Depois de 36 anos funcionando em espaços cedidos, o Centro de Cultura e Educação Popular (Cepafre) conquista, pela primeira vez, uma sede própria. O imóvel, localizado no Setor O em Ceilândia, onde funcionava a antiga 16º Zona Eleitoral, será apresentado a comunidade neste sábado (21/2), às 14h. A cessão de uso foi garantida pela Superintendência do Patrimônio da União (SPU) por 10 anos, renováveis por mais uma década.
A nova fase é celebrada como uma vitória coletiva por quem construiu a trajetória da entidade ao longo de mais de três décadas. Fundado em 1989, o Cepafre é uma organização da sociedade civil ligada ao movimento popular e já alfabetizou mais de 16 mil jovens, adultos e idosos, principalmente em Ceilândia e no Sol Nascente. A maioria dos atendidos são mulheres que, por diferentes razões, não tiveram acesso à alfabetização na infância.
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“É um sentimento de grande conquista. Agora temos uma casa para chamar de nossa”, afirma o presidente da entidade, Pedro Lacerda, em entrevista ao Correio. Segundo ele, a sede representa não apenas um endereço fixo, mas a possibilidade de ampliar projetos e fortalecer a identidade da associação como referência em educação popular.
Mesmo com o novo local, o funcionamento das turmas continuará descentralizado. Em março, a entidade pretende iniciar oito novas turmas de alfabetização espalhadas por Ceilândia e pelo Sol Nascente. Apenas uma delas deve funcionar no novo prédio.
“O Cepafre vai aonde os alfabetizandos estão. Muitos não conseguem se deslocar à noite. Então, se é no trecho 1 ou no trecho 3 do Sol Nascente, é lá que a gente estará”, explica Pedro. As aulas acontecem em escolas, igrejas e associações comunitárias.
Além da alfabetização, o trabalho inclui inclusão digital e produção audiovisual. Em 2025, as turmas aprenderam a usar celulares e tablets, além de aulas de fotografia e filmagem. “A alfabetização hoje também passa pela linguagem do cinema, pela tecnologia”, destaca o presidente.
Recentemente, a entidade atualizou o estatuto e incluiu oficialmente as palavras “cultura” e “educação popular” no nome, mantendo a mesma sigla. A mudança reforça uma prática que já existia desde a fundação. As salas de aula, por exemplo, são chamadas de “círculos de cultura”, em referência ao educador Paulo Freire, cuja metodologia inspira o trabalho da instituição. A proposta é que o novo prédio se torne também um espaço de memória e difusão do pensamento freiriano em Ceilândia.
“A gente quer que aqui seja a casa do Paulo Freire na cidade. Um lugar que irradie cultura e educação”, diz. A organização guarda, inclusive, moldes das mãos do educador, que visitou Ceilândia em vida.
A busca por uma sede própria se intensificou nos últimos anos. Em 2024, representantes da diretoria iniciaram tratativas com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) para conseguir um imóvel da União na região. Após reuniões e negativas iniciais, surgiu a oportunidade de ocupar o prédio do antigo cartório eleitoral no Setor O.
Sede própria
No último dia de 2025, foi assinado o contrato de cessão gratuita do espaço, com cerca de 370 metros quadrados. Desde então, voluntários e apoiadores trabalham para estruturar o local. Móveis e cadeiras foram doados por parceiros, como a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que contribuiu com o mobiliário do mini auditório já montado no prédio. O projeto de arquitetura de interiores também foi elaborado gratuitamente por arquitetos da Universidade de Brasília (UnB).
Desde 1989, a universidade, abriga o Cepafre no polo de extensão da Ceilândia e é responsável pela formação dos educadores populares por meio de projetos de extensão. Mesmo com a nova sede, as reuniões de formação devem continuar ocorrendo no espaço.
A apresentação da sede, neste sábado, reunirá fundadores, alfabetizadores, movimentos populares, representantes culturais e autoridades locais. A entidade também organiza um “Chá de Casa Nova” para arrecadar doações que ajudem a equipar o prédio. Entre os planos para os próximos meses estão a criação de um cursinho pré-vestibular popular, a realização de oficinas culturais e a ampliação das ações de inclusão digital.
“Conquistar a sede abre novas possibilidades, mas também traz desafios. É um prédio grande, que precisa de estrutura. Vamos enfrentar isso juntos, como sempre fizemos”, afirma Pedro.
