoas que iam atrás de assistência médica. Em alguns momentos houve um aumento da testagem, mas ela não foi sustentada. Hoje, vários modelos utilizam na verdade o número de mortes, que é confiável, para estimar o número de casos da covid-19. Por isso, é difícil estimar qual região, ou qual local apresenta o maior número de casos”, pondera.

O epidemiologista explica que, para respostas imediatas, saber os casos que buscam ajuda é o suficiente, mas o desconhecimento do número de casos reais prejudica planejar e aplicar ações públicas. “No fim, indicador nenhum sozinho é capaz de dar um panorama correto do que está acontecendo. É necessário uma análise técnica para isso. De qualquer forma, as pessoas precisam se lembrar que mesmo vacinadas com as duas doses, a pandemia ainda não acabou”, enfatiza.

Mesmo sem um número que direcione onde estão os picos da doença, o especialista em saúde pública e pesquisador do Observatório PrEpidemia da UnB, Roberto Bittencourt, pontua que a desigualdade agrava o índice de mortes. “O vírus não é democrático, ele atinge principalmente as populações mais vulneráveis, que têm menos condições de se proteger, de ficarem isoladas. Geralmente os locais com pior índice de doenças coincidem com regiões mais afetadas também na violência e desemprego, por exemplo”, explica.

Roberto destaca que a única forma de enfrentar o problema da covid-19 é com a vigilância epidemiológica. “A vigilância é o único meio de proteger essas populações. As pesquisas já mostram isso, mas na esfera política nenhuma decisão foi tomada. O combate à covid-19 deve acontecer com a vigilância epidemiológica, com testagem em massa para a população vulnerável, e o auxílio emergencial, dando segurança alimentar para esse público e opção para ficar isolada, caso sejam contaminados”.

O pesquisador destaca outro aspecto fundamental para vencer o novo coronavírus na capital do país. “Precisamos começar a vacinar com a 3ª dose as pessoas acima de 60 anos. A vacinação é decisiva e fundamental no processo de combate. Porque por mais que a vacina impeça o desenvolvimento mais grave da doença, isso não significa que a pessoa não vai se contaminar. E os idosos, mesmo vacinados, são um grupo vulnerável e que precisa desse reforço, e urgente”, destaca.

Infecções por covid-19 no Distrito Federal. Dados de 14 de setembro de 2021
Infecções por covid-19 no Distrito Federal. Dados de 14 de setembro de 2021 (foto: Editoria de Arte/CB)

Perdas

Muito além de números, a covid-19 leva amigos, familiares e colegas. Amanda Xavier, 21, estudante de enfermagem e moradora de Ceilândia, sofre com o vazio deixado pela doença. Entre tantas histórias perdidas na cidade, está a tia de Amanda, que não resistiu a complicações da covid-19. Elisangela Marcelina tinha 43 anos, era casada e mãe de uma filha, era professora de história e geografia no colégio La Salle, do Núcleo Bandeirante, e dava aulas para turmas do ensino médio.

Amanda comenta que a infecção dos moradores que precisam ir trabalhar é comum em Ceilândia. “Muitas pessoas que moram em Ceilândia trabalham em outras cidades satélites, grande parte da população depende do transporte público, e a maioria da população depende do seu trabalho para sobreviver, gerando assim mais probabilidade de casos do covid-19”.

O morador do Plano Piloto, Jadyson Oliveira, 21 anos e estudante, venceu a covid-19 há aproximadamente 20 dias. Apesar de ser novo, desenvolveu alguns sintomas graves da doença. “Fiquei com muito cansaço físico. Durante minha recuperação só queria ficar deitado, sentia muita dor de cabeça, insônia e dor no corpo. Parecia que meu corpo tinha levado uma surra”, revela.

