Agressão

Delegado reage a ataques de advogado: "Vai ter que provar em juízo"

Para o defensor de Pedro Turra, o titular da 38ª DP mentiu, agiu de forma midiática e induziu o Ministério Público a erro no caso que apura a morte de Rodrigo Castanheira. Policial disse que adotará medidas judiciais

Delegado tem
Delegado tem "pretensão eleitoreira", acusa Kaefer - (crédito: Redes sociais)

Em entrevista exclusiva ao Correio, a defesa do ex-piloto de Fórmula Delta Pedro Arthur Turra Basso, de 19 anos, indiciado por agredir o adolescente Rodrigo Castanheira, 16, fez duras críticas à condução do inquérito policial e à atuação do delegado responsável pelo caso, Pablo Aguiar, titular da 38ª Delegacia de Polícia (Vicente Pires). Rodrigo morreu no sábado, após 16 dias internado, em coma devido a um traumatismo craniano provocado pelas agressões sofridas na madrugada de 23 de janeiro, na saída de uma festa.

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Segundo o advogado Daniel Kaefer, que representa Pedro Turra — preso preventivamente em uma cela individual na Papuda —, o inquérito estaria sendo utilizado como plataforma política, e o titular da 38ª DP agiu visando à espetacularização do caso por "pretensão eleitoreira". Para Kaefer, as ações de Pablo Aguiar tiveram influência nas investigações e induziram o Ministério Público ao erro. "O delegado mentiu", acusou.

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O defensor traçou, ainda, um perfil pessoal de Pedro Turra, em contraponto à imagem pública do agressor. "Pedro é um jovem amoroso, criado com afeto pela mãe, que assumiu responsabilidades muito cedo, após a perda do pai aos 3 anos de idade. Não corresponde, de forma alguma, ao rótulo que lhe foi atribuído publicamente", garantiu.

Procurado pela reportagem, Aguiar rebateu as críticas à condução das investigações sobre a morte de Rodrigo Castanheira. Segundo ele, as declarações que colocam em dúvida o trabalho da Polícia Civil não correspondem aos fatos apurados. "O inquérito sempre foi conduzido com muita responsabilidade técnica, que é primordial no nosso trabalho, e sem parcialidade para qualquer lado, sempre na busca da verdade", destacou.

Aguiar ressaltou que a PCDF atuou dentro dos limites da lei e que todas as providências cabíveis foram adotadas, conforme os elementos disponíveis à época. Para ele, acusações genéricas contra a atuação policial precisam ser comprovadas. "Quem afirma esse tipo de coisa, em verdade, deverá provar em juízo e responder criminalmente por essa afirmação", completou.

 30/12/2025 - Ed Alves/CB/DA Press. Cidades. Torturador de Vicente Pires é preso e vítima morre. Criminoso foi encaminhado para a 38ª delegacia. Na foto, Delegado Pablo Aguiar.
"Quem afirma esse tipo de coisa deverá provar em juízo", diz Pablo Aguiar (foto: Ed Alves CB/DA Press)

O delegado reforçou que a PCDF permanece à disposição das autoridades judiciais e do Ministério Público e que o trabalho policial não pode ser deslegitimado por versões que, segundo ele, não encontram respaldo nos autos. "Nosso compromisso é com a técnica, com a legalidade e com a verdade dos fatos", concluiu.

Luto

A morte de Rodrigo Castanheira provocou forte comoção entre familiares e amigos. O tio do adolescente, Flávio Fleury, descreveu a dor vivida pela família desde a confirmação da morte cerebral.

"A família não consegue assimilar. A notícia de sábado foi extremamente difícil e pesada. Eu tinha esperanças de que o Rodrigo iria sair dessa sem sequelas", lamentou.

Segundo ele, a mãe do jovem está devastada. "Ela perdeu o chão. Está com um olhar distante, sem rumo. Ver aquele olhar dói muito. O Rodrigo era companheiro de todas as horas, e essa ausência vai fazer muita falta", contou.

 Hospital confirma morte de jovem agredido por Pedro Turra no DF. Tio de Rodrigo Castanheira, Flávio Henrique Fleury, foi até o Hospital de Brasília em Águas Claras para falar com a imprensa
Flávio Fleury, tio de Rodrigo, tinha esperanças de que ele iria se recuperar sem sequelas (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

De acordo com Flávio, o sobrinho tinha planos e sonhos, que foram interrompidos de forma brutal. "O Rodrigo tinha uma perspectiva de futuro brilhante, e isso foi arrancado dele", afirmou.

O foco da família, agora, é a responsabilização criminal de todos os envolvidos. "Nosso principal foco é a justiça. Queremos que os outros participantes respondam pelo crime que o Pedro já começou a responder", assinalou o tio.

Sobre a possibilidade de doação de órgãos, Flávio explicou que uma equipe médica realizou avaliações, mas o procedimento não foi autorizado. Segundo ele, os próprios profissionais descartaram a doação após constatarem que Rodrigo havia recebido uma grande quantidade de medicamentos durante o período de internação, o que inviabilizou o processo.

Entre os amigos do adolescente, o sentimento é de luto, insegurança e falta de respostas. Uma amiga de Rodrigo, que preferiu não se identificar, afirmou que o grupo vive dias de angústia. "Estamos muito tristes com tudo o que aconteceu, e pela forma como aconteceu. Temos muitas dúvidas, sem respostas, e até mesmo medo", relatou.

