Solidariedade

Nova chance para os afetos: grupo Aconchego abre inscrições para padrinhos

O programa, previsto pelo Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), ajuda crianças e adolescentes de instituições de acolhimento, com remotas chances de retorno à família de origem ou adoção, a construir vínculos com voluntários, nos papéis de padrinhos, madrinhas, e afilhados

Ana Maria Pol
postado em 05/04/2022 06:00 / atualizado em 05/04/2022 06:12
 (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Construir vínculos, dar e receber carinho são interações básicas para o desenvolvimento humano. Entretanto, para crianças e jovens que precisaram ser retirados do convívio familiar, por meio de intervenção estatal, a ruptura das relações afetivas pode deixar marcas emocionais e dificultar o processo de reintegração social. Por isso, o grupo Aconchego atua, em diversas instituições do Distrito Federal, encaminhando voluntários dispostos a se tornarem referências na vida desses jovens, por meio do apadrinhamento afetivo, um serviço de triagem que está selecionando novos padrinhos.

O Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) prevê essa atuação em benefício dos institucionalizados que têm remotas chances de retorno à família de origem ou adoção. Com o trabalho dos voluntários, eles têm a chance de construir vínculos e receberem apoio emocional.

A psicóloga e coordenadora do projeto de Apadrinhamento Afetivo do grupo Aconchego, Maria da Penha Oliveira, explica a dinâmica do voluntariado. "O vínculo é promovido pelo afeto. Nós precisamos que os padrinhos e afilhados se conheçam, e que criem relações baseadas no afeto, que é o que mais falta para adolescentes e crianças na instituição", pondera. Fazem parte do grupo, crianças acima de 10 anos, que possuem vários irmãos ou têm algum tipo de deficiência.

De acordo com a coordenadora, atualmente, o DF acolhe um pouco mais de 300 crianças e adolescentes à espera de um lar. "Pelo menos 70% está acima dos 10 anos. São crianças maiores e é difícil encontrarmos famílias que desejam adotar nessa idade. A maioria tem, então, perfil para apadrinhamento, porque não consegue retorno para a família de origem e nem consegue ser adotado", diz. Penha explica, ainda, que os padrinhos não criam qualquer tipo de compromisso financeiro com os afilhados. De acordo com ela, a ideia é que "a criança ou adolescente tenha o padrinho como referência". "Precisamos de pessoas que tenham o desejo de cuidar, escutar, e querem promover a criança ou adolescente em uma família funcional", reitera.

O perfil de padrinhos e madrinhas é variado e, apesar do que muitos pensam, não há impedimento quanto à estrutura familiar. "Não importa se é um casal hétero, homoafetivo, solteiro ou casado. O importante é o desejo e o compromisso emocional com esse jovem", garante Penha. O educador físico Fábio de Souza Pereira Ferreira, 37 anos, é um exemplo disso. Solteiro, sem filhos, ele conta que participa do projeto desde 2019, e que a vida de solteiro não foi um impedimento. "Sou tio de quatro sobrinhos, e sou apaixonado por crianças. Então tinha experiência com jovens, e o meu perfil deu super certo com o do meu afilhado", explica.

Fábio conta que o afilhado tem 16 anos, e que a paixão pelo futebol foi o que uniu os dois. "Ele tinha passado por um processo de adoção que não deu certo, as duas irmãs já tinham saído do abrigo, porque completaram a maioridade. Então, tinha um certo desafio, ele ficou muito travado no início, receoso", recorda. Segundo o educador físico, a idade era uma preocupação, no início do processo. "Ficamos um pouco receosos, porque sabemos que adolescente é um pouco mais complicado. Mas me surpreendi. Ele sempre foi muito respeitoso, e vi que passei a ser uma referência para ele", cita.

Com o tempo, o educador físico conseguiu criar laços com o afilhado. "No segundo, terceiro encontro começamos a conversar mais e descobrimos que os dois torciam pelo flamengo. Foi quando começamos a conversar sobre futebol e esportes e aí começou tudo", diz. A paixão pelo time ainda hoje é protagonista de alguns dos encontros dos dois. "Nós compartilhamos os mesmos interesses por esporte, assistimos jogos juntos, vamos a parques, cinema, fazemos programas com meus sobrinhos. Consideramos ele da família. Eu me considero um tio, às vezes irmão mais velho. Saímos, tento fazer programas que ele sonha também", diz.

Proporcionar novos momentos, apresentar o mundo para o afilhado, são algumas das coisas que são encantadoras no apadrinhamento, segundo Fábio. "Ele me fez enxergar o mundo de uma forma diferente, fui além da minha realidade e ele agregou muito à minha vida", garante. "Ele passou a ver a importância do estudo, quer seguir atrás dos sonhos. Ele sempre questiona sobre meu curso, minha área. Sempre fiz questão de tratar sobre o futuro profissional com ele, porque muitos perdem sonhos e expectativas. Então, cabe a nós fazermos sonhar novamente", completa.

A importância do vínculo

A essência do ser humano é fundada nas relações afetivas construídas desde a mais tenra idade, por isso, a importância do vínculo afetivo. "Se uma criança cresce sem vínculos afetivos positivos, ou seja, sem se sentir amada, a probabilidade dela não se importar com os outros aumenta", explica a psicóloga e professora do Ceub, Ciomara Schneider. "Formar um vínculo semelhante ao familiar, onde se possa transmitir amor confiança, respeito e empatia é realmente um passo importante. Um projeto que tenha essa formação positiva de vínculo como objetivo, só pode ser positiva, desde que seja realizada com coerência, persistência e um desejo profundo de ajudar", reitera.

A psicóloga Valéria Mori explica que o adulto espelha o que a criança é, através de elogios, cuidado, do olhar. "Por isso é importante que os voluntários sejam pessoas que consigam estabelecer esse vínculo dentro de uma possível dificuldade, como a rejeição. Que sejam pacientes para tentar isso. Para as crianças, o reconhecimento através do olhar do outro é muito importante", cita.

Pertencimento

A estudante universitária e operadora de telemarketing, Ludmila de Oliveira Miranda, 20, foi uma das jovens que tiveram a oportunidade de ter um padrinho através do grupo Aconchego. Na época, ela tinha 16 anos, e conta que a madrinha, a administradora Kelly Cristina Salles, 44, serviu de apoio em muitos momentos de sua vida. "Quando ela chegou, a gente não tinha muito o que falar. Mas ela foi muito paciente, e me conquistou nas pequenas atitudes diárias, resolvendo meus problemas, ajudando em matérias escolares. Passei a ter ela como referência", diz.

A jovem se inspirou em Kelly, está cursando administração e sonha com um emprego público. Ela afirma que ganhou uma família. "Ela e a mãe sempre deixaram claro que sou importante, que faço parte da vida delas. Foi o que me fez sentir em casa." Ela é uma defensora do programa e fala do potencial de transformação que o afeto tem na vida dos jovens. "Todos os lados ganham. Através do apadrinhamento as pessoas mudam vidas, muitos não sabem, mas minha madrinha mudou a minha", garante.

Ansiedade e medo são sentimentos que fazem parte da jornada do apadrinhamento afetivo, tanto para crianças e jovens quanto para os padrinhos e madrinhas. Kelly, a madrinha de Ludmila, é grata pela experiência. "A gente romantiza muito o apadrinhamento, acha que tudo vai ser maravilhoso, mas o programa nos coloca na realidade. Tem muitas coisas lindas e boas, mas também difíceis. São crianças que têm histórias de vida complicadas, mas é tudo muito especial." A administradora conta que tinha uma ideia de perfil, mas acabou apadrinhando outra. "Eu queria uma criança, por volta de 10 anos. Mas quando cheguei, acabei decidindo por uma adolescente, e como fui feliz com minha escolha. A Lud é um anjo, meiga, carinhosa", cita.

Para Kelly, saber que serviu de inspiração na vida da afilhada, é uma felicidade. "Ela entrou na faculdade, quer fazer o mesmo curso. E hoje, eu vejo que ela sonha em conhecer países, viajar. Ver que isso foi devolvido a ela, é saber que cumpri minha missão", emociona-se.

Seja voluntário

Como participar

As inscrições para aderir ao programa Aconchego ocorrem até quarta-feira, 4.

Para iniciar o processo e se tornar um padrinho ou madrinha, é preciso:

Ter disponibilidade para partilhar tempo e afeto com crianças/ adolescentes acolhidos;

Oferecer cuidados de qualidade e singularizados;

Colaborar com a construção e sustentação do projeto de vida e promoção da autonomia de adolescentes;

Ter mais de 21 anos de idade (com diferença de pelo menos 16 anos para o afilhado);

Não fazer parte do cadastro da adoção;

Participar dos encontros de sensibilização e formação de padrinhos e madrinhas;

Participar dos encontros de acompanhamento.

Documentação exigida
Cópias do RG, CPF, certidão negativa de antecedentes criminais, comprovante de residência;

Dúvidas por e-mail: contatos@aconchegodf.org.br

 

 

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Como participar
As inscrições para aderir ao programa Aconchego ocorrem até quarta-feira, 4.

Para iniciar o processo e se tornar um padrinho ou madrinha, é preciso:

Ter disponibilidade para partilhar tempo e afeto com crianças/ adolescentes acolhidos;

Oferecer cuidados de qualidade e singularizados;

Colaborar com a construção e sustentação do projeto de vida e promoção da autonomia de adolescentes;

Ter mais de 21 anos de idade (com diferença de pelo menos 16 anos para o afilhado);

Não fazer parte do cadastro da adoção;

Participar dos encontros de sensibilização e formação de padrinhos e madrinhas;

Participar dos encontros de acompanhamento.

Documentação exigida
Cópias do RG, CPF, certidão negativa de antecedentes criminais, comprovante de residência;

Dúvidas por e-mail: contatos@aconchegodf.org.br

 

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