CAUSA ANIMAL

Abrigos especializados em proteção animal pedem socorro

Protetores de cães e gatos relatam experiência e dificuldades de cuidar de espaços de acolhimento. Saiba como contribuir

O Lar dos Anjos enfrenta dificuldades para alimentar 400 cães  -  (crédito: Bruna Gaston CB/DA Press)
O Lar dos Anjos enfrenta dificuldades para alimentar 400 cães - (crédito: Bruna Gaston CB/DA Press)

 Luiz Francisco* e Manuela Sá*

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Cães e gatos em situação de abandono ainda são uma constante no Distrito Federal. Nesse cenário, pessoas comprometidas na defesa dos direitos dos animais lutam para mudar essa realidade. Mas, superlotados, os abrigos da capital enfrentam falta de ração e de medicamentos.

Segundo Wellington Fabiano, 38 anos, vice-presidente do abrigo Fauna e Flora, no Gama, a quantidade de animais acima da capacidade impede que eles recebam as condições ideais de cuidado. O local acolhe 800 cachorros e 200 gatos. Fabiano conta que a demanda é alta. "No meu telefone, tanto para o DDD de Goiás quanto para o de Brasília, recebo mais de 200 pedidos de ajuda todos os dias", relata.

Fabiano destaca que é difícil fazer com que o público entenda que ele não tem como receber todos os animais. "Existe desinformação de que abrigo é depósito de cães e gatos e temos que aceitar todos de forma obrigatória", desabafa. "Se cada pessoa fosse conscientizada sobre nosso trabalho e a forma como agimos, teríamos um mundo melhor."

Manter a estrutura exige recursos, que se tornam mais escassos no fim do ano. "Durante as festas, a quantidade de doações diminui, porque as pessoas estão voltadas para os eventos. O mesmo acontece com o número de voluntários", relata o protetor. 

Muitas vezes, os resgates frequentes são complicados. "Recebo cachorros e gatos em situações críticas. Alguns chegam atropelados, amputados, com bicheiras e, até mesmo, idosos", relata.

Abandono

No Lar dos Anjos, em Ceilândia, a necessidade é parecida. O dono do abrigo, Wilton Silva, 60, enfrenta dificuldades para alimentar os 400 cachorros acolhidos. Segundo ele, é preciso comprar pelo menos seis sacos de ração de 25kg por dia. Além da alimentação, medicamentos estão entre as principais demandas. Parte dos custos é coberta com recursos de Silva e doações, que, ainda assim, não cobrem as despesas. "Temos pessoas que nos ajudam, mas quem mais contribui é quem menos tem."

O espaço tem seis funcionários contratados para cuidar dos cachorros. Embora as dificuldades estejam presentes ao longo de todo o ano, Silva afirma que a situação se agrava no período das festas. "Natal é época de maior abandono", lamenta.

Ele não tem como receber mais animais devido à falta de espaço, de recursos e às matilhas formadas pelos cães, que dificultam a adaptação de cachorros recém-chegados. Com frequência, chegam cães arredios, vítimas de maus-tratos, o que complica o processo de socialização.

É o caso de Fúria, uma cadela vira-lata de médio porte que recebeu o nome por causa do comportamento defensivo. Isolada dos outros animais, ela ainda reage de forma agressiva ao contato humano. Os cuidadores precisam manter distância e utilizar um pedaço de madeira para levar a comida até a cadela. Os desafios não impedem Silva de nutrir carinho por todos os acolhidos: "O cachorro tem beleza, vaidade e resistência. Só tem um defeito: confia na gente."

Medicamentos

Na Fercal, mais um abrigo de animais nasceu a partir da dedicação de um homem aos bichos. Charles Magalhães, 59, fala que, durante toda a vida, costumava andar com ração e água no carro, pronto para ajudar qualquer cachorro e gato que encontrasse pelo caminho.

