HISTÓRIA

Legado de amor a Brasília: conheça o pioneiro que guarda centenas de fotos da capital

Aos 88 anos, o pioneiro José Cordeiro Cavalcante guarda um tesouro. São centenas de fotos que tirou, desde que chegou à nova capital Brasília, em 1959, e que contam a história dele e da cidade que ama como a própria família

José Cordeiro Cavalcante mostra mural feito com fotos históricas tiradas por ele -  (crédito:  Ed Alves/CB/DA Press)
José Cordeiro Cavalcante mostra mural feito com fotos históricas tiradas por ele - (crédito: Ed Alves/CB/DA Press)

José Cordeiro Cavalcante tinha 21 anos quando pisou, pela primeira vez, na terra entre os paralelos 15° e 20°. Era 10 de agosto de 1959. Brasília, um imenso canteiro de obras. Funcionário do Bank of London, entrou na aventura de se transferir de São Paulo para a nova capital e ir preparando a instalação da instituição financeira na 507 Sul. Paulista, aqui Cavalcante criou raízes, conheceu Maria Teresinha, companheira com quem formou uma família e viveu por mais de 50 anos.

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Por anos, ele reuniu um tesouro — centenas de fotografias que retratam a história dele e a transformação da cidade. Registros feitos com um equipamento analógico simples. "Era uma máquina muito boazinha, uma Beauty que comprei em Brasília, de um vendedor de produtos importados, e tenho muita história com ela, tirava fotos de tudo que aparecia. Antes, tinha uma Kodak", relembra Cavalcante, que também guarda um acervo de slides.

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A construção das quadras, dos ministérios, dos monumentos arquitetônicos e da barragem do Lago Paranoá; a expansão demográfica; o avanço do comércio e dos serviços. Tudo foi acontecendo de forma acelerada, diante dos olhos de Cavalcante e de tantos outros que apostaram em um sonho. "Eu gostaria de ter chegado um ano antes, pegaria ainda mais o início de muitas construções, era tudo de ferro, cimento armado", diz o pioneiro, que nunca se arrependeu da empreitada de uma mudança tão significativa, ao contrário, agradece a Deus.

Aos 88 anos, Cavalcante recebeu o Correio em sua chácara, no Lago Sul. Aos poucos, com nostalgia e alegria, foi mostrando registros que remetem, especialmente, à coragem e à ousadia de um homem, Juscelino Kubitschek, por quem o octogenário cultiva imensa admiração, apesar de não ter tido contato direto com o mineiro. "Hoje, olhando, lembro da pessoa dele e penso: não é possível, uma coisa que vinha desde José Bonifácio. Na construção do Império, já se falava em ter a capital. Houve as expedições da Missão Cruls, e foi Juscelino quem fez."

Na semana de inauguração da cidade, ele capturou momentos icônicos. Havia eventos para todo lado, como a primeira apresentação da Esquadrilha da Fumaça, a missa na área externa do Supremo Tribunal Federal (STF), o palanque de JK e o Grande Prêmio Juscelino Kubitschek — ambos no Eixão Sul. Convidado especial do presidente, o argentino Juan Manuel Fangio, um dos maiores pilotos de Fórmula 1 de todos os tempos, não correu, mas prestigiou a disputa. E Cavalcante se aproximou do pentacampeão, que chamava atenção. No ano seguinte, ele não podia perder a posse de Jânio Quadros. Na ocasião, um feito pelo qual vibra até hoje - o registro daquele dia de um ângulo privilegiado, no Parlatório, de dentro para fora, através do vidro. "Naquele empurra-empurra na rampa, queriam fechar a porta e empurraram tanto que eu entrei. Não sei se é porque estava com pinta de jornalista, com a máquina na mão."

União

Por muito tempo, o centro da vida social em Brasília era o Hotel Nacional, inaugurado em 1961, onde havia comércio e serviços. Por ali, as pessoas passeavam, divertiam-se. Antes de o Lago Paranoá existir, Cavalcante se lembra de cortar caminho para o aeroporto em um trecho hoje coberto pela água.

A grande companheira de vida e de aventuras de Cavalcante foi Maria Teresinha, com quem se casou em 1962 e esteve ao lado dele até 2018, quando faleceu. Natural de Manaus, Teresinha era auditora fiscal do Ministério da Fazenda. Lotada no Rio de Janeiro, foi uma das primeiras servidoras públicas a se transferir para Brasília. O casal construiu uma bela família, e o patriarca está sempre cercado de amor. São dois filhos. José Haroldo, 59, pai de Mariana Graça, 13, fruto do relacionamento com Camilla Maia; e Maria Odete, 56, casada com Wenner Cantanhêde, mãe de Maria Luísa, 28, Pedro Ângelo, 25, e Mariana, 22, grávida de gêmeos que chegam em agosto.

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Depois do Bank of London, Cavalcante passou por outros trabalhos — na Mailine Móveis, onde foi contador, chefiando o escritório; na extinta Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal); na antiga Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater), na qual atuou como advogado; e no Governo do Distrito Federal.

Unidos em tudo, Cavalcante e Maria Teresinha se formaram juntos na primeira turma de Direito do Ceub, em meados dos anos 1970. A fé católica foi marcante nessa união de Teresinha e Cavalcante. Conheceram-se em Brasília, no Movimento Legião de Maria.

Atuantes na Igreja, contribuíram para sua consolidação na nova capital. Na Rádio Nova Aliança, apresentaram o programa semanal Sintonia com o Senhor, de 1989 (fase experimental da emissora) até 2018. Eram entrevistas sobre temas religiosos, saúde, questões sociais, sempre relacionando aos aspectos espirituais. No programa, Teresinha promovia uma sala de estudos com reflexões sobre o Evangelho. Todo acervo está disponível no canal do YouTube da Nova Aliança.

Cidade jardim

Hoje, Cavalcante vê a cidade quase como um milagre. "O que acho extraordinário é o verde pra todo lado, esse verde que deslumbra, pistas com árvores dos dois lados, é uma cidade jardim."

Mesmo com esse encantamento, ele faz ponderações quando perguntado sobre a Brasília de 2026. "Quem pegou a cidade no começo, a gente tinha aquele prazer de se movimentar mais, de se locomover, tinha a sensação de facilidades. Agora, a gente se perde com o trânsito, tem que saber a hora que vai sair, o que é que vai fazer, por causa do tumulto de carros. Então, tem muito carro, muita gente."

  • Casamento de José e Maria Teresinha, em 1962, na Igrejinha de Fátima
    Casamento de José e Maria Teresinha, em 1962, na Igrejinha de Fátima Acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante
  • Cada foto é uma história registrada e contada por José Cavalcante Cordeiro
    Cada foto é uma história registrada e contada por José Cavalcante Cordeiro Ed Alves/CB/DA Press
  • José Cordeiro Cavalcante mostra mural feito com fotos históricas tiradas por ele
    José Cordeiro Cavalcante mostra mural feito com fotos históricas tiradas por ele Ed Alves/CB/DA Press
  • Cavalcante com os filhos, Maria Odete e  José Haroldo, e as netas, Mariana e Mariana Graça
    Cavalcante com os filhos, Maria Odete e José Haroldo, e as netas, Mariana e Mariana Graça Reprodução/acervo pessoal
  • Primeira corrida automobilística na semana de inauguração da cidade
    Primeira corrida automobilística na semana de inauguração da cidade Ed Alves/reprodução/acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante
  • Juan Manuel Fangio (E), pentacampeão de Fórmula 1, na primeira corrida de Brasília
    Juan Manuel Fangio (E), pentacampeão de Fórmula 1, na primeira corrida de Brasília Ed Alves/reprodução/acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante
  • Registro da chegada do pioneiro ao Planalto Central
    Registro da chegada do pioneiro ao Planalto Central Ed Alves/reprodução/acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante
  • Obra da construção da barragem do Lago Paranoá
    Obra da construção da barragem do Lago Paranoá Ed Alves/reprodução/acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante
  • Posse do presidente Jânio Quadros, em janeiro de 1961
    Posse do presidente Jânio Quadros, em janeiro de 1961 Ed Alves/reprodução/acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante
  • Missa na área externa do STF nas celebrações de inauguração
    Missa na área externa do STF nas celebrações de inauguração Ed Alves/reprodução/acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante
  • Palanque presidencial de JK no Eixão Sul
    Palanque presidencial de JK no Eixão Sul Ed Alves/reprodução/acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante
  • Estruturas do Congresso e dos ministérios
    Estruturas do Congresso e dos ministérios Ed Alves/reprodução/acervo pessoal de José Cordeiro Cavalcante

Mas nada se sobrepõe ao amor pela capital. "O mesmo querer bem que a gente tem da minha família, é o que a gente sente por Brasília."

Os filhos têm orgulho desse afeto. "Meu pai se realiza muito em compartilhar suas lembranças de nossa capital. Tive o privilégio de ouvir essas e muitas outras histórias", diz Maria Odete. "E que sejam sempre valorizadas essas pessoas que, como meu pai, protagonizaram esses acontecimentos, esses sonhos que foram se tornando realidade e nos trouxeram até aqui", completa.

Maria Odete conta outro fato que não escapa aos olhos do pai na atualidade, além de "muito carro, muita gente": pessoas em situação de rua. Por anos, ele ajudou o quanto podia. "Trazia pra tomarem banho na chácara, alimentava, arrumava emprego. Teve um que, quando adoeceu seriamente, morou numa casa menor que tem aqui."

A percepção de Maria Odete sobre o legado do octogenário é compartilhada por José Haroldo. "Quando chega o aniversário da vinda dele para Brasília, ele sempre faz questão de lembrar, de comemorar. Tem relatos que pouca gente conhece, e ele não só experimentou, mas vivenciou. Aquilo que aconteceu quando eu não tinha nascido ainda e, portanto, não vivenciei, por meio das fotos consigo me sentir ali também."

Com as facilidades tecnológicas, os filhos pretendem recuperar todo esse material histórico. "Devemos escanear as fotos em casa. Os slides, em um laboratório. Depois, usar inteligência artificial para recuperar a qualidade de tudo", antecipa José Haroldo.

 

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postado em 29/01/2026 05:00
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