CB.DEBATE

Ministras e reitora da UnB abrem debate sobre violência contra a mulher

Autoridades e especialistas defendem políticas articuladas e transversais que promovam uma mudança de mentalidade. O evento do Correio reuniu líderes do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e da educação em torno de uma questão muito urgente

 27/01/2026 - Ed Alves/CB/DA Press. Politica -  CB Debate - Pela Proteção das Mulheres um compromisso de todos. Na foto, Ministra Marina Silva.  -  (crédito:  Ed Alves/CB/DA Press)
27/01/2026 - Ed Alves/CB/DA Press. Politica - CB Debate - Pela Proteção das Mulheres um compromisso de todos. Na foto, Ministra Marina Silva. - (crédito: Ed Alves/CB/DA Press)

Em debate promovido nessa terça-feira (27/1) pelo Correio Braziliense, autoridades e especialistas analisaram e debateram soluções para a onda de violência contra a mulher que tem assolado o país nos últimos anos. O evento CB. Debate "Pela proteção das mulheres: um compromisso de todos" foi dedicado à reflexão, ao diálogo e à construção de caminhos efetivos para o enfrentamento desta realidade. Entre outras autoridades, estiveram presentes a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva; a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos; e a reitora da Universidade de Brasília (UnB), Rozana Reigota Naves.

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O discurso de abertura ficou por conta da ministra Marina Silva. Ela afirmou que o governo federal tem investido, anualmente, R$ 200 bilhões em políticas destinadas às mulheres. Destes, R$ 2 bilhões são voltados ao enfrentamento do feminicídio.

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"A violência contra a mulher é múltipla, é física, psíquica, econômica, etc. Por isso, as formas de combate também precisam ser em diferentes frentes", enfatizou Marina. "E o combate só será possível se for um compromisso da sociedade no seu todo e em várias frentes", acrescentou.

A ministra afirmou que é preciso uma combinação de políticas públicas com políticas que mudam mentalidade. "Uma abordagem transversal é importante dentro dos diferentes setores. Isso, claro, para os governos e também para as empresas", frisou. 

Marina lembrou-se da violência de gênero sofrida por ela em 2025, durante debate na Comissão de Infraestrutura no Senado e destacou a necessidade de combater esse tipo de violação aos direitos das mulheres. "A violência política de gênero acaba legitimando também a violência física e psicológica", lamentou a ministra. "Se as mulheres que estão em espaços públicos nas suas funções também podem ser agredidas dentro de instituições que criam as leis, essa é uma forma de autorizar a violência doméstica em espaços menos visíveis e menos protegidos", completou.

Ela ressaltou a importância de políticas públicas transversais no combate à violência contra a mulher. "É preciso que se tenha uma combinação de ações que tenham a ver com marcos regulatórios, com estruturas que têm que ser criadas, outras que têm que ser modificadas e eliminadas para que a gente possa conseguir mais efetividade no combate contra essas múltiplas formas de violência contra as mulheres", enfatizou. 

A violência enfrentada por mulheres indígenas em áreas dominadas pelo garimpo ilegal também foi destacada por Marina Silva.

Segundo a ministra, a degradação ambiental e a violação de direitos humanos caminham juntas nesses territórios. Ela ressaltou que, em regiões onde o Estado se ausenta e a exploração predatória avança, mulheres e meninas indígenas passam a conviver com a violência sexual como parte da rotina. "Existem mulheres indígenas que vivem em locais de garimpo e que são exploradas sexualmente, assim como crianças", comentou.

Marina destacou que esse tipo de violência é apenas uma das faces de um problema estrutural mais amplo. Para ela, a agressão contra mulheres assume diferentes formas — simbólica, psicológica, política e física — e se alimenta de uma cultura que desumaniza quem ocupa posições de vulnerabilidade. "A violência tem levado à eliminação, à destruição da própria existência das mulheres", disse.

A ministra reforçou que o Brasil vive uma crise em todos os aspectos na questão do desrespeito à vida, e que é preciso um olhar cuidadoso em relação às vítimas mais vulneráveis. "Quando se trata de crianças e adolescentes, isso tem uma potência ainda mais perversa, porque essas pessoas, essas crianças, estão numa situação de completo desamparo e vulnerabilidade", alertou.

Políticas públicas

Também participante da abertura do debate, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, afirmou que o enfrentamento à violência doméstica e de gênero exige políticas públicas firmes e uma mudança cultural profunda em uma sociedade ainda marcada pelo machismo. "Não é um assunto simples de ser enfrentado, é um fenômeno cultural, porque a cultura do machismo está em todo lugar", disse, ao defender a elevação da consciência sobre a condição feminina, a opressão de gênero e a desigualdade entre homens e mulheres. "É necessária uma política pública muito firme, forte e eficiente. Política de educação, de ciência e tecnologia e de saúde, para que esse conjunto de iniciativas promovam a condição feminina", complementou.