Outro amigo, que também preferiu o anonimato, comentou: "O Rodrigo era um grande amigo. Tentei ajudar como pude. Doei sangue, participei das orações, mas, infelizmente, ele não resistiu", lamentou.

Arquivamento

O Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios (MPDFT) pediu o arquivamento do inquérito que apura a agressão sofrida por Arthur Azevedo Valentim, em junho de 2025, em Águas Claras. A solicitação foi apresentada após a conclusão das diligências iniciais pela PCDF, que reuniu os depoimentos da vítima e do autor, Pedro Turra, além do laudo do Instituto Médico Legal (IML). Segundo o MP, não foi possível avançar na persecução penal diante da ausência de novos elementos probatórios e da dificuldade de localização da vítima para dar continuidade aos atos processuais.

De acordo com a ocorrência, Arthur Azevedo procurou a delegacia relatando ter sido vítima de lesão corporal após ser abordado por Pedro Turra e outros quatro jovens, em uma praça da Quadra 301 de Águas Claras. A vítima afirmou que, após uma conversa aparentemente pacífica, foi surpreendida com um golpe pelas costas, derrubada no chão e agredida com socos no rosto. "Por medo de reagir e ser agredido por todos, apenas tentava me defender, sem revidar qualquer tipo de agressão", declarou Arthur Azevedo em depoimento à polícia, acrescentando que os amigos do agressor o cercaram durante a ação.

Ouvido pela polícia, Pedro Turra negou ter desferido socos contra a vítima e apresentou outra versão. Em contato telefônico, afirmou que houve apenas um empurrão e uma luta corporal breve. "Em nenhum momento teve socos e não bati em Arthur", declarou. O investigado alegou que o desentendimento teria sido motivado por provocações anteriores envolvendo a namorada dele, versão que não foi confirmada por outros depoimentos ou provas materiais.

O pedido de arquivamento do MPDFT foi questionado pela defesa da vítima. Segundo o advogado Vinícius Maia, que se habilitou no processo após a manifestação ministerial, o arquivamento foi solicitado porque Arthur não foi localizado no endereço informado inicialmente. De acordo com o advogado, Arthur deixou Brasília após a agressão por receio de sofrer novas ameaças, mas não atualizou formalmente seus dados junto à delegacia ou ao Judiciário. "Ele se mudou após a agressão e não atualizou o endereço por medo de ser perseguido", explicou.

Ainda segundo Maia, o pedido de arquivamento não encerra definitivamente o caso. "Já me habilitei no processo e fiz a solicitação para prosseguimento da ação, que será determinada pelo juiz", disse o advogado. De acordo com ele, a vítima manifestou, desde o início, interesse na continuidade da apuração criminal. "O processo seguirá normalmente", afirmou Maia, destacando que a decisão final sobre o arquivamento cabe ao Judiciário. Procurado pelo Correio, o MPDFT não se manifestou sobre a possibilidade de reversão do arquivamento até o fechamento desta edição. 

Em carta, a mãe de Arthur, Amanda Azevedo, manifestou repúdio pela lentidão no andamento do processo. "Seis meses se passaram e nunca fomos chamados à delegacia. [...] Mal há justiça para quem morre; imagine para quem sofre uma agressão." Ela também falou sobre a morte de Rodrigo Castanheira. "Como mãe, sinto alívio porque meu filho escapou e compaixão pela mãe que hoje enterra o seu."

 Chegada de Pedro Turra na 38ª Delegacia de Polícia em Vicente Pires
Pedro Turra teve a prisão preventiva decretada em 23 de janeiro e depois foi levado para a Papuda (foto: Paulo Gontijo/CB/D.A Press)

Memória

Rodrigo Castanheira foi agredido por Pedro Turra na madrugada de 23 de janeiro, na saída de uma festa, em Vicente Pires. Ainda pela manhã, o ex-piloto  foi preso em flagrante e liberado após o pagamento de fiança no valor de R$ 24,3 mil.

Diante do agravamento do estado de saúde da vítima e das suspeitas de interferência nas investigações, a Justiça decretou, em 29 de janeiro, a prisão preventiva de Turra. Pedidos de habeas corpus apresentados pela defesa ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) foram negados. No sistema prisional, o indiciado foi transferido para uma cela individual após alegações de risco à sua integridade física.

Com a confirmação da morte cerebral de Rodrigo Castanheira, em 7 de fevereiro, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) encaminhou o inquérito da Promotoria de Justiça Criminal de Taguatinga para a 1ª Promotoria Criminal e do Júri de Águas Claras, ao entender que, no mínimo, há indícios de dolo eventual, quando o agente assume o risco de matar, mesmo sem desejar diretamente o resultado. O caso segue sob análise do Tribunal do Júri.

 

  • "Quem afirma esse tipo de coisa deverá provar em juízo", diz Pablo Aguiar Foto: Ed Alves CB/DA Press
  • Pedro Turra teve a prisão preventiva decretada em 23 de janeiro e depois foi levado para a Papuda
    Pedro Turra teve a prisão preventiva decretada em 23 de janeiro e depois foi levado para a Papuda Foto: Paulo Gontijo/CB/D.A Press
  • Flávio Fleury, tio de Rodrigo, tinha esperanças de que ele iria se recuperar sem sequelas
    Flávio Fleury, tio de Rodrigo, tinha esperanças de que ele iria se recuperar sem sequelas Foto: Ed Alves/CB/D.A Press
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postado em 11/02/2026 04:00
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