
O Podcast do Correio recebeu, nesta terça-feira (3/2), o professor Nelson Inocêncio, presidente do Comitê de Políticas Afirmativas da Universidade de Brasília (UnB). Na bancada, os jornalistas Luiz Felipe e Giovana Sfalsin conduziram um bate-papo aprofundado sobre a trajetória de Luiza Bairros, referência nacional na luta antirracista e nas políticas públicas de igualdade racial.
Professor associado do Departamento de Artes Visuais da UnB, pesquisador e ativista do movimento negro desde o final da década de 1970, Nelson Inocêncio participou da criação das primeiras entidades negras do Distrito Federal e integrou o MNU por 14 anos. Na universidade, foi peça-chave no processo pioneiro de implementação das cotas raciais na UnB, no início dos anos 2000, coordenando por mais de uma década o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Encontro de gerações
Foi no interior do Movimento Negro Unificado (MNU) que as trajetórias de Nelson Inocêncio e Luiza Bairros se encontraram. Fundado nacionalmente em 1978 e estruturado no Distrito Federal a partir de 1981, o movimento reunia militantes que atuavam tanto na linha de frente do combate ao racismo quanto na produção intelectual e política sobre o tema. Inocêncio ingressou no MNU em 1982, ainda jovem, e passou a conviver com lideranças que tinham projeção nacional, entre elas Luiza Bairros.
Segundo o professor, a diferença geracional entre os dois se traduzia em aprendizado. Luiza já despontava como uma intelectual sólida, com uma leitura profunda do racismo na sociedade brasileira. "Ela não era apenas uma militante, mas uma pensadora, uma cientista social que articulava teoria e prática", destacou. No início dos anos 1990, Luiza se tornou a primeira coordenadora nacional do Movimento Negro Unificado, consolidando seu papel como liderança estratégica da organização.
Um dos pontos centrais da atuação de Luiza Bairros, lembrado por Nelson Inocêncio, era a defesa de que o movimento negro não deveria apenas reagir às desigualdades, mas formular um projeto próprio de sociedade. Para ela, pensar o Brasil a partir da experiência negra era essencial para enfrentar o racismo como estrutura organizadora da vida social.
Essa compreensão, segundo o professor, antecipa debates que hoje se popularizaram sob o conceito de racismo estrutural. "Mesmo sem usar essa expressão na época, o movimento entendia que o racismo molda a sociedade brasileira e atravessa as dimensões econômica, política e cultural", afirmou.
Cotas, desafio e horizonte
A conversa também abordou o momento em que Luiza Bairros passa a atuar diretamente no Estado, ao assumir a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), no governo Dilma Rousseff. Para Inocêncio, sua presença no primeiro escalão foi decisiva para a consolidação das políticas afirmativas no país, especialmente a sanção da Lei 12.711, que instituiu as cotas nas universidades federais.
Ele destacou que a aprovação da política ocorreu no mesmo ano em que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, por unanimidade, a constitucionalidade das cotas julgamento que teve como caso-base a própria Universidade de Brasília. "Sem a atuação determinada de Luiza como gestora pública, talvez essas políticas não tivessem avançado da forma como avançaram", afirmou.
Testemunha direta das transformações na UnB, Nelson Inocêncio relembrou o período anterior às cotas, quando o debate racial encontrava forte resistência dentro da instituição. A partir do início dos anos 2000, com a adoção das ações afirmativas, a universidade passou a refletir de forma mais ampla a diversidade da sociedade brasileira.
Para o professor, o legado de Luiza Bairros permanece como desafio e horizonte. "Ela precisa ser lida, estudada e incorporada aos currículos universitários. Assim como outras intelectuais negras, seu pensamento é fundamental para entender o Brasil contemporâneo", concluiu.

Cidades DF
Mundo
Cidades DF