De acordo com a ministra, a autonomia financeira das mulheres é um dos fatores centrais para romper o ciclo da violência. "A autonomia financeira pode ajudar a quebrar o ciclo de violência. Ela não é uma condição suficiente, mas é uma condição necessária", afirmou. Luciana destacou que a violência de gênero está ligada a concepções que tratam a mulher como propriedade. "Isso gera casos de horror, de perversidade e de ódio. E a gente não pode achar que isso é natural. Quem ama não mata", enfatizou.

 

Luciana apresentou dados que evidenciam a gravidade da violência de gênero no país, especialmente contra mulheres negras. "Cerca de 66% das vítimas de feminicídio são mulheres negras, e 71% dos casos de violência doméstica ocorrem na presença de crianças", ressaltou. Ela, porém, destacou avanços recentes na legislação e nas políticas de responsabilização. "Em 2024, a pena mínima do feminicídio aumentou para 20 anos, a máxima para 40 anos", disse. "Também avançamos na legislação que fortalece medidas protetivas, que ampliam o monitoramento eletrônico de agressores", completou.

A ministra reforçou que a superação da violência contra a mulher passa pela combinação de políticas públicas arrojadas e pela luta de ideias. "Nós só vamos enfrentar a desigualdade de gênero se tivermos políticas públicas fortes, que ampliem a autonomia financeira das mulheres, aliadas à elevação do nível de consciência da sociedade", afirmou.

Compromisso concreto

A reitora da Universidade de Brasília (UnB), Rozana Reigota Naves, defendeu que o enfrentamento ao problema exige compromisso público e ações concretas. "Dar visibilidade a esse debate significa reafirmar que as violências contra a mulher não podem ser aceitas nem naturalizadas", afirmou a reitora, ao destacar a necessidade de mobilização das instituições e da sociedade.

Segundo Rozana, a presença da UnB no debate não é simbólica. "Falo em nome de uma universidade pública localizada no centro político do país, permanentemente convocada a contribuir com a vida democrática brasileira", disse. Para ela, a universidade existe para formar pessoas, produzir conhecimento e servir à sociedade, e isso inclui enfrentar a violência de gênero como uma violação de direitos.

A reitora ressaltou que compromisso não pode ser entendido como intenção genérica. "Compromisso precisa se traduzir em políticas, práticas, recursos, protocolos, formação e resultados. Não admite ambiguidades", declarou. De acordo com ela, a proteção às mulheres deve garantir dignidade, segurança e acolhimento efetivo diante de qualquer situação de violência.

Reitora da Universidade de Brasília, Rozana Reigota Naves, no CB.Debate "Pela proteção das mulheres"
"Compromisso precisa se traduzir em políticas, práticas, recursos, protocolos, formação e resultados" Rozana Reigota Naves, reitora da UnB (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Rozana também alertou para os mecanismos institucionais que perpetuam o problema. "A violência não se sustenta apenas pela ação dos agressores, mas também pela tolerância, pela naturalização e pelo silenciamento. Quando o assédio é tratado como mal-entendido ou a denúncia é desacreditada, o direito se transforma em desgaste", pontuou.

Para a reitora, falar em proteção exige articular prevenção e resposta. "A prevenção envolve educação continuada, comunicação responsável e ações permanentes que desnaturalizem comportamentos abusivos. Já a resposta precisa de portas de entrada acessíveis, fluxos claros, proteção contra a revitimização e responsabilização com seriedade", explicou.

Nesse contexto, ela destacou o papel formativo da universidade e citou projetos desenvolvidos na UnB voltados ao enfrentamento da violência de gênero, como iniciativas de pesquisa, extensão e protocolos institucionais. "A universidade não apenas descreve a sociedade, mas também ajuda a modelá-la", afirmou.

 

ONDE PEDIR AJUDA?

» Ligue 190: Polícia Militar (PMDF)

» Ligue 197: Polícia Civil (PCDF)

» Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher (Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres). Por esse canal, também podem ser feitas denúncias de forma anônima, 24 horas por dia, todos os dias.

Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (Deam):

» Deam 1: EQS 204/205, Asa Sul (atende todo o DF, exceto Ceilândia)

» Deam 2: St. M QNM 2, Ceilândia (atende Ceilândia)

» Ouvidoria das Mulheres (Conselho Nacional do Ministério Público): para encaminhamento de denúncias diretamente ao Ministério Público.
WhatsApp: (61) 9366-9229
Telefones: (61) 3315-9467 / 3315-9468

» Ouvidoria Nacional da Mulher (Conselho Nacional de Justiça): para questões e denúncias sobre o andamento de processos judiciais.
Telefone: (61) 2326-4615

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postado em 28/01/2026 02:00
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