ECONOMIA

Um em cada cinco donos de negócios no Distrito Federal tem entre 18 e 29 anos

Cada vez mais essa faixa etária tem optado por modelos de empresa alinhados ao próprio estilo de vida, que prioriza autonomia e qualidade de vida. No DF, até 2024, existiam cerca de 75,8 mil jovens empreendedores

Davi Rehem e Hugo Szervinsk estão à frente da criação do RanGo -  (crédito:  Ed Alves/CB/DA Press)
Davi Rehem e Hugo Szervinsk estão à frente da criação do RanGo - (crédito: Ed Alves/CB/DA Press)

Com uma geração que questiona cada vez mais o modelo tradicional de emprego, jovens do Distrito Federal têm repensado o caminho que querem tomar. Para eles, o empreendedorismo não surge apenas como alternativa, mas como uma escolha consciente diante do desejo por autonomia, flexibilidade e melhor qualidade de vida.

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Longe de ser apenas uma resposta à falta de oportunidades, abrir o próprio negócio representa, para muitos, a possibilidade de construir renda sem submeter a vida a jornadas rígidas e relações hierárquicas. A lógica deixa de ser "viver para trabalhar" e passa a ser "trabalhar para viver".

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Dados de 2024 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que um em cada cinco donos de negócios no DF tem entre 18 e 29 anos. Esse grupo ocupa 19,2% do mercado empreendedor. A juventude, agora, troca a carteira assinada pela construção do próprio nome. No DF, até 2024, existiam cerca de 75,8 mil jovens donos de negócios, com forte concentração no setor de serviços, que responde por 61,1% das atividades. 

O perfil revela uma maioria masculina, 63,3%, com presença feminina de 36,7%, além de predominância de pessoas negras — pretas e pardas — que somam 63,7%. Para a diretora superintendente do Sebrae no DF, Rose Rainha, esse cenário reflete uma mudança estrutural no mercado. "Os jovens são protagonistas da economia criativa no Distrito Federal e no Brasil", afirma.

Os dados também apontam que 63,3% dos jovens empreendedores atuam na informalidade e grande parte ainda não concluiu a escolaridade básica ou superior. Segundo Rose Rainha, o empreendedorismo tem sido o caminho encontrado por essa geração para transformar talento em renda. "Por meio desse modelo de negócio, eles transformam criatividade e inovação em negócios sustentáveis, diversificando fontes de renda e gerando oportunidades em áreas como design, audiovisual, moda, cultura, games e produção de conteúdo digital", destaca.

"O empreendedorismo é fundamental para o DF e para o país, pois impulsiona a inovação, fortalece a economia local e contribui para o desenvolvimento social. O Sebrae atua para criar um ambiente favorável para que essa criatividade se transforme em crescimento econômico e impacto social", completa.

O especialista desse segmento Flávio Hideo Mikami avalia que a escolha dos jovens pelo empreendedorismo está diretamente ligada a uma mudança de percepção sobre o mercado de trabalho. "Para muitos, o risco de empreender hoje não parece maior do que o risco de depender exclusivamente de um emprego formal, que oferece menos autonomia e perspectivas mais lentas de evolução", afirma. Mikami destaca ainda que o acesso facilitado à tecnologia reduziu as barreiras de entrada para novos negócios. "Com redes sociais, plataformas digitais, marketplaces e inteligência artificial, é possível começar com baixo investimento e validar ideias rapidamente".

Outro ponto relevante é o desejo por propósito e flexibilidade. "Essa geração busca autonomia, qualidade de vida e alinhamento com valores pessoais. Empreender passou a ser visto não apenas como uma forma de ganhar dinheiro, mas como um meio de expressão profissional e identidade", diz o especialista.

Ao olhar um panorama local, o especialista aponta a economia criativa como um dos segmentos mais promissores para essa geração. "O DF reúne jovens qualificados, instituições de ensino, coletivos culturais e políticas de fomento que favorecem negócios", explica. Para Mikami, o principal desafio está em transformar o talento em sustentabilidade econômica. "A tendência é que empreendedores que consigam unir criatividade e visão empresarial tenham papel central no desenvolvimento econômico do DF nos próximos anos".

