Levando mais do que ritmo e animação para uma das regiões com maior concentração de pessoas em situação de rua em Brasília, o Setor Comercial Sul (SCS), o Bloco Boca de Rango, criado por pessoas em situação de vulnerabilidade social junto a voluntários, ocupou o espaço, nesta terça-feira (17/2), com uma mensagem clara estampada nos abadás: “O povo tem fome”.
Em seu segundo ano de desfile, fundado em janeiro de 2025, a iniciativa reúne cerca de 40 pessoas, incluindo dois cachorros caramelos, e integra a programação do Setor Carnavalesco Sul. A proposta vai além da festa, pois é um movimento de ressocialização, visibilidade e reivindicação por direitos básicos.
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O presidente do Bloco Boca de Rango, Paulo Henrique Silva, explica que a ideia surgiu da necessidade de romper a invisibilidade social que marca a vida de quem está nas ruas.
“Esse bloco foi criado com a intenção de trazer visibilidade para as pessoas em situação de rua, mas também trazer cultura e mostrar que eles também podem ser agregados na folia, voltando para a sociedade. Essa população é muito excluída, muito invisibilizada. O sentido disso é trazer felicidade e força de vontade para se levantarem”, afirmou.
Veja um pouco do protesto do bloco:
Tambor como linguagem
Para o mestre de bateria Marcos Valente, a música é instrumento de transformação. Ele vê no carnaval uma oportunidade de reconstrução de vínculos com a sociedade.
“Esse resgate na rua é importante. Essa é uma forma de agregar as pessoas, trazendo cultura e socialização. A rua também tem direito de brincar. Na maior festa popular brasileira e democrática, é onde todo mundo parece igual. Eu acredito que o tambor fortalece esse laço, visibilizando aqueles que não são enxergados no dia a dia. A população de rua também tem o direito de lazer”, destacou.
Espaço político
A coordenadora do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, Joana Basílio, reforça que a festa popular também é campo de disputa por direitos.
“Carnaval é um espaço de inclusão social e participação. É um momento de liberdade para que as pessoas em situação de rua possam festejar. O que acontece muito nessa época do ano são pessoas em situação de rua sendo agredidas. Precisamos criar espaços onde a população de rua possa interagir com esse momento do Carnaval, de festividade”, pontuou.
A deputada federal Erika Kokay (PT) também esteve presente e declarou apoio ao projeto. “É muito bom termos um movimento vigoroso que luta pelo direito de moradia, por políticas públicas, dignidade e respeito. Este movimento também se inclui no Carnaval, para mostrar que precisamos de políticas públicas e que a alegria é um direito de todas as pessoas”.
Encerrando a programação do Setor Carnavalesco Sul, o coordenador Rafael Reis avalia que a presença do bloco é um passo importante para mudar o olhar da cidade sobre o SCS.
“Espero que possamos ressignificar o olhar da cidade sobre esse território que é muito estigmatizado”, observou.
“Estamos fechando o nosso último dia de carnaval com esse bloco, com pessoas que estão aqui no dia a dia, que sabem dos desafios e que são fruto da desigualdade. O intuito é fortalecer a nossa capacidade coletiva de pensar soluções para tirar essas pessoas dessa situação”, completou.
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