CRÔNICA DA CIDADE

Hospitalidade brasiliense: nosso jeito de receber quem vem de fora

Admiro quem se aventura por essas bandas, escolher uma cidade nova para se viver é sempre um ato de coragem

"Acredito, do fundo do coração, que é possível encontrar aqui aquele sorriso no canto do rosto provocado por uma conversa agradável, pelo pôr do sol colorido no meio da selva de pedra ou pela flor-de-ipê que desenbrutece a seca infinita" - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Se a crônica é da cidade, nada mais justo do que citá-la, homenageá-la e até mesmo criticá-la ao longo dessas linhas. De vez em quando, porém, é possível que por algum deslize ou vontade incontrolável surjam por aqui temas que parecem distantes deste Cerrado. Pra não dizer que não falei das flores…

Mas não se engane, caro leitor, como filha da segunda geração de brasilienses, de ascendência candanga, posso garantir que tudo o que escrevo e vivo está impregnado de alguma forma pelos ares que circulam no Planalto Central, entre o céu de nuvens doidas e o barro vermelho recém-asfaltado. O sotaque sem sotaque, uma certa impaciência para jogar conversa fora, uma mistura de referências e de raízes improvável em grande parte do país, mas tão comum por aqui.

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Realizei há alguns meses que essa vocação de Brasília de reunir culturas permanece. De um ponto de vista totalmente empírico, acredito que esteja até mesmo se intensificando. Por um período, penso que o estereótipo de cidade da política, automaticamente ligado à corrupção, maculou o imaginário e impregnou de mentiras a realidade que vivíamos por aqui.

Hoje, o carnaval celebrado nas ruas, os festejos de são-joão espalhados por várias regiões e a programação cultural diversa falam mais alto e realçam características sensacionais da cidade. A qualidade de vida, as quadras com comércios que entregam de tudo um pouco em serviços e produtos, permitindo caminhadas para explorar as opções e, porque não, a oferta de vagas em empresas de grande porte e no serviço público.

Concurseiros de todo o país têm em Brasília o objetivo final de uma trajetória de estudos árdua. Considero quase uma obrigação recebê-los com cortesia e mostrar o que a cidade tem de melhor. É verdade que ela é de tribos e encaixar-se pode ser um desafio. Tem a turma do esporte (e suas infinitas variáveis), a dos games, a do sertanejo, a do forró, a do samba, a dos livros…

À primeira vista, esse pode parecer um facilitador, mas furar a bolha também representa um desafio. Nós, os brasilienses, somos um misto de balada pop com show de rock alternativo; de cachaça com champanhe; de maracujá com graviola. É fascinante e, ao mesmo tempo confuso, e nem sempre agrada as multidões. Diferente do carioca ou do baiano, com malemolência e jeito arrebatadores. Rapidinho você decide: ou ama ou odeia. Nós talvez sejamos os "malvados favoritos".

Admiro quem se aventura por essas bandas. Escolher uma cidade nova para se viver é sempre um ato de coragem. Mas acredito, do fundo do coração, que é possível encontrar aqui aquele sorriso no canto do rosto provocado por uma conversa agradável, pelo pôr do sol colorido no meio da selva de pedra ou pela flor-de-ipê que desenbrutece a seca infinita.

postado em 23/06/2025 00:01 / atualizado em 24/06/2025 15:52
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