Sarah e Arthur começaram a empreender com seus conhecimentos ainda na faculdade
O casal Sarah e Arthur uniram seus conhecimentos individuais para empreenderem ainda na faculdade (foto: Silas Alves)

Donos de negócios

Entre esses donos de negócios estão os estudantes Sarah Atrizia, de 23 anos, e Arthur Marques, 22, noivos que encontraram no setor criativo uma forma de alinhar propósito, fé e carreira. Sarah cursa publicidade e propaganda e Arthur design visual. A partir da união dessas áreas, nasceu a Crescente Studio, um estúdio criativo voltado para branding, design, publicidade e fotografia comercial. "A Crescente nasceu com a ideia de flexibilidade. Nosso pensamento sempre foi o de trabalhar para viver, e não viver para trabalhar. Queríamos um negócio onde fôssemos os cabeças, com autonomia para sustentar nossa vida e equilibrar tudo isso com a missão de Jesus, que é muito importante para nós", explica Arthur.

O início da trajetória foi marcado por desafios comuns a quem empreende ainda jovem e está em formação acadêmica. "O maior choque é perceber que, independente do conhecimento teórico, você só aprende com a prática", relata Sarah. Segundo o casal, a rotina exigiu muito além da criatividade. "Tivemos que aprender sobre atendimento, contato com cliente, questões legais, registros, divulgação e financeiro. Foi um processo difícil, mas essencial para estruturar uma empresa que fica cada vez mais forte", diz ela.

A diversidade de serviços oferecidos pela Crescente Studio se tornou um diferencial competitivo no mercado. Para Arthur, essa pluralidade permite soluções mais completas para os clientes. "Apesar de serem serviços distintos, conseguimos usar boa parte deles em um único projeto, principalmente por meio do branding. Nosso trabalho é voltado para marcas, e marcas precisam de soluções criativas para se diferenciar e vender mais", afirma. 

Além da parceria profissional, Sarah e Arthur também compartilham a vida pessoal, o que exige equilíbrio constante. "A proximidade do relacionamento traz uma profundidade de comunicação que é um privilégio para um empreendimento", diz Sarah.

 15/01/2026 Bruna Gaston CB/DA Press. Costureira Talita Gabriela, São Sebastião
Talita desenvolve suas peças autorais em casa, unindo sustentabilidade e referências da cultura afro-brasileira (foto: Bruna Gaston CB/DA Press)

No setor da economia criativa, Talita Gabriela Cordeiro, 24, encontrou na moda uma forma de se expressar e construir sua identidade. Empreendedora e criadora de moda, ela desenvolve suas peças autorais em casa, em São Sebastião, unindo sustentabilidade, história e referências da cultura afro-brasileira. "A moda sempre fez parte da minha vida como forma de expressão. Desde pequena, a costura esteve presente no meu cotidiano, e empreender surgiu do desejo de contar minha própria história por meio da roupa, criando algo com identidade, autonomia e significado", conta.

Sua marca, Corinna Baby, nasceu há cerca de três anos e carrega um forte valor afetivo e ancestral. O nome é uma homenagem à avó e à bisavó maternas de Talita, com o propósito de transformar memórias e vivências em moda autoral. "A Corinna Baby surgiu a partir do resgate da minha ancestralidade materna. O objetivo da marca é transformar memória, afeto e vivência periférica em peças que dialoguem com uma estética urbana e uma identidade própria", explica. Segundo ela, o trabalho é focado em upcycling, reaproveitamento e customização de materiais.

Entre os principais desafios enfrentados ao longo da trajetória estão as limitações financeiras e o acesso a insumos. "No início, a falta de recursos e a dificuldade para conseguir materiais foram os maiores obstáculos", relembra. Atualmente, os desafios se concentram na expansão do negócio. "Busco ampliar a estrutura da marca, alcançar mais pessoas e consolidar o trabalho autoral, sem abrir mão da identidade e da qualidade das peças".