Para ele, o que mantém o alto número de casos no DF é a ignorância da população. “Acredito que agora temos que trabalhar junto com a vacina. Não só ser vacinado com a primeira dose e já sair de casa. Mas, é preciso respeitar a data da vacina, tomar a segunda dose para voltar a sair aos poucos”, defende o jovem. Jadyson ainda ressalta que o momento atual era evitável, mas está esperançoso com a melhor fase e a vacinação em massa para a população.

Perfil

De acordo com o boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde, dois grupos profissionais registram o maior número de casos e mortes: o da saúde, com 11.827 profissionais infectados, e o da segurança pública, com 3.811. Em relação às mortes, a saúde contabiliza 123 vidas perdidas, enquanto a segurança pública perdeu 139 profissionais. Já relacionado ao gênero, embora as mulheres tenham o maior número de casos (263.365), são os homens que morrem mais. Ao todo, 5.860 homens morreram pela covid-19, enquanto 4.370 mulheres tiveram as vidas interrompidas.

A faixa etária com o maior número de casos, segundo dados da SES-DF e considerando os números absolutos, é de 30 a 39 anos. A estudante Fabiany Carneiro, 34, moradora do Paranoá, chegou a se contaminar com o vírus. Com a saturação baixa e o pulmão comprometido em 50%, precisou ser internada às pressas na unidade de terapia intensiva (UTI). “Fui direto para a UTI, sem ninguém, sozinha, sem respostas, sem saber como as pessoas que me amam tinham recebido a notícia — embora eu mesma tivesse feito questão de contar para minha mãe — ela não acreditaria que eu estaria bem caso alguém contasse, eu sei que todos estavam preocupados. Foram os 3 piores dias da minha vida”, conta.

Após vivenciar momentos de aflição e tristeza, ela recebeu alta em 21 de dezembro do ano passado, perto da data que, para ela, é a mais importante do ano — o Natal. Fabiany ressalta a importância que os profissionais de saúde tiveram na recuperação dela e mesmo nos dias em que esteve sem esperança, ela afirma: “Deus esteve presente o tempo todo”. “Vacina sim, sempre”, destaca.

Comorbidades

As comorbidades são um agravante nos casos da covid-19. Dados divulgados pela SES-DF apontam que nefropatias, seguido de obesidade e cardiopatia são as doenças prévias que mais afetam a recuperação dos infectados pela covid-19. Em números absolutos, a comorbidades que mais tem mortes registradas é de doenças cardíacas, no entanto, considerando a taxa de mortes, a nefropatia lidera o ranking, com 48,10% dos infectados morrendo devido a covid-19.

O médico e infectologista Werciley Vieira Júnior explica o comportamento de um vírus no organismo humano. “A covid-19 é um doença viral, ou seja, o vírus pode se alojar em qualquer área do corpo e assim causar seus danos. No caso das comorbidades de nefropatia, o rim é um órgão com um alto núcleo de vasos e receptores, por isso, há grande chance de ocorrer uma lesão renal aguda. Caso a pessoa já tenha algum tipo de dano renal, isso agrava a situação. E não apenas por causa da covid-19, a insuficiência renal é um fator agravante em diversos diagnósticos”, pontua.

Sobre obesidade e cardiopatias, o especialista destaca: “as pessoas obesas costumam ser sedentárias, e possuem mais tecido gorduroso. Esse tecido, em geral, é propício para o vírus se proliferar. Enquanto nos casos de cardiopatia, os graus de obstrução dos vasos sanguíneos podem levar a um infarto, assim como pode ocorrer quadros de infecção na membrana que reveste o coração ou no miocárdio”, detalha.

O infectologista ainda chama a atenção para a maior letalidade em grupos socialmente vulneráveis envolve também a alimentação. “Dificilmente pessoas em cenários de vulnerabilidade possuem uma alimentação adequada e balanceada, por exemplo, porque não possuem acesso a isso. Outro fator é que elas podem ter doenças prévias, mas sem nenhum diagnóstico ou tratamento adequado. Esse cenário prejudica ainda esse grupo”, finaliza.

*Estagiário sob a supervisão de Vinicius Nader

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