MARÇO DE 2020

Quando o DF parou: brasilienses contam como lidaram com a chegada da pandemia

Publicação do decreto que estabeleceu a primeira interrupção geral de serviços e atividades no Distrito Federal completou dois anos na semana passada. Para relembrar o período, o Correio traz histórias de quem acompanhou isso de perto, fosse em casa, fosse no front

Ana Maria Pol
postado em 22/03/2022 06:00
Painéis eletrônicos alertavam para os riscos do novo coronavírus -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Painéis eletrônicos alertavam para os riscos do novo coronavírus - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O movimento nas ruas, nas quadras comerciais e no asfalto — tão conhecido e integrado às vidas dos brasilienses — mudou completamente em março de 2020, após a Organização Mundial de Saúde (OMS) informar que a disseminação da covid-19 representava uma situação pandêmica. Há dois anos, governos começaram a adotar medidas restritivas em todo o mundo e, no Distrito Federal, não foi diferente. Em 18 de março, o vazio se fez presente em diversos espaços da capital do país, depois da publicação do decreto que estabeleceu, pela primeira vez, o fechamento de estabelecimentos.

Para algumas pessoas, relembrar os primeiros momentos da pandemia pode ser doloroso. A incerteza sobre o futuro, a aflição diante da possibilidade de se contaminar e as dúvidas sobre o risco de transmitir a doença foram algumas das preocupações que tomaram conta do dia a dia da população. Enquanto diversos profissionais precisaram enfrentar o desconhecido no front, outros contaram com a possibilidade de  manter as atividades em casa. Mas a realidade no meio remoto também exigiu adaptações, e ficar em home office não necessariamente podia trazer alívio. "Eu via os noticiários, esperando uma notícia boa, mas ela nunca chegava. O número de mortes só aumentava, a cada dia", relata a advogada Brenda Teles de Freitas, 24 anos.

Moradora do Sudoeste, ela se recorda de quando o cenário pandêmico chegou ao Distrito Federal. Com isso, precisou migrar para o home office. "Foi caótico, porque ninguém conhecia bem a dinâmica do vírus, o que era, as consequências. Eu estava como assessora em um escritório de advocacia, e os sócios precisaram tomar a decisão (pelo trabalho remoto) abruptamente, sem entender como as coisas aconteceriam. Foi bem difícil. Cheguei a trabalhar muito mais horas do que o normal. E sempre havia fatores externos que tiravam a concentração", completa.

  •  Brazilian soldiers disinfect the Subway Central Station and its surroundings, as a measure against the spread of the coronavirus, COVID-19, pandemic in Brasilia, early on March 29, 2020. - A federal court in Rio de Janeiro on Saturday banned the government from disseminating propaganda against confinement measures aimed at controlling the coronavirus pandemic. The campaign video encourages people not to stop their normal lives, despite health ministry figures show that COVID-19 has claimed almost 100 lives and affected close to 3,500 people in Brazil. (Photo by EVARISTO SA / AFP). Lockdown. Medidas restritivas.
    Na Rodoviária do Plano Piloto (E), equipes descontaminaram o terminal EVARISTO SA
  • 19/03/2020. Credito: Ana Rayssa/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. Cidades.  Apos decreto do governador Ibaneis Rocha, shoppings amanhecem fechados. Conjunto Nacional. Lockdown. Medidas restritivas.
    Em frente ao shopping na plataforma superior, ruas vazias Ana Rayssa/CB/D.A Press

Cobranças

Enquanto algumas atividades foram suspensas ou transferidas para o remoto, trabalhadores de áreas consideradas essenciais continuaram na linha de frente. Varredora do Serviço de Limpeza Urbana, Ilza Carvalho da Silva, 34, cuidou do DF em um período de incertezas. Diariamente, de madrugada, ela saía de casa, no Recanto das Emas, rumo às ruas. Ao regressar, a gari tinha de redobrar os cuidados. Apesar de cansada, era necessário evitar o risco de infectar a família. "Nós não paramos. E tivemos muito medo de pegar a doença e transmiti-la. Tenho três filhos. Então, minha maior preocupação era passar (a covid-19) para alguém. Sempre que chegava do trabalho, ia direto para o banho, tirava meu uniforme e, no outro dia, trabalhava com outras roupas, para evitar qualquer tipo de contato. Foi difícil e cansativo, mas valeu a pena, pois ninguém (próximo) contraiu a doença", acrescenta.

Com atuação em uma das equipes de atendimento à família da Unidade Básica de Saúde nº 5 de Taguatinga, a técnica Fátima Simone Mariz, 43, não pôde deixar de ir ao trabalho presencialmente. Parte do grupo de pessoas que atuou diretamente no combate à covid-19 no DF, ela não esqueceu os momentos de tensão que viveu no início da crise sanitária. "Deixamos nossas famílias confinadas compulsoriamente desde o início dessa batalha, sem nada que pudéssemos fazer. Eles acompanhavam nossa trajetória por meio dos jornais, em um panorama complexo e sombrio, tentando nos nutrir de longe, pelo fato de estarmos órfãos da assistência", reflete.

A assistência à qual a técnica em saúde se refere tem a ver com o enfrentamento a um inimigo pouco conhecido. "Saímos de analfabetos a doutores em tempo recorde, empacotando corpos de colegas, atendendo pacientes transtornados, amenizando a dor de pessoas e tratando feridas de um lugar em que nunca tínhamos tocado antes, a alma. Nossas forças se esvaíram e, hoje, nossa saúde mental mina a cada dia. Trabalhamos incansavelmente dois anos para um mundo que só nos cobrou números e resultados", desabafa Fátima Simone.

  • A varredora do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) Ilza Carvalho da Silva, 34, foi uma das responsáveis pela limpeza da cidade durante o período
    Ilza não teve como trabalhar em home office: cuidado redobrado SLU/Divulgação
  •  17/03/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF -  Quando Brasília parou. Dois anos desde que a OMS declarou a disseminação da Covid-19. Simone Mariz, enfermeira na UBS 5 de Taguatinga.
    Fátima Simone, na UBS 5 de Taguatinga: trabalho incansável Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Passados dois anos de uma batalha que ainda não terminou, a pergunta que fica é: o que mudou? Para a infectologista Joana D'Arc, o ser humano relembrou das próprias vulnerabilidades e que precisa estar preparado para adversidades. Mesmo assim, a médica percebe que o brasileiro precisa mudar comportamentos: "Vivemos a exposição de todas as nossas fragilidades nesta pandemia e, apesar disso, continuamos a fazer o mesmo que ocorre com as catástrofes, ou sejam perceber o problema e o trabalho feito só quando chove. Sabemos onde está o erro, mas permanecemos em um circuito de inércia, por vários motivos".

Apesar disso, o infectologista do hospital das Forças Armadas, Hemerson Luz, reitera que alguns hábitos de saúde vieram para ficar e elogia o decreto restritivo, que permitiu segurar a quantidade de casos e mortes enquanto não havia imunizantes. "Aquilo que se via no início não deve acontecer novamente, devido à vacinação e aos aprendizados que ficaram. Mas a covid-19 deve continuar entre nós por mais um tempo", ressalta. 

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