As chuvas intensas de janeiro e fevereiro mudaram o ritmo no campo e trouxeram impactos diretos à produção de hortaliças no Distrito Federal. O volume elevado de precipitações ao longo desse período provocou encharcamento do solo, dificultou o manejo das lavouras e aumentou as perdas na colheita, afetando desde pequenos produtores até grandes áreas de cultivo. Impactos que foram percebidos por Luma Cenci, estudante de agronomia que notou a redução na variedade de hortaliças, a oscilação na qualidade e o aumento de preços de alguns produtos. "Nessa época do ano, eu deixo de comprar alguns alimentos que geralmente consumo. O preço fica alto e a qualidade não é a melhor", avalia.
Com o solo saturado, atividades básicas da produção agrícola tornam-se mais complexas. O preparo da terra, a aplicação de insumos e a colheita passam a depender de breves períodos de estiagem. Em muitos casos, máquinas e veículos não conseguem acessar as áreas plantadas, o que provoca atrasos e amplia o risco de deterioração dos alimentos ainda no campo.
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Além das dificuldades operacionais, o excesso de umidade favorece o surgimento de pragas e doenças. Folhas manchadas, raízes comprometidas e frutos danificados são descartados, reduzindo o volume de alimentos que chegam aos pontos de venda. Essa junção de fatores altera os custos de produção e interfere diretamente ao consumidor.
O presidente da Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa-DF), Bruno Sena, explica onde o impacto das chuvas é mais severo. "O solo muito encharcado prejudica o trato e dificulta a colheita de hortaliças, raízes, tubérculos e bulbos. As folhosas sofrem ainda mais, com redução da produção e maior incidência de produtos manchados, que não chegam ao mercado por terem baixa aceitabilidade."
Nesse cenário, produtos como alface, rúcula, couve e cheiro-verde apresentam queda na produtividade e tendem a registrar aumento de preços. Batata, cebola e cenoura também entram em tendência de alta. Em sentido contrário, algumas frutas, como manga, mamão e banana, podem ter redução de preços, porque o calor acelera a maturação e antecipa a colheita, aumentando a oferta.
Prejuízos
No campo, os efeitos das precipitações deixam de ser apenas um acontecimento climático e passam a representar prejuízos financeiros. A vice-presidente da Associação dos Produtores Rurais do Distrito Federal, Neidy Xavier, acompanha de perto as consequências do período chuvoso. "Só em janeiro perdi aproximadamente cinco mil quilos em um único plantio de tomates. Isso representa um prejuízo de cerca de R$ 100 mil", lamenta.
Mesmo com planejamento, Neidy destaca que nem sempre é possível evitar as perdas. A estratégia de manter diferentes ciclos ajuda a reduzir riscos, mas não impede danos causados por chuva excessiva. "A gente já trabalha sabendo que esta época do ano traz perdas, mas quando a chuva vem forte demais, não tem manejo que segure. A produção diminui, o custo aumenta e o alimento fica mais escasso", detalha.
A produtora de Brazlândia assinala que o impacto não se restringe a uma única cultura. Além do tomate, outras hortaliças — como alface, brócolis, couve-flor e pimentão — também padecem com o excesso de umidade. "É uma perda generalizada. As hortaliças, em geral, sofrem com esse tipo de clima", resume.
Consumidor
Nos pontos de venda, os reflexos começam a ser sentidos pelo consumidor, que encontra preços mais altos e menor variedade de itens. A disponibilidade irregular e a menor durabilidade das hortaliças influenciam as escolhas. "Eu sempre espero essas chuvas do começo do ano passarem para que eu volte a comprar alguns alimentos que fazem parte da minha rotina", conta Luma.
Segundo o presidente da Ceasa-DF, embora os fatores climáticos pressionem os preços, a redução da demanda durante as férias escolares ajuda a conter aumentos mais expressivos no varejo. Mesmo assim, ele ressalta que o cenário exige atenção constante. "Os fatores climáticos afetam diretamente os preços, e o equilíbrio depende tanto da oferta quanto do comportamento do consumo", observa.
A expectativa do setor é de que, com a regularização do regime de chuvas, a produção volte a se estabilizar gradualmente nas próximas semanas. Até lá, produtores seguem lidando com os desafios impostos pelo clima, enquanto consumidores acompanham as oscilações de preços e a disponibilidade de alimentos nas feiras e nos mercados do DF.
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