Economia

Responsável por 95% do PIB, setor de serviços no DF pede mais atenção

Segmento representa 74% dos trabalhadores da capital, e especialista alerta que é necessário ter políticas de capacitação e proteção trabalhista para os profissionais

O garçom Vinicius Augusto (C) agita o happy hour no Caju Limão -  (crédito:  Mariana Campos/CB/D.A Press)
O garçom Vinicius Augusto (C) agita o happy hour no Caju Limão - (crédito: Mariana Campos/CB/D.A Press)

A alagoana Lúcia Reis, 36 anos, abriu o próprio salão de beleza em 2020. Antes de ser dona do negócio, ela atuava como manicure desde os 13 anos, em seu estado natal. Agora, integra o setor de serviços de Brasília que representa 74% dos trabalhadores, segundo o último Boletim Território e Trabalho no Distrito Federal 2023-2024, do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), divulgado em junho de 2025. 

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Trabalhar com beleza não era o plano inicial de Lúcia, mas ela afirma que a profissão a escolheu. "Assim que comecei a trabalhar, muito nova, me interessei por essa profissão e não saí mais dela", conta. Já em Brasília, percebeu que, para se firmar no ramo, precisaria de qualificação. "Em 2012, decidi procurar cursos que pudessem me ajudar na profissão, melhorando meu serviço e atendimento. Depois disso, consegui me desenvolver profissionalmente", afirma. 

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Oito anos depois dos primeiros cursos, ela abriu o próprio salão. "Eu comecei com a cara e a coragem, como o pessoal diz. O maior sucesso veio do atendimento e dos diversos cursos que eu fiz, o que me capacitou para atender todas as minhas clientes", conta.

Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2024, mostram que o setor de serviços, que inclui salões de beleza, restaurantes, estabelecimentos de turismo e outros, representa 95% do Produto Interno Bruto (PIB) do DF enquanto a média nacional do PIB gira em torno de 70%. Outros estados têm sua economia baseada na indústria e no comércio. Em Brasília, no entanto, os serviços também são um dos grandes responsáveis pela empregabilidade e, por isso, exigem mais atenção.

Gargalos

Apesar da força do segmento na capital federal, especialistas alertam sobre a precariedade e as dificuldades que os profissionais podem encontrar pelo caminho. Para o professor de Economia do Ibmec Brasília, Renan Silva, a concentração de serviços é uma característica inerente à formação da capital federal. "O grande número de serviços pode ser atribuído à presença maciça do governo federal e suas instituições, desde agências reguladoras até ministérios e embaixadas. A cidade é um polo de atividade administrativa e diplomática, gerando demanda constante por serviços variados", explica. 

Silva relata que a primeira vocação de serviços da capital foi o segmento turístico, por causa da arquitetura inovadora e de vanguarda, o principal chamariz para os visitantes. Segundo ele, isso impulsionou outros serviços. "Esse movimento foi o responsável por fortalecer os subsetores de serviços como bares, restaurantes e hotelaria", diz.

Os garçons, por exemplo, são fundamentais para o bom serviço em bares e restaurantes. Érick Gomes, 32 anos, trabalha na área há cinco anos e, atualmente, está na unidade do Sudoeste da franquia de restaurantes Fausto & Manoel. 

Ele conta que iniciou a carreira de forma improvisada, entrando no ramo sem ter feito qualquer curso antes. "Eu não tinha nenhum preparo, fui convocado para ser garçom, sem nenhum tipo de experiência em uma churrascaria. Por causa disso, enfrentei algumas dificuldades no início", relembra. Apesar das adversidades, Gomes se mostra motivado para crescer no setor. "Estou sempre procurando me aperfeiçoar na profissão. É um ramo que exige técnica, dialética e retórica. A qualificação é muito importante", acrescenta.

Informalidade

Segundo o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), o setor de serviços apresentou a menor taxa de informalidade entre todas as atividades econômicas: 16,6%. Ou seja, das mais de 1 milhão de pessoas que trabalham no setor, apenas 174 mil estão em situação informal. A título de comparação, setores como construção civil, indústria e comércio, por exemplo, apresentam taxas até duas vezes maiores: 48,8%; 32,1% e 22,9%, respectivamente. 

O professor Renan, do Ibmec, explica que, mesmo com a baixa taxa de informalidade, isso ainda representa um desafio. "Muitos trabalhadores não têm acesso a direitos trabalhistas, mas essa é uma característica da economia brasileira", diz. 

