
Após 16 dias lutando pela vida, Rodrigo Castanheira, o menino que sonhava ser bombeiro, teve a morte cerebral decretada pela equipe médica do Hospital Brasília Águas Claras, na manhã de ontem. O adolescente sofreu traumatismo craniano de de ser brutalmente agredido pelo ex-piloto Pedro Turra, 19 anos, em 23 de janeiro, na saída de uma festa em Vicente Pires.
Em nota, o hospital informou que, "apesar de todos os esforços da equipe médica, o quadro (de Rodrigo) evoluiu para a perda completa e irreversível das funções cerebrais, seguindo todos os protocolos estabelecidos pelo Conselho Federal de Medicina". Rodrigo será velado, hoje, na Igreja Batista Capital, a partir das 14h. Até o fechamento desta edição, não havia definição sobre qual cemitério ele será sepultado.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
O fisioterapeuta Flávio Henrique Fleury, tio de Rodrigo, destacou a vitalidade e o futuro promissor interrompidos. Para ele, não foi um atrito banal e voltou a afirmar que a briga foi premeditada. "Foi uma emboscada", afirmou. O advogado da família de Rodrigo, Albert Halex afirmou ao Correio que, agora, Pedro Turra deverá responder por homicídio qualificado.
Flávio contou que o sobrinho era um jovem alegre, atleta e ativo, que nutria uma paixão enorme pelo futebol e pelo esporte. Em um desabafo emocionado, o tio comparou a energia do adolescente com o estado em que ele se encontrava no hospital. "Era muito difícil vê-lo em uma cama. Espero que agora ele esteja em um lugar bem melhor, com o corpo curado".
Flávio ressaltou a dificuldade de processar a tragédia. "É difícil separar esse 'alívio' pelo fim de seu sofrimento do fato de que um jovem perdeu todo um futuro e toda uma vida de uma forma gratuita", lamentou, reforçando que Rodrigo era um "garoto com um futuro enorme" cuja trajetória foi cortada por uma violência desproporcional.
Homenagens
A morte de Rodrigo Castanheira gerou uma onda de consternação que uniu instituições de ensino, grupos sociais e centros esportivos em torno da preservação de sua memória. O Colégio Vitória Régia, onde o jovem estudava, manifestou profundo pesar em uma nota pautada pela fé, pedindo orações para que o Espírito Santo seja "bálsamo, força e paz" a toda a comunidade escolar.
A instituição buscou confortar os enlutados e afastar sentimentos de revolta. "Oramos também para que o Senhor retire de nossos corações qualquer sentimento que não venha d'Ele, inclusive desejos de vingança. A justiça pertence a Deus, e n'Ele confiamos plenamente", escreveu a direção da escola.
A trajetória de Rodrigo também foi lembrada por sua atuação em atividades extracurriculares e profissionais. O grupo Escoteiro do DF lamentou a perda do ex-integrante da equipe de exploradores de Águas Claras com uma saudação tradicional do movimento: "Não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus. Bem cedo junto ao fogo, tornaremos a nos ver".
Da mesma forma, o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial do DF (Senac-DF) destacou o vínculo afetivo construído durante a passagem do adolescente pelo programa Jovem Aprendiz, na unidade de Ceilândia. Segundo a entidade, Rodrigo deixou uma "marca de carinho, respeito e convivência afetuosa", e sua presença seguirá viva nos aprendizados compartilhados e nos vínculos que estabeleceu.
No ambiente esportivo, a Arena 61, onde o jovem treinava, publicou uma despedida carinhosa, descrevendo-o como um "menino alegre, cuidadoso e carinhoso, que conquistava todos ao seu redor com seu sorriso". O centro de treinamento reforçou que o adolescente sempre será parte daquela família e que as lembranças de sua presença jamais serão apagadas.
Entre os educadores, o sentimento de perda foi igualmente profundo. Um de seus professores compartilhou uma homenagem tocante nas redes sociais. "Prefiro lembrar desse sorriso. Prefiro lembrar das nossas risadas. Prefiro lembrar da sua essência a lembrar da brutalidade que te tirou de nós. Vai Rodrigo! Vai para os braços do Pai!".
As homenagens individuais de amigos próximos revelaram a dor de uma geração que convivia com o adolescente. Artur Henry, em uma carta aberta, expressou que seu luto falava mais do que mil palavras. "Você não é apenas meu amigo, você é meu irmão", declarou, no Instagram. Julia Schma também utilizou as redes sociais para agradecer pelos momentos vividos, prometendo que o amigo estará para sempre em seu coração. "Obrigada por tanto, Rodi. Como uma lembrança feliz, eu te amo tanto".
Fé
Na tarde de ontem, o silêncio e a espiritualidade marcaram uma vigília na Capela Santa Paulina, no Guará 2. O encontro foi organizado por Ana Helene Lima Rodrigues, amiga da irmã de Rodrigo, que inicialmente planejava o ato como um pedido por um milagre. Com a confirmação do falecimento, a reunião tornou-se um ponto de amparo à família Castanheira.
"A dor hoje é por saber quem ele era para a Isabela. Ele era irmão, era filho, era nosso amigo. E passou por uma situação que ninguém imagina passar", afirmou Ana Helene, ressaltando que o grupo segue unido em oração para que Deus dê força aos familiares.
O choque e a incredulidade ainda predominam entre aqueles que acompanharam os 16 dias de internação do jovem na UTI. Ana Helene relatou que a violência que vitimou o amigo permanece inexplicável para todos. "O Rodrigo era uma pessoa de paz, com muitos amigos. Como alguém assim passa por uma situação dessas? Até agora não dá para acreditar". Até o fechamento desta edição, não havia informações sobre o horário do velório e enterro de Rodrigo Castanheiras.
Cronologia dos fatos
- 23 de janeiro (madrugada): Rodrigo é brutalmente agredido por Pedro Turra na saída de uma festa em Vicente Pires. Testemunhas filmam o espancamento, e o adolescente é socorrido em estado gravíssimo com traumatismo craniano severo.
- 23 de janeiro de 2026 (manhã): Pedro Turra é preso em flagrante pela Polícia Civil. No entanto, após o pagamento da fiança de R$ 24,3 mil, o agressor é colocado em liberdade.
- 24 de janeiro a 6 de fevereiro de 2026: Rodrigo permanece internado na UTI do Hospital Brasília, em Águas Claras. Durante os 16 dias de internação, familiares e amigos organizam vigílias, correntes de oração e campanhas de doação de sangue.
- 29 de janeiro de 2026: diante da gravidade do estado de saúde da vítima e do risco à ordem pública, a Justiça acolhe o pedido do Ministério Público e decreta a prisão preventiva de Pedro Turra. Ele é preso na casa da mãe e encaminhado à carceragem do DPE.
- Início de fevereiro de 2026: a defesa de Pedro Turra entra com pedidos de habeas corpus no TJDFT e no STJ, alegando primariedade e residência fixa. Ambos os pedidos são negados. No sistema prisional, Turra é transferido para uma cela individual após alegações de risco à sua integridade física.
- 7 de fevereiro de 2026 (manhã): é confirmada a morte cerebral de Rodrigo Castanheira. A notícia mobiliza a sociedade do DF e as autoridades iniciam o processo de revisão da tipificação do crime, que deve passar de lesão corporal gravíssima para homicídio.
(Colaborou Paulo Gontijo)
Saiba Mais
Mariana Reginato
Repórter da Editoria de CulturaEstudante de Jornalismo na Universidade de Brasília.

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF