Trânsito

DF começa 2026 com mais de mil autuações no trânsito em quatro dias

Dados do Detran registraram alta de quase 14% em autuações nas vias da capital, de 2024 para 2025. Excesso de velocidade, tráfego em faixa exclusiva e estacionamentos irregulares são as ocorrências mais comuns

De janeiro a novembro de 2025 houve um aumento... -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)
De janeiro a novembro de 2025 houve um aumento... - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)

Somente nos quatro primeiros dias de 2026, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) aplicou mais de mil autuações no trânsito da capital, quase metade  delas pela falta de uso de cinto de segurança, seguido por uso do celular, embriaguez ao volante e Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vencida. No caso mais recente, um motorista embriagado foi preso após fugir de um bloqueio em alta velocidade e atropelar um motociclista. Os números refletem a continuidade de um cenário grave de imprudência, comprovado por dados preliminares do Departamento de Trânsito (Detran-DF), que registraram alta de 13,9% em autuações nas vias do DF, de 2024 para 2025 — mais de 9 mil por dia. 

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Excesso de velocidade, tráfego em faixa exclusiva, estacionamento irregular, avanço de sinal e uso de celular ao volante, estão, respectivamente, no ranking de infrações mais recorrentes no trânsito do DF, conforme levantamento realizado por todos os órgãos de fiscalização, como o Detran, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e a PMDF. Dessas autuações, todas registraram crescimento em 2025. No que se refere à direção sob efeito de bebida alcoólica, o salto foi de 42% em relação a 2024.

multas infracoes 2025
... de 20,7% nas suspensões de carteiras de habilitação (foto: pacifico)

Especialistas ouvidos pelo Correio apontam que, apesar do aumento da frota de veículos e da melhora da fiscalização no trânsito, o comportamento infrator dos moradores do DF piorou. "O aprimoramento das ações de fiscalização é importante, mas dificilmente os avanços tecnológicos serão capazes de responder sozinhos pelo crescimento das infrações", comenta Paulo Cesar Marques, professor de engenharia de tráfego na Universidade de Brasília (UnB). 

Velocidade

Em agosto, Luiza*, 29 anos, foi multada por exceder em 30% a velocidade de uma via de 60 km/h, em Sobradinho. A enfermeira conta sentir-se envergonhada pela infração, mas confessa que receber multa por excesso de velocidade é algo "praticamente normalizado" entre seus familiares e amigos. "Por ter uma vida muito atribulada, tenho dificuldades em organizar os meus horários e, quando me atraso, realmente acabo correndo mais do que deveria", admite. A infração, considerada grave, resultou em uma multa de R$ 195,23 e 5 pontos na carteira. 

Wellington Matos, especialista em Gestão, Educação e Segurança no Trânsito, aponta como fator potencializador para o excesso de velocidade o "comportamento, tipicamente brasileiro, de se atrasar para tudo", diz. "Nos falta organização e planejamento. Por isso, estamos sempre com pressa", completa. Matos ainda chama atenção para a qualidade e disponibilidade do transporte público para a população. "Quanto melhor estes modais funcionarem, menos infrações teremos, visto que a frota de veículos particulares também será reduzida de forma significativa". 

Segundo o portal Infovidas, do Detran, o excesso de velocidade está em segundo lugar no ranking dos fatores de risco no trânsito, isto é, elementos ou condições que contribuem para acidentes. No topo da lista está a perda de controle sobre o veículo. Para o professor Paulo Cesar Marques, a moderação de velocidade é fundamental para aumentar a segurança no trânsito, e não só como medida paliativa.

"Trata-se de uma ação estruturante destinada a desconstruir a cultura de que correr é um comportamento aceitável no ambiente urbano. A existência de trechos urbanos em rodovias impõe a adoção de padrões de circulação urbana nesses trechos, não a imposição de padrões rodoviários nas cidades. Portanto, as velocidades precisam ser compatíveis com a escala humana, não com a escala dos veículos", defende.

Falta vaga, sobra distração

Assim como Wellington Matos, o doutor em segurança de trânsito e presidente do Instituto de Segurança no Trânsito David Duarte aponta o crescimento da frota de veículos no DF como um agente que contribui para a piora do cenário de infrações na capital. "Quando o transporte público não é pontual, é desconfortável e te deixa longe do destino, vê-se como benefício a compra de um carro ou uma moto, resultando nestes problemas. O mais recente diz respeito à disponibilidade de estacionamento em locais de maior movimentação. Se não há vagas, muitos vão procurar espaços irregulares para estacionar. Isso não significa, claro, que não deva haver punição aos infratores", avalia o especialista.  

A universitária Maria Beatriz Giusti, 22, conta que, apenas em 2025, foi multada duas vezes por estacionamento irregular ao buscar uma vaga próxima ao trabalho, no Setor Bancário Sul. "Aqui, sempre fica lotado e nunca tem vaga, tem gente que para até em cima de calçada", diz. Para a estudante, a solução foi começar a usar o transporte público, a fim de evitar levar mais uma multa e perder tempo procurando uma vaga. "Acho que Brasília favorece o tráfego, mas ainda falta organização nesses centros comerciais, sempre com muita gente", lamenta.

No caso de Sérgio*, 62, a multa por trafegar em faixa exclusiva no Eixo Monumental foi resultado de uma distração. "De fato, entrei antes da área permitida para fazer a conversão à direita. O local, que fica próximo à Rodoviária do Plano Piloto, está bem sinalizado e, apesar de trafegar por ali em várias ocasiões, costumo me esquecer e me adiantar", diz. Ricardo*, 27, filho de Sérgio, discorda. "É um local extremamente movimentado, e em horário de pico, às vezes, é impossível fazer a conversão a tempo", opina. 

Questões relativas à precarização do trabalho também podem ter relação com o aumento de determinadas multas. "A pressão, o estresse, a longa jornada de trabalho e a baixa remuneração, que obrigam muitos a terem mais de um emprego, fazem muita diferença na dinâmica do trânsito, tanto em relação às infrações quanto no que tange à segurança. Prova disso é que as maiores vítimas do trânsito são motociclistas, vários em trabalhos de transporte por aplicativo", destaca Wellington Matos. O especialista defende que, para além da maior responsabilidade de todos, inclusive dos próprios motociclistas, melhores condições de trabalho fariam diferença nestas estatísticas. 

Educação no trânsito

De janeiro a novembro de 2025, houve um aumento de 20,7% nas suspensões de CNH em comparação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados preliminares do Detran. Dentre as razões, as maiores altas se referem às penalidades de disputar corrida no trânsito (400% de aumento), forçar passagem entre veículos (300%) e dirigir ameaçando pedestres (290,5%). Em números absolutos, a grande maioria das penalidades estão relacionadas à alcoolemia — das 9.582 suspensões de CNH, 8.183 se enquadram na direção sob a influência de álcool ou a recusa ao teste do bafômetro.

Segundo Magda Brandão, gerente de Ações Educativas de Trânsito do Detran, a autarquia tem intensificado as operações para atuar em frentes que vão desde a educação escolar até a revitalização da sinalização. "Temos como objetivo preparar, educar e orientar toda a sociedade com relação ao respeito no trânsito, realizando atividades tanto em vias públicas quanto em instituições de ensino e empresas", explica. "O aumento nos índices de infrações é um reflexo direto de negligências individuais, como beber e dirigir e ultrapassar o limite de velocidade, fatores que comprometem o bem-estar comum, o que justifica a integração entre as equipes de policiamento e engenharia", acrescenta Magda. 

Das medidas resultantes desta integração, o doutor em segurança de trânsito David Duarte aponta uma que pode combater de forma prática as violações. "É importante que a fiscalização seja visível, porque, quando há policiais, as pessoas evitam cometer irregularidades no trânsito", afirma. E reforça a importância da educação no trânsito. "Quando a pessoa corre no trânsito, ela não ganha tempo, só chega ao semáforo na frente do outro veículo", exemplifica.

Para o especialista em trânsito Wellington Matos, a solução para os problemas de mobilidade e o alto índice de infrações reside na continuidade entre a formação teórica e a prática, começando ainda na infância. Matos defende que a educação de trânsito deve acompanhar o indivíduo desde o ingresso na escola, criando uma base sólida em legislação, direção defensiva e relações interpessoais antes mesmo de o cidadão assumir o volante. "Sem uma mudança estrutural no ensino, o aperto na fiscalização pode não ter o alcance desejado para transformar a cultura das vias", conclui. 

Três perguntas para

Paulo Cesar Marques, professor de engenharia de tráfego na Universidade de Brasília (UnB)

A multa, por si só, tem caráter educativo ou o brasiliense já a incorporou como um 'custo' de se ter um carro?

Nenhuma medida será capaz de dar boas respostas isoladamente. Multas e outras medidas de penalização precisam ser acompanhadas de medidas de educação, mas é preciso qualificar adequadamente as ações educativas. Em geral, não devem ser ações destinadas a instruir usuários, como o senso comum costuma compreendê-las, mas iniciativas que visem a sensibilizar a população, inclusive criando um ambiente que leve ao constrangimento social de quem insiste em infringir as regras de conduta.

Fatores como pressão por produtividade, estresse e longas jornadas de trabalho, pensando em motociclistas, por exemplo, podem impactar nessa rotina de falta de cuidados no trânsito?

Sim, esse é um aspecto que precisa ser tratado de forma mais efetiva. Há normas que regem os mercados de trabalho e a prestação de serviços de transporte de carga e de passageiros, mas o crescimento de modalidades menos formalizadas, como o motofrete e a oferta de serviços via plataformas, conhecidos como transporte por aplicativos, é um desafio para o qual as respostas ainda não são satisfatórias. Temos assistido à proliferação de modalidades que, na prática, em nome da competitividade, apostam do desrespeito às normas do trânsito seguro.

Também temos, cada vez mais, congestionamentos. Esse fator pode influenciar em possíveis multas de trânsito?

Pode haver um efeito secundário dos congestionamentos, provocando a perda de paciência por parte dos condutores. Mas seria mesmo um efeito secundário. A saturação do sistema viário é um fenômeno decorrente do excesso de veículos em circulação, que não será superado com o desrespeito às regras, e isso também deve ser matéria de campanhas educativas.

*A pedido dos entrevistados,
os nomes usados são fictícios

 

Três perguntas para

Paulo Cesar Marques, professor de engenharia de tráfego na Universidade de Brasília (UnB) 

A multa, por si só, tem caráter educativo ou o brasiliense já a incorporou como um 'custo' de se ter um carro? 

Nenhuma medida será capaz de dar boas respostas isoladamente. Multas e outras medidas de penalização precisam ser acompanhadas de medidas de educação, mas é preciso qualificar adequadamente as ações educativas. Em geral, não devem ser ações destinadas a instruir usuários, como o senso comum costuma compreendê-las, mas iniciativas que visem a sensibilizar a população, inclusive criando um ambiente que leve ao constrangimento social de quem insiste em infringir as regras de conduta.

Fatores como pressão por produtividade, estresse e longas jornadas de trabalho, pensando em motociclistas, por exemplo, podem impactar nessa rotina de falta de cuidados no trânsito?

Sim, esse é um aspecto que precisa ser tratado de forma mais efetiva. Há normas que regem os mercados de trabalho e a prestação de serviços de transporte de carga e de passageiros, mas o crescimento de modalidades menos formalizadas, como o motofrete e a oferta de serviços via plataformas, conhecidos como transporte por aplicativos, é um desafio para o qual as respostas ainda não são satisfatórias. Temos assistido à proliferação de modalidades que, na prática, em nome da competitividade, apostam do desrespeito às normas do trânsito seguro.

Também temos, cada vez mais, congestionamentos. Esse fator pode influenciar em possíveis multas de trânsito?

Pode haver um efeito secundário dos congestionamentos, provocando a perda de paciência por parte dos condutores. Mas seria mesmo um efeito secundário. A saturação do sistema viário é um fenômeno decorrente do excesso de veículos em circulação, que não será superado com o desrespeito às regras, e isso também deve ser matéria de campanhas educativas.

  • Sindicatos se manifestam contra projeto de lei que acaba com vistoria obrigatória
    Sindicatos se manifestam contra projeto de lei que acaba com vistoria obrigatória Foto: Geovana Albuquerque/Agência Brasília
  • ... de 20,7% nas suspensões de carteiras de habilitação
    ... de 20,7% nas suspensões de carteiras de habilitação Foto: pacifico
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postado em 06/01/2026 06:00
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