O setor vem experimentando o aumento do uso de plataformas digitais como intermediário entre lojas e clientes. O processo permite que trabalhadores, como os entregadores e motoristas de aplicativo, atuem sem um patrão. O economista do Ibmec Brasília chama a atenção para os riscos. "Embora essa mudança possa oferecer vantagens em termos de flexibilidade, também gera preocupação quanto à precarização do trabalho e à redução de direitos trabalhistas", alerta.

Joaberson Araújo, 33, que realiza entregas para restaurantes através de uma plataforma de delivery, sabe bem do que o professor está falando. Apesar da flexibilidade de horários e da renda, ele reconhece a falta de direitos trabalhistas. "O motoboy autônomo, como eu, deixa de adquirir os direitos da CLT. Para mim, a flexibilidade vale mais a pena", afirmou. Joaberson comenta que mesmo com a falta de direitos, a renda vale a pena. "Eu entrei por influência de alguns colegas. Consigo ter uma renda muito boa durante o mês, e o horário me permite um descanso adequado durante a noite", ressalta. 

Qualificação

A falta de mão de obra qualificada também é um gargalo. "A formação profissional nem sempre acompanha as necessidades do mercado. Muitos trabalhadores enfrentam dificuldades em se adaptar às novas exigências do mercado", pontua Renan. O especialista acredita que isso acentua a necessidade de programas de qualificação e capacitação profissional.

O tosador e banhista Francisco Rodrigues, 32 anos, procurou qualificação para entrar de vez na área de estética animal, onde trabalha há 10 anos. Rodrigues conta que iniciou a carreira pela curiosidade sobre os pets shops. "Eu acompanhava o dia a dia dos profissionais e fiquei muito interessado em iniciar nessa profissão. Pode parecer uma coisa comum, mas precisa se atentar a muitos detalhes", afirma. 

Para se firmar na profissão, ele conta que foi necessário procurar cursos de qualificação. "Quando me contrataram nesse primeiro pet shop, percebi que precisava aperfeiçoar meus conhecimentos. Busquei alguns cursos para entender sobre os diferentes tipos de pelagens e raças", diz. Após um mês de aulas do curso básico, ele se matriculou em um curso mais extenso, com conhecimentos específicos. "No segundo curso, com duração de três meses, é ensinado técnicas de tosas, diferenças das tesouras e o uso de diferentes equipamentos", pontua. 

O setor de serviços também representa uma oportunidade para concretizar outros sonhos. Robert Ferreira de Souza, 22, encontrou na portaria uma forma de concluir sua graduação em educação física. Há seis meses como porteiro, ele comenta como foi manter os estudos e ainda ajudar em casa. "Foi uma necessidade. Consigo pagar minha faculdade e trabalhar sem nenhum problema. Veio na hora certa", afirma. Para a vaga, a própria empresa ofereceu um treinamento.

Investimento

O GDF reconhece a área como o principal motor da economia da capital. Para o governo, a cidade reúne características únicas, como forte presença do setor público, alto nível de escolaridade da população, infraestrutura urbana consolidada e crescente ecossistema de inovação, o que favorece o desenvolvimento de serviços especializados e de alto valor agregado.

Entre as áreas de atuação com maior capacidade, para o governo, estão: administração pública e atividades correlatas; tecnologia da informação, inovação e economia digital; saúde, educação e serviços especializados; turismo, eventos e economia criativa; comércio, logística e serviços empresariais. 

"Trata-se do segmento que mais gera emprego, renda e dinamismo econômico no DF, sendo fundamental para a estabilidade econômica e para a atração de investimentos", afirma o governo, em nota. Ao Correio, o GDF revela que foca nas áreas de desenvolvimento econômico, geração de emprego, inovação e desburocratização, direcionamento diversas ações para fortalecer o ambiente de negócios e estimular o empreendedorismo." Diversas ações são direcionadas para fortalecer o ambiente de negócios, estimular o empreendedorismo e ampliar a competitividade das empresas de serviços", acrescenta.

Como forma de incentivo a novos profissionais do setor, o GDF informou que possui programas de qualificação profissional, como o Qualifica DF e o Renova DF. Apenas em 2025, esses dois programas qualificaram mais de 4 mil pessoas em diversos cursos de capacitação. Além desses programas, o governo também oferece programas e parcerias para empresas e microempresas. O Desenvolve DF, por exemplo, permite que empresas beneficiadas utilizem o sistema de Concessão de Direito Real de Uso (sem a opção de compra), para ocupar um lote por cinco a 30 anos. 

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postado em 03/01/2026 02:00
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