
Após 16 anos, o Distrito Federal voltou a ultrapassar a marca de 100 mortes de motociclistas no trânsito, com 104 óbitos no ano passado. O número de vítimas ficou atrás apenas do registrado em 2010, quando foram contabilizadas 111 mortes. Em 2026, até a publicação desta matéria, pelo menos nove motociclistas perderam a vida nas ruas do DF. O último caso foi na terça-feira (10/2), quando o condutor de uma BMW colidiu com um carro próximo ao balão da 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte).
Em números gerais, a lista de mortes em sinistros de trânsito em 2025 é liderada por motociclistas. Dos 271 óbitos, foram 104. Ou seja: 38% de todas as pessoas que morreram no trânsito no ano passado estavam pilotando motos. A quantidade de fatalidades acende um alerta para especialistas e reforça os cuidados que devem ser tomados por esses condutores.
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A vítima do sinistro era o empresário Júnior Nunes, proprietário de uma loja de conveniência em Samambaia. "Era uma pessoa muito legal e prestativa. Não tinha inimizade com ninguém", afirmou Erivaldo Costa, vizinho da vítima.
"Ele gostava muito de se divertir e ouvir músicas aqui na rua, mas sempre respeitava a vizinhaça", contou. Para Erivaldo, as boas lembranças serão eternas. "Sempre vou levar o bom humor dele comigo. Teve uma vez que eu o encontrei na rua e, desse encontro, saiu um churrasco que durou a noite toda. Era um ótimo amigo", lembrou.
Outro motociclista vítima do trânsito em 2026 foi Rodrigo Ribeiro, de 36 anos, conhecido como Firmeza. Ele morreu em 3 de fevereiro, após se chocar com um caminhão desgovernado, na BR-060, próximo ao Viaduto de Samambaia. Bárbara Ribeiro conta que o apelido reflete quem o irmão era. "Mostra a essência dele. Foi a melhor pessoa com quem eu convivi", assinalou.
Ela contou, ainda, que Rodrigo nunca tinha sofrido um acidente em 10 anos como motociclista. "Ele era muito cuidadoso. Sempre andava com a moto em dia, e com as manutenções feitas. O terceiro filho dele acabou de nascer. Não seria agora que ele ia se arriscar no trânsito", ressaltou.
Para a família, o impacto da morte vai além da perda imediata. "Ele era o pilar da nossa família. Não desestruturou só uma casa, foi uma família inteira. Ele deixou esposa e três filhos, um deles com apenas cinco meses", lamentou Bárbara. Com o coração pesado pela perda, Bárbara tem medo de que as mortes de motociclistas continuem acontecendo no trânsito. "Além do meu irmão, é muito triste ver tantas outras pessoas perdendo a vida e mesmo assim as coisas não mudam", desabafou.
Alerta
Para Paulo César, especialista em segurança viária da Universidade de Brasília (UnB), a quantidade de motociclistas mortos em sinistros acende um alerta. "O aumento de óbitos registrado recentemente mostra uma tendência muito grave, que precisa de atenção imediata", destacou.
De acordo com dados do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), 1.762 motociclistas morreram em 20 anos na capital federal, média de 84 mortes por ano. O último aumento, de 2024 para 2025, foi de 40%, quando as mortes de motociclistas no trânsito saltaram de 74 para 104.
Paulo César acredita que uma das principais razões para esses óbitos é a precarização do trabalho dos motoboys. Na opinião dele, os entregadores estão entre os profissionais mais expostos ao risco nas ruas. "As condições de trabalho dos motofretistas são extremamente precarizadas. Existe uma lógica de mercado que empurra essas pessoas para o risco", avaliou.
O motoboy João Ferreira foi atingido por um carro que, segundo ele, não respeitou as regras de trânsito. O último, e mais grave dos acidentes, deixou sequelas que dificultam sua vida até hoje. "Eu quebrei duas costelas e tive lesões feias no tornozelo e na mão. Convivo com dores nas costas, além de uma lesão crônica no tornozelo esquerdo", relatou. O acidente foi em 2021.
Segundo João Ferreira, os motoboys são pressionados a pilotarem rápido, muitas vezes, ultrapassando a velocidade permitida na via. "Tem entregas rápidas oferecidas pela plataforma, nas quais é preciso entregar a encomenda em um tempo curto. Isso faz com que nem pensemos na nossa segurança, o que pode gerar muitos acidentes", comentou.
O especialista da UnB chama esse fenômeno de "economia da morte". "Quando o cliente espera que a pizza chegue em 10 minutos e recebe um benefício se isso não acontecer, cria-se um sistema que força o motociclista a exceder velocidade e assumir manobras perigosas", explicou Paulo César.
Ele também aponta o aumento da frota de motos em circulação como um fator preocupante. Segundo dados de 2025 do Detran-DF, o número de motocicletas no Distrito Federal vem aumentando exponencialmente nos últimos anos. Em 2020, havia pouco mais de 69 mil veículos desse tipo em circulação. Em cinco anos, o crescimento foi de 320%, com uma frota de quase 300 mil motocicletas no DF em 2025. "À medida que aumenta a quantidade de motocicletas, aumenta a proporção de sinistros, inclusive de vítimas fatais", detalhou o especialista.
Imprudência
Segundo o último relatório do Detran-DF, os motociclistas são os mais vulneráveis do que pedestres e ciclistas. Para os pilotos, o trânsito se mostra mais inseguro devido à imprudência dos motoristas. Essa era, inclusive, uma das reclamações de Rodrigo "Firmeza", segundo a irmã. "Ele sempre comentava que tinha muito motorista que jogava o carro em cima das motos. A falta de respeito com motociclistas era uma reclamação recorrente dele. Infelizmente, por causa da imprudência de um motorista, meu irmão perdeu a vida", lamentou.
O especialista Paulo César reforçou que o excesso de velocidade é "o fator mais decisivo para as mortes no trânsito". Segundo ele, não basta apenas respeitar os limites da via, é necessário reduzir a velocidade permitida. "Temos muitas vias de 80 km/h. Não usar a seta em conversões e mudanças bruscas de faixas são outros atos imprudentes que provocam acidentes, na opinião dele. "Esses comportamentos, principalmente por parte dos motoristas de veículos de passeio, são críticos para a segurança do trânsito", frisou.
Paulo César resume o caminho para um trânsito seguro e harmonioso em uma única palavra: respeito. "Países que são referência em segurança de trânsito apresentam níveis elevados de respeito e de cooperação no trânsito. Precisamos virar essa chave no Brasil também", apontou.
Fiscalização
De acordo com o especialista, o trabalho de conscientização e educação feito pelo Detran-DF contribui para a redução das mortes de motociclistas. "São muitas campanhas que visam melhorar a segurança do trânsito. Inclusive, a última foi focada na segurança dos pilotos de moto", acrescentou.
Outro fator importante é a fiscalização. Em 2025, quase 16 mil infrações foram aplicadas em motociclistas, sendo as mais comuns a falta do uso do capacete ou a má utilização do equipamento. O diretor-geral da autarquia, Marcu Bellini, afirmou que, na maioria dos sinistros fatais, é possível observar o desrespeito às leis de trânsito.
Bellini reforçou que o Detran-DF realiza ações de conscientização para pedestres e não pedestres. Na opinião do especialista da UnB, ações de educação são fundamentais para garantir um ambiente saudável no trânsito. "Os órgãos têm feito um esforço, tanto nacionalmente como aqui no DF, para criar campanhas focadas no cuidado para motociclistas."
Apesar das campanhas, Paulo César avalia que é necessário o engajamento da população para evitar novas tragédias. "Os usuários devem ter atenção a todo o sistema. É preciso que sejam tomadas medidas tanto na pacificação do ambiente de trânsito como na harmonização dos usuários", ressaltou.

Cidades DF
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