Embora o empreendedorismo ainda não seja sua única fonte de renda, ela projeta um futuro promissor para a marca. "Vejo o futuro da Corinna Baby com crescimento, mais estrutura e reconhecimento, sem perder a essência. Acredito no empreendedorismo como uma ferramenta de transformação social". 

 20/01/2026 - Ed Alves/CB/DA Press. Cidades. Jovens Empreendedores. Na foto, Davi Rehem (Camisa manga longa) e Hugo Szervinsk.
Davi Rehem e Hugo Szervinsk estão à frente da criação do RanGo (foto: Ed Alves/CB/DA Press)

O aplicativo RanGo — plataforma de gestão e pedidos para restaurantes e lanchonetes — surgiu da experiência pessoal do jovem Davi Rehem, 26, fundador e diretor comercial da ideia de resolver uma falha no setor de alimentação, junto com o amigo Hugo Szervinsk. "O App RanGo Sem Fila foi uma ideia que tive depois que perdi uma prova esperando um lanche. Percebi que o problema não era o lanche, e sim a falta de uma operação eficiente", relembra. 

Ele construiu sua trajetória empreendedora a partir de referências familiares e experiências pessoais. Desde cedo, o contato com o mundo dos negócios fez parte de sua rotina. "Empreender sempre esteve presente na minha vida. Cresci em um ambiente onde negócios eram discutidos naturalmente à mesa de casa".

Com o amadurecimento do projeto, a solução evoluiu para um ecossistema completo de gestão. "Percebemos que os lojistas vendiam mais com o aplicativo, mas ainda careciam de gestão interna eficiente", diz. Foi então que surgiu o RanGo Makers, uma plataforma integrada que reúne ponto de venda, gestão de estoque, ferramentas financeiras, relatórios personalizados, integração com delivery, menu digital e inteligência artificial. "Hoje nos posicionamos como um ecossistema, não apenas uma solução isolada", destaca.

Atualmente, o RanGo é uma plataforma consolidada no setor de food service, com milhares de usuários impactados direta e indiretamente. "O apreço dos usuários se reflete na recorrência e na retenção (de clientes)", afirma Davi. Segundo ele, os desafios atuais envolvem escalar o negócio mantendo estabilidade e qualidade.

 20/01/2026 - Ed Alves/CB/DA Press. Cidades. Jovens Empreendedores. Na foto, Danylo Shimano.
Danylo Shimano quer contribuir para o desenvolvimento político do país (foto: Ed Alves/CB/DA Press)

Se engana quem pensa que não e possível empreender no ramo da política. O lobista e estudante de direito Danylo Shimano, 20, encontrou um caminho para gerar impacto social, empreendendo de forma direta no desenvolvimento do país, criando uma consultoria de relações governamentais.

"Minha trajetória sempre foi guiada pela vontade de construir algo que gerasse impacto positivo para a sociedade. Notei que muitas empresas e organizações têm dificuldade de se relacionar com o Estado de forma estratégica e transparente", explica. Segundo ele, boas iniciativas acabam não avançando por falta de orientação. "A consultoria nasceu para ajudar empresas a se posicionarem melhor e tomarem decisões mais seguras".

 


Iniciativas

O Governo do Distrito Federal (GDF) possui programas para fomentar o empreendedorismo entre jovens. Uma delas é o Programa Pró-Jovem Digital, que oferece capacitação em empreendedorismo digital por meio da Secretaria da Família e Juventude.

Outra ação é o Empreende DF, programa de qualificação profissional voltado a micro e pequenos empreendedores, que promove a inserção no mercado e estimula a inovação como estratégia de crescimento dos negócios.

Educação empreendedora, do Sebrae, é uma iniciativa que disponibiliza um conjunto de práticas e metodologias aplicadas no ensino (básico ao superior) para desenvolver competências como criatividade, proatividade e liderança.

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postado em 21/02/2026 04:00
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