Investigação

Corretor preso por grilagem em Goiás matou jovem com tiro no peito em bar

Preso recentemente por ameaça e esbulho possessório em Águas Lindas (GO), José Jailson de Sousa atirou e matou Vanderson Francisco de Oliveira, um jovem de 25 anos, por motivo fútil, em 2009

Vanderson foi morto com um tiro no peito, em Brazlândia -  (crédito: Arquivo pessoal)
Vanderson foi morto com um tiro no peito, em Brazlândia - (crédito: Arquivo pessoal)

Vanderson Francisco de Oliveira tinha muitos motivos para comemorar. Aos 25 anos, desfrutava a promoção conquistada em uma empresa brasiliense de ferragens e iniciava os preparativos para o casamento com a noiva, com quem mantinha uma relação de oito anos. Em 2008, ele mudou-se para Goiânia (GO), onde passou a gerenciar o setor de compras da instituição. Mesmo à distância, mantinha a rotina de visitar a família no DF todas as sextas-feiras. Em 9 de maio de 2009, em uma sexta, os sonhos do jovem foram interrompidos de forma fútil. Ele foi vítima de homicídio praticado por José Jailson de Sousa, 51 anos, o mesmo corretor preso esta semana por ameaçar e invadir um lote em Águas Lindas de Goiás.

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No dia 9, Vanderson saiu de casa na companhia do irmão para curtir a noite em um barzinho da região. Jailson era presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) na época e chegou ao estabelecimento ostentando uma arma. Era um meio de intimidação. A vítima e o corretor se conheciam e, na tentativa de alertá-lo, pediu que Jailson guardasse a arma. De início, o corretor acatou a sugestão. Mas, depois, sacou a pistola novamente.

Vanderson incomodou-se e questionou Jailson, que o repreendeu. “Qual é, negão, tá me tirando?”, teria dito o corretor, segundo relato da família da vítima ao Correio. Ele apontou para o peito do jovem e disparou. O irmão de Vanderson conseguiu correr, mas ele não conseguiu se defender. Morreu ali.

Jailson fugiu, não compareceu ao julgamento e acabou condenado à revelia — situação processual em que o réu, devidamente citado, deixa de contestar as alegações apresentadas na petição inicial. Apesar da gravidade do crime, permaneceu pouco tempo preso e obteve a liberdade.

A decisão judicial, no entanto, não devolveu à família de Vanderson o que lhes foi arrancado. O jovem foi sepultado no Dia das Mães, data que, desde então, deixou de simbolizar celebração e passou a carregar luto e ausência.

Ameaça e esbulho possessório

Jailson voltou a ser alvo da polícia esta semana, depois de usar uma arma para ameaçar um homem de 50 anos e ordenar a invasão de um lote localizado no Itamaracá, na Quadra 9.

O corretor integra o grupo de empresários da imobiliária Itamaraká, sediada em Águas Lindas de Goiás (GO). Ele é um “velho conhecido” da cidade e passou a integrar o quadro societário do escritório imobiliário em 12 de setembro de 2025, conforme registros da Receita Federal. A data coincide com a abertura formal da empresa. Nas redes sociais, porém, a narrativa é diferente: a imobiliária se apresenta como atuante há mais de 20 anos “realizando sonhos”.

Sonho que virou pesadelo para um homem de 50 anos, morador de Águas Lindas, e proprietário de um terreno de 2.100 metros quadrados. A certidão registrada no Registro de Imóveis de Águas Lindas comprova a compra da área pelo valor de R$ 5 mil. Na semana passada, ele foi ao terreno e pediu a um rapaz que passasse a máquina no lote. Retornou no local nessa terça-feira e, dessa vez, foi surpreendido.

Na versão contada à polícia, o comprador disse que encontrou máquinas limpando a propriedade, sem o seu consentimento. Com uma pistola em mãos, Jailson desceu de uma caminhonete Toro, afirmou a vítima, e ameaçou. “Você está querendo tomar meu lote, você pode vazar daqui. Isso tudo é nosso”, teria disparado o corretor.

Acionada, a Polícia Militar foi ao terreno, conversou com o proprietário e saiu na busca por Jailson. Ele foi abordado ainda na região e, no porta-luvas, estava a pistola 9mm usada para a ameaça. Jailson prestou depoimento na delegacia na companhia de três advogado. Negou conhecer a vítima, tampouco tê-lo ameaçado. Quanto à arma, afirmou deter o registro de CAC e justificou estar indo a um clube de tiros.

Ao Correio, a delegada do caso, Lorenna Peres, afirmou que a vítima tem a escritura pública do lote e é proprietário legítimo. “O autor fazia a segurança da obra por meio de arma de fogo restrita, a qual não tem autorização para portar, e estava a bordo de uma Toro para garantir a invasão”, detalhou. De acordo com a investigadora, o caso não é isolado. “Essa é uma situação crônica e, infelizmente, muito comum em Águas Lindas. Temos muita venda ilegal de lotes, e os criminosos que fazem isso usam de intimidação para assegurar as invasões.”

Jailson foi autuado por porte ilegal de arma de fogo e esbulho possessório. A reportagem entrou em contato com a defesa do corretor. Por nota, Geraldo Martins, um dos advogados que o representa, classificou Jailson como um “cidadão respeitável”, reconhecido por sua “conduta ilibada.”

Segundo o advogado, a arma encontrada tem registro válido. “Na ocasião, ele se deslocava para um estande de tiro, atividade lícita e devidamente autorizada pela legislação vigente”, defendeu. Acrescentou que os fatos serão plenamente esclarecidos no curso do processo, “no qual ficará demonstrada a inexistência de qualquer prática criminosa, razão pela qual a defesa confia no reconhecimento de sua inocência pelo Poder Judiciário.”

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postado em 15/01/2026 23:04
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