Há três anos, após se aposentar, Magalhães comprou um sítio e transformou em realidade um desejo antigo. "Sempre foi meu sonho trabalhar com animais", relembra. Foi assim que surgiu o Santuário São Francisco de Assis, que hoje acolhe cerca de 70 cães e gatos.

A principal necessidade do local, que recebe vários cães em situações graves de maus-tratos, é a doação de medicamentos. Um dos animais, por exemplo, chegou ao local há dois anos, após sofrer queimaduras provocadas por óleo quente em uma cozinha de restaurante.

Para cobrir todos os gastos, Magalhães fala que a ajuda é insuficiente. "Uma ou outra pessoa presta auxílio. Ainda é muito pouco", diz. Além das despesas fixas com alimentação e cuidados básicos, ele enfrenta custos elevados com o tratamento de três cães diagnosticados com tumor venéreo transmissível (TVT), um tipo de câncer contagioso entre cães.

  • O Lar dos Anjos enfrenta dificuldades para alimentar 400 cães
    O Lar dos Anjos enfrenta dificuldades para alimentar 400 cães Bruna Gaston CB/DA Press
  • Santuário São Francisco de Assis acolhe cerca de 70 cães e gatos
    Santuário São Francisco de Assis acolhe cerca de 70 cães e gatos Arquivo Pessoal
  • Juliana Campos abriga 30 bichos na própria residência, no Plano Piloto
    Juliana Campos abriga 30 bichos na própria residência, no Plano Piloto Arquivo Pessoal

Lar temporário

Os espaços físicos de abrigos, muitas vezes improvisados, também são precários para aguentar a demanda. Juliana Campos, protetora independente e representante do Instituto Miados e Ronronados, abriga 30 bichos na própria residência, no Plano Piloto. "Eu utilizo as doações para ajudar nos custos da casa, como as contas de água e de energia, porque interferem nos cuidados com animais", explica Juliana.

Mesmo em capacidade máxima, Juliana auxilia animais de outros protetores com lar temporário. A estratégia é uma forma de acolher os bichos por um tempo indeterminado, auxiliar nos cuidados e promover adoções. Fora do abrigo, Juliana tem 12 animais sob sua responsabilidade.

O apoio psicológico aos que atuam na causa, pouco mencionado nos assuntos de proteção animal, é uma das bandeiras de Juliana. "Sou secretária escolar, trabalho oito horas por dia. Cuidar de um abrigo não é uma tarefa fácil, ainda mais nessa época em que se recebe, no mínimo, quatro pedidos de resgates por dia. É um cansaço excessivo", afirma a protetora. "Conheci muitos colegas que entraram em depressão e adquiriram a Síndrome de Burnout por conta da preocupação de não conseguir arcar com as despesas de cuidados dos bichos."

Juliana atribui a quantidade de animais abandonados nas ruas à falta de conscientização e de políticas públicas. "As pessoas não entendem que a castração é importante para que os cachorros não se multipliquem tanto", afirma a protetora. 

*Estagiários sob supervisão de Malcia Afonso

 

Política pública

Para ajudar os protetores, a Secretaria de Proteção Animal do Distrito Federal (Sepan) lançou o Programa de Apoio aos Protetores de Animais. A política pública, instituída em 25 de novembro, consiste em um auxílio financeiro mensal por meio do Cartão Ração (utilizado para custear os insumos veterinários) e do Cartão Castração (usado para operar castramento dos animais domésticos). Ambos funcionam como cartão de débito, que deve ser usado apenas em lojas credenciadas pelo programa. Os nomes dos protetores aprovados para recebimento de auxílio foram divulgados dia 19 de dezembro e a lista está disponível no site sepan.df.gov.br/.

Como ajudar

Para saber mais sobre os abrigos mostrados nesta reportagem e como contribuir, confira as redes sociais:

» Lar dos Anjos:
@lardosanjospet

» Abrigo Flora e Fauna:
@abrigofloraefauna

» Santuário S. Francisco de Assis:
@santuarioanimalfranciscoassis

» Miados e Ronronados:
@miados.ronronados

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postado em 01/01/2026 07:00
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