Com foco em acessibilidade, combate ao assédio e valorização da cultura popular, Brasília se prepara para viver, em 2026, mais um carnaval de excelência. A expectativa é que cerca de 1 milhão de pessoas ocupem as ruas durante a festa, mais que o dobro do público registrado no ano passado, quando aproximadamente 400 mil foliões participaram das festas. Ao Podcast do Correio de ontem, o presidente da Liga dos Blocos Tradicionais de Brasília, Paulo Henrique de Oliveira, e a coordenadora do grupo Street Cadeirante, Carla Maia, explicaram que o crescimento, no entanto, vem acompanhado de um debate sobre como garantir que esse carnaval seja também um espaço de respeito, inclusão e segurança para todos. Aos jornalistas Mila Ferreira e José Carlos Vieira, eles detalharam as iniciativas adotadas pelos blocos e o que falta melhorar.
Entre os blocos que integram a Liga estão nomes tradicionais e já consolidados no calendário da cidade, como Pacotão, Galinho de Brasília, Baratona, Baratinha, Mamãe Taguá, Menino de Ceilândia e Ase Dudu. Dentro desse universo, o bloco Portadores da Alegria, criado em 2015, se destaca como referência quando o assunto é inclusão de pessoas com deficiência e de suas famílias.
Segundo Paulo Henrique, a acessibilidade deixou de ser apenas uma boa prática e passou a ser uma exigência legal para os blocos que utilizam recursos públicos. "Isso é determinado em lei para poder utilizar a verba pública. Se você apenas escrever e não oferecer acessibilidade, perde praticamente todos os pontos e não vai conseguir ser contemplado no próximo ano", explica. Para ele, mais do que cumprir normas, há um processo de amadurecimento coletivo. "É uma preocupação não só dos órgãos públicos, mas também uma conscientização dos próprios blocos. A questão da acessibilidade e da conscientização se tornou muito forte".
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Carla Maia é cadeirante, e reforça que inclusão não significa segregação. "O mais legal da inclusão é misturar. A gente não pode colocar as pessoas em caixinhas. Vamos misturar, vamos interagir", defende. Ela relata a emoção de ocupar o palco do Portadores da Alegria. "Em Brasília é muito raro ter artistas com deficiência com espaço em um palco para um público grande. A gente se apresentou e depois vieram crianças pedir foto. Se eu não estivesse no palco, eu estaria lá embaixo curtindo com certeza".
O combate ao assédio e à violência contra a mulher é um tema que todo ano cria destaque nos carnavais do país. Paulo Henrique afirma que os blocos adotam uma postura firme diante de qualquer desrespeito. "Isso é tratado de forma muito veemente. O locutor no palco fala o tempo todo sobre o respeito ao espaço do outro. Temos campanhas como o 'Não é Não' e o 'Todos por Elas', que são decretos aqui do DF e protegem contra abusos", afirma.
Ele explica que casos de violência são tratados com tolerância zero. "Após qualquer incidente relatado, a polícia é acionada na hora. O desrespeito ao corpo da mulher e ao querer da mulher não é tolerado. Ela está em primeiro lugar em todos os blocos". Paulo também faz alertas práticos, especialmente às mulheres, sobre cuidados durante a folia. "Evitar ficar sozinha mexendo no celular o tempo todo e ter consciência no consumo de bebida alcoólica é fundamental. Infelizmente, há casos de mulheres em coma alcoólico, o que as deixa extremamente vulneráveis".
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"Nos últimos três anos, a polícia tem atuado de forma maciça nos grandes eventos, trazendo mais segurança. Isso é uma satisfação", observa.
Para Carla Maia, o respeito passa também pela liberdade de expressão. "A mulher tem o direito de escolher vestir o que quiser, principalmente a fantasia", destaca.
Geração de empregos
Além do aspecto cultural e social, o carnaval de Brasília tem impacto direto na economia criativa. De acordo com Paulo Henrique, o evento movimenta milhares de postos de trabalho. "Diretamente, são mais de 2 mil empregos gerados nos blocos, entre montadores, equipes de produção, acessibilidade, recepção. Indiretamente, passando por logística, comércio e serviços, são mais de 6 mil pessoas trabalhando durante o período carnavalesco", contabiliza. Para ele, o retorno é muito superior ao investimento público. "O recurso aplicado no carnaval é muito pequeno perto do retorno em impostos e movimentação econômica".
"Há mais de dez anos pedimos uma subsecretaria específica dentro da Secretaria de Cultura para o carnaval, para estudar, mapear e planejar a logística durante todo o ano", completa.
Ele também critica o que considera um excesso de restrições, que acabam afastando o público das ruas. "Os órgãos públicos estão lidando com o carnaval como se fosse um evento privado. Nenhum produtor consegue fazer uma festa para essa quantidade de gente com as mesmas exigências de um evento fechado", afirma. Questões como a lei do silêncio e a mudança dos blocos para áreas menos residenciais, como o Eixo Monumental, também impactam a participação popular. "Antes, a pessoa descia do prédio e ia para o bloco. Agora, precisa pegar ônibus ou metrô. E quando tudo acaba, o fluxo se concentra na Rodoviária, que nem sempre dá conta da demanda".
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