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Entenda o aumento de preço dos pescados nesta época do ano

Comerciantes e especialistas dizem que a tendência é de aumento no consumo e nos preços dos produtos durante a Quaresma. Apesar de se surpreenderem com os valores no balcão, os consumidores do DF não dispensam a dieta especial

Nos próximos 37 dias, o consumo de quase metade dos brasilienses tende a mudar, aquecendo o mercado de pescados e proteínas alternativas. Com 49,74% da população se identificando como católica, conforme dados do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), o período da Quaresma é marcado pela procura por peixes como tilápia, salmão e o tradicional bacalhau. A tendência, segundo comerciantes e especialistas, é de aumento no consumo e nos preços. Apesar dos olhares de surpresa diante dos valores expostos no balcão, os consumidores não dispensam a dieta especial para o período. 

Na Peixaria Ueda, na Feira do Guará, as vendas costumam ter aumento de 60% durante a Quaresma e a Semana Santa, em comparação ao restante do ano. Segundo Leandro Braga, gerente da unidade há sete anos, os peixes mais procurados são o robalo, a pescada amarela, o salmão, a tilápia e o tradicional bacalhau, além de kits para paella, como camarão e lula, e polvos. Destes, a opção mais em conta é o filé de tilápia, cuja produção ocorre majoritariamente no DF. O mais caro é o bacalhau, importado da Noruega e de Portugal. A previsão é que, até a Sexta-feira Santa, em abril, os preços tenham alta de 10% a 15%.

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Também neste mês, o gerente realizou a contratação temporária de 15 funcionários, devido à alta demanda de clientes. A movimentação diária, que, normalmente, atrai cerca de mil pessoas, chega a duplicar na quarta e quinta-feira santas. "Nesses dias, abrimos a loja às 4h devido ao movimento. A Feira inteira fica bastante lotada, sendo difícil até se locomover", disse Leandro. 

Em frente ao balcão, o aposentado Miguel Maluf, 75 anos, observava com espanto os valores dos pescados. "Caríssimo", ressaltou, acrescentando que os preços estão altos em todos os lugares, inclusive, nos mercados. "Vivencio a Quaresma todos os anos, evitando comer carne vermelha. Mas tento variar nas opções, incluindo carnes brancas e ovos. Hoje, vou comprar tambaqui. Bacalhau, eu gosto muito, porém, só compro cerca de 300g e na Semana Santa, porque é um valor absurdo", lamentou o morador de Águas Claras. No supermercado Veneza, no Cruzeiro, o quilo de bacalhau está o dobro do valor da tilápia. "E vai aumentar", ressaltou um vendedor. 

O aumento dos preços, inclusive da tilápia, se deve à alta dos insumos, como ração, transporte e logística. "A nossa expectativa é que, nesse período da Quaresma, haja um incremento de venda de pescados, entre 18% e 25%, em supermercados. No caso do bacalhau, a previsão é de um aumento de até 60% nos preços. Para não repassarmos essa conta de maneira abrupta aos consumidores, vamos tentar negociar esse fardo entre importadores e comerciantes", afirma Givanildo de Aguiar, porta-voz da Associação de Supermercados de Brasília (Asbra).

Variação

O preço nas alturas do bacalhau tende a mudar conforme a variação do dólar, visto que é um pescado importado. O consumo, no entanto, segue constante, esteja o preço mais salgado ou não. Isso se deve, conforme ressaltou o economista Newton Marques, à valorização do real em relação ao dólar ocorrida recentemente, bem como o tarifaço dos Estados Unidos, que pode ter influenciado o maior consumo de bacalhau, camarão e peixes mais caros pelas classes A e B.

"Classes de renda mais alta são pouco sensíveis à variação de preços. Também há o fato de o DF ser a unidade da federação com a maior renda per capita do país. Classes mais baixas, no entanto, tendem a substituir essas proteínas por produtos mais baratos, como frango e ovos", detalhou o especialista em educação financeira, sistema financeiro e economia brasileira. 

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A moradora da Asa Norte Vânia Vieira, 76, mantém a tradição de frequentar a peixaria para garantir o cardápio da Quaresma, embora admita que os preços estão "mais altos do que no ano passado". Focada em restrições de carne vermelha especificamente às sextas-feiras, ela prioriza peixes, como o dourado, pelo sabor e pela segurança das netas, visto que o corte não tem espinhos pequenos e, por isso, não apresenta risco.

Quanto ao prato principal da Semana Santa, a aposentada revelou incerteza devido ao alto custo. "Eu já estive olhando o preço do bacalhau. Está tão caro. Mas não quero deixar passar em branco. É uma tradição". Apesar de ter visto o produto por valores que chegam a R$ 229, a consumidora afirma que ainda monitora possíveis promoções e não abre mão da qualidade, ressaltando que sai de seu bairro para comprar em locais de confiança.

Produção local

Para Leandro Braga, gerente da Ueda, os brasilienses têm incluído, cada vez mais, os peixes em sua dieta, mesmo fora das tradições religiosas. "Como a população tem se adaptado a esse consumo, observamos também um aumento de produtores locais. Sempre priorizamos comprar deles, porque conhecemos os procedimentos e termos de fiscalização, além de conseguirmos ter produtos mais frescos e com melhor qualidade", explicou o comerciante. No período de Quaresma, a compra dos pescados chega a 20 toneladas a mais do que no restante do ano. 

No DF, a produção de tilápia é protagonista, representando mais de 90% do volume local, seguida por peixes redondos (tambaqui e pacu) e grandes bagres (pintado). "A maior parte é voltada para venda direta para restaurantes, supermercados, feiras livres e peixarