
A luta contra o tempo tornou-se o cotidiano da família de Eulina Maria da Conceição, de 64 anos. Diagnosticada com câncer no fígado em fase metastática, ou seja, já disseminado pelo corpo, a comerciante aguarda por um tratamento especializado desde 12 de dezembro do ano passado. Internada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Gama desde o fim de janeiro, Eulina tem recebido cuidados paliativos parciais, com antibióticos e morfina, e sofrido com dores intensas. Mesmo assim, o sistema de regulação da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) classificou seu caso como "risco verde", ou seja, sem urgência.
A filha de Eulina, Maria Eunice da Conceição, 46, relata o desespero de ver a progressão acelerada da doença sem a assistência devida. "A própria UPA relata não ter estrutura para atender pacientes oncológicos graves como ela", afirma. Segundo a família, a resposta recebida informalmente no Hospital de Base para a baixa prioridade no sistema de regulação aponta negligência.
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"Fomos informados que a paciente foi classificada como 'não urgente' porque é idosa e possui câncer metastático, sob a justificativa de que o sistema prioriza pacientes mais jovens, com maior chance de cura", denuncia a filha. A progressão da doença, conforme laudos compartilhados com a reportagem, gera deterioração clínica rápida, indicando que Eulina possa necessitar de suporte intensivo a qualquer momento.
A expectativa da família é que haja a reavaliação da classificação de risco, antecipação do atendimento e garantia de assistência integral. "Esperamos que ela seja transferida para algum hospital com condições de dar o suporte que a gravidade do caso exige, seja Hospital de Base, seja o Hospital de Apoio", reforça Maria Eunice.
Impasse da regulação
Em nota, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (IgesDF), responsável pela UPA do Gama, confirma que a paciente está sob cuidados da equipe multiprofissional, mas reitera que a classificação de risco não depende da unidade.
"Ela foi inserida no Sistema de Regulação da Secretaria de Saúde em 12/12/2025, no entanto, quem determina a classificação de risco e gravidade é o médico regulador após avaliar alguns critérios e protocolos estabelecidos pela SES-DF", informa o instituto.
A SES-DF, por sua vez, defende que a classificação segue notas técnicas específicas baseadas na biologia da doença. A pasta mantém a previsão de que qualquer mudança no status de urgência só ocorra após uma consulta já agendada.
"A prioridade e a estratégia terapêutica, voltadas ao controle de sintomas e à qualidade de vida, serão definidas após a consulta médica agendada para o dia 26/02. Este atendimento permite ao médico especialista avaliar o status clínico atual e, se houver indicação, realizar a reclassificação no sistema de regulação", declara a secretaria.
Corrida contra o tempo
Para a família, a data de 26 de fevereiro soa como uma sentença de omissão, visto que o laudo médico mais recente aponta risco iminente de falência orgânica e sepse. "Estou correndo atrás dos trâmites legais que posso acionar. Já recorri à Defensoria Pública por duas vezes devido à gravidade da situação, mas apenas reforçaram que a consulta está marcada", lamenta Maria Eunice.
A sala verde de UPA, segundo a família, é um local inadequado para o manejo de alta complexidade que o câncer exige. A filha de Eulina resume o sentimento de urgência: "Infelizmente a doença progride de maneira acelerada e 26/02 pode ser muito tempo".

Cidades DF
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