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Epidemia de dengue é afetada diretamente pelas mudanças climáticas

Fator é apontado como agravante para a proliferação do Aedes aegypti. Epidemiologista explicou ao Correio que chuva seguida de calor cria ambiente propício ao mosquito transmissor de doenças

El Niño vem, desde junho do ano passado, deixando as temperaturas acima da média. As chuvas ficaram irregulares de outubro a dezembro -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
El Niño vem, desde junho do ano passado, deixando as temperaturas acima da média. As chuvas ficaram irregulares de outubro a dezembro - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
postado em 04/03/2024 06:00

A crise climática intensificada pelo fenômeno El Niño, que deixa as águas superficiais do Pacífico Equatorial mais quentes que o normal, é uma das hipóteses das causas da epidemia de dengue que atinge alguns estados brasileiros. O Distrito Federal é destaque na crise sanitária, tendo a maior incidência de casos por 100 mil habitantes entre as unidades da Federação e o professor de epidemiologia da Universidade de Brasília (UnB), Wildo Navegantes, explicou ao Correio que uma das consequências das mudanças climáticas é a imprevisibilidade dos eventos meteorológicos, sobretudo os extremos, como grandes volumes de chuva, secas e temperaturas muito acima ou abaixo do normal. "Perde-se a capacidade de mensurar o impacto desses fenômenos, tanto nas perdas materiais quanto na proliferação de doenças", resumiu.

Desde o ano passado, o DF tem estado na rota de ondas de calor que atingiram boa parte do país. O verão, estação caracterizada pelo calor e pela alta umidade, também favorece a proliferação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue e outras doenças, como zika, chikungunya e febre amarela. "Estamos passando por dias de chuvas que são seguidos por períodos de calor intenso, o que gera um ambiente propício para a infestação do mosquito", detalhou o pesquisador.

Somam-se às condições meteorológicas o fato de que os ovos colocados pelas fêmeas infectadas também têm o vírus. "E o ovo consegue ficar por meses em locais secos, o que coincide com o período de estiagem aqui no DF. No período da chuva, a umidade associada ao calor faz com que os ovos eclodam", explicou o epidemiologista. "As ondas de calor que ocorreram ano passado podem ter favorecido a eclosão dos ovos e a infestação de mosquitos", avaliou Wildo. "O aquecimento global fez com que a dengue surgisse em territórios inéditos, até então, como o Sul do Brasil, Paraguai e em partes da Argentina", informou.

Outra característica é o ambiente propício que o Aedes aegypti encontra em contextos urbanos. "O mosquito gosta de lugares urbanizados e densamente povoados, já que ele não consegue percorrer grandes distâncias, e pessoas próximas umas às outras favorecem a alimentação dele", explicou Wildo. O epidemiologista também alertou para mudanças necessárias no sistema de saúde em decorrência da crise climática. "Não dá mais para o sistema de saúde esperar que os surtos de dengue ocorram para tomar providências. É preciso se antecipar já que os eventos climáticos já não são tão previsíveis. As alterações do clima nos impele a trabalhar e atuar com alto grau de imprevisibilidade", finalizou.

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De acordo com Andrea Ramos, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño vem, desde junho do ano passado, deixando as temperaturas acima da média. As chuvas, que costumam cair regularmente desde outubro, ficaram irregulares até dezembro. Por outro lado, em janeiro, quando o El Niño estava em sua maior intensidade, houve chuvas bem acima da média, 389,7 mm, 90% acima da média histórica para o mês, que é de 206 mm.

Em fevereiro, a Estação Meteorológica do Plano Piloto registrou acumulado de 142,2 mm, 80% da média histórica para o período. No Gama, o acumulado foi de 343,8 mm, 92% acima da média. "2023 foi o ano mais quente registrado do Distrito Federal, desde o início da séria história de medições, em 1962", apontou a meteorologista, que também destaca que os dois primeiros meses do ano também tiveram temperaturas acima da média.

Fevereiro teve a média compensada, que engloba máximas e mínimas, de 22,5ºC, enquanto a média é de 21,9ºC. Janeiro registrou temperaturas 0,5ºC acima da média histórica. "Foram meses chuvosos, mas que também tiveram muito calor. Em março, o El Niño perde intensidade, até a chegada de uma fase neutra. O La Niña entra em ação a partir de junho", antecipou Andrea Ramos. 

Em relação a março, os modelos meteorológicos indicam que as temperaturas ficaram entre 0,8ºC e 1ºC acima da média, o que, de acordo com o epidemiologista Wildo Navegantes, pode ser um fator que favoreça à proliferação do mosquito da dengue. As chuvas devem continuar no período. A média histórica de precipitação em março no DF é de 226 mm, maior, inclusive, do que a média de fevereiro, que é de 179,5 mm.

Prevenção

  1. Limpeza urbana qualificada 
  2. Implementação de saneamento básico completo em regiões desassistidas 
  3. Visitas de agentes de endemias e comunitários em todas as residências para verificar a existência de possíveis focos de acúmulo de água disponíveis para o mosquito 
  4. O próprio cidadão, uma vez por semana, tirar 10 minutos para verificar se há possíveis focos do mosquito em casa 

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