
Cultivar uma horta em casa ou no apartamento tem se consolidado como uma solução prática para quem busca mais saúde no dia a dia, sem complicação. Ter temperos, ervas e hortaliças frescas ao alcance das mãos garante alimentos livres de agrotóxicos, mais nutritivos e colhidos no ponto certo de consumo — um cuidado que começa no plantio e chega direto ao prato, impactando positivamente a alimentação e o bem-estar.
Mais do que tendência, a horta doméstica reflete um novo olhar sobre consumo, sustentabilidade e qualidade de vida. Com poucos metros quadrados, criatividade e informação, é possível transformar varandas, cozinhas e áreas de serviço em pequenos espaços produtivos, adaptados à luz, ao clima e ao ritmo de cada morador.
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Além dos benefícios nutricionais, a horta doméstica também se destaca pela facilidade de adaptação à rotina urbana. Mesmo em espaços reduzidos, o resultado aparece no bolso e no aproveitamento do espaço: menos desperdício, economia nas compras e a prova de que produzir em casa é simples, acessível e possível mesmo em poucos metros quadrados.
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Espaço e circulação
Para muitos, o impedimento principal é o espaço, ou no caso, a falta dele. Seja qual for o formato, uma horta vai exigir uma determinada área, e dependendo do local, pode até prejudicar a circulação do lar. Contudo, a designer de interiores Aline Silva explica que, quando bem utilizado, o ambiente se torna um detalhe mínimo, mesmo em apartamentos pequenos.
Ela conta que o segredo é integrar a horta ao projeto, aproveitando espaços verticais, como paredes, laterais de armários, prateleiras rasas e áreas próximas às janelas, usando também vasos suspensos ou modulares. "Quando a horta é pensada como parte do design e não como um elemento improvisado, deixa de ocupar espaço e passa a qualificar o ambiente", diz.
A designer recomenda os painéis com vasos encaixados, prateleiras rasas perto da janela e suportes modulares, que são"escadinhas". Os vasos suspensos são uma boa solução para quem prefere manter o chão livre e a horta vira parte da decoração.
Para quem mora de aluguel e não pode furar as paredes, também existem soluções, como é o caso de estantes mais leves, hortas portáteis, encaixes em janelas e até ganchos adesivos. O mais importante é pensar em algo fácil de montar e de remover depois, sem deixar marcas.
A cozinha costuma ser o local mais desejado para a horta, pela praticidade no uso diário, mas exige alguns cuidados. Segundo a designer de interiores Rebeca Abner, o calor do fogão e a gordura liberada durante o preparo dos alimentos podem prejudicar as plantas. "O ideal é manter a horta perto de uma janela bem iluminada e, sempre que possível, a pelo menos um metro e meio do fogão", orienta.
Manutenção e limpeza
Para que a horta funcione de verdade dentro de casa, não basta plantar: é preciso que a manutenção seja simples e compatível com a rotina. Rebeca reforça que a organização dos vasos faz toda a diferença tanto na limpeza quanto no cuidado com as plantas.
"A melhor solução é tirar os vasos do fluxo direto do piso", explica. Prateleiras, estantes e mesas de apoio ajudam a manter tudo acessível para regar e podar, além de facilitarem a limpeza do chão. Quando os vasos precisam ficar no piso, suportes com rodinhas resolvem dois problemas de uma vez: permitem movimentar as plantas conforme a luz do dia e facilitam a faxina do ambiente.
Outro ponto de atenção é a sujeira causada pela terra e pelo excesso de água. Para evitar respingos, a designer recomenda cobrir a superfície do vaso com materiais como casca de pinus, argila expandida ou pedriscos. Além de funcionais, esses acabamentos deixam a horta visualmente mais organizada. No fundo do vaso, o uso de manta de drenagem ajuda a filtrar a água, evitando aquele escorrimento barrento que costuma manchar pisos e móveis. Para quem busca praticidade máxima, os vasos autoirrigáveis surgem como aliados. "Eles reduzem a bagunça, dispensam o pratinho e ajudam a manter a umidade mais equilibrada", diz Rebeca.
Luz, água e escolhas certas
Se o espaço deixa de ser um problema quando bem planejado, outros fatores passam a ser decisivos para o sucesso da horta doméstica. Segundo o engenheiro-agrônomo Rogério Viana, gerente do programa de Agricultura Urbana da Emater-DF, um dos erros mais comuns de quem começa é subestimar as necessidades básicas das plantas, principalmente em relação ao tamanho do vaso e à incidência de luz.
"O volume de solo é fundamental. Quanto menor o vaso, mais difícil é o cultivo e maior a chance de erros, principalmente na irrigação. Em recipientes pequenos, é comum errar tanto pelo excesso quanto pela falta de água", diz. A luz também costuma ser mal calculada. Hortaliças e ervas cultivadas atualmente foram selecionadas para alta produtividade e precisam, no mínimo, de cinco horas de sol direto por dia.
"Muita gente acha que a luz indireta é suficiente, mas, na prática, isso torna o cultivo mais lento e menos produtivo", afirma Viana. Ele alerta, ainda, para a combinação perigosa entre sol intenso, falta de água e vento excessivo, que pode triplicar o consumo hídrico das plantas.
Quando o apartamento não oferece essa condição ideal, a iluminação artificial surge como aliada. Lâmpadas de LED específicas para as plantas funcionam como complemento ao sol natural e ajudam a manter a horta viável mesmo em janelas de face sul ou ambientes mais fechados.
Terra e drenagem
Outro ponto-chave para quem cultiva em vasos é o preparo correto do substrato. Não se trata apenas de "encher o vaso de terra", mas de criar um ambiente equilibrado para as raízes. As orientações técnicas da Emater-DF indicam misturas simples, feitas com terra, composto orgânico e húmus de minhoca, capazes de sustentar todo o ciclo da planta sem necessidade de adubações frequentes.
A drenagem também merece atenção especial. Uma camada de material drenante — como argila expandida ou brita — separada da terra por manta, capim seco ou folhas picadas evita o encharcamento e protege as raízes. "O objetivo é manter o solo sempre úmido, mas nunca encharcado", resume Viana.
Quando essa base é bem feita, o cultivo se torna mais simples e previsível, inclusive para quem não quer usar fertilizantes químicos. Em vasos, a adubação inicial bem planejada costuma ser suficiente até o fim do ciclo da planta. Quando há perda de vigor, a recomendação é trocar o substrato, que ainda pode ser reaproveitado em jardins.
Mesmo em ambientes internos, pragas como pulgões podem aparecer. Sempre que possível, a orientação é apostar na remoção manual. Em casos mais difíceis, soluções caseiras, como a calda de fumo, podem ser usadas com cautela. "Ela é eficiente, mas elimina todos os insetos, inclusive os benéficos. Por isso, deve ser o último recurso", alerta o agrônomo.
Saber o momento da colheita também faz diferença para manter a produção ativa. Em hortaliças folhosas e ervas, a colheita frequente estimula novos brotos. Mais do que regras rígidas, entram em cena a observação e o gosto pessoal — colher no ponto certo é parte do aprendizado.
Para quem está começando, espécies de ciclo curto são as mais indicadas. Folhosas como alface, rúcula e ervas aromáticas costumam ser mais tolerantes a erros. Já o tomate, apesar de popular, está entre os cultivos mais exigentes e menos recomendados para iniciantes.
Estagiária sob a supervisão de Eduardo Fernandes*

Revista do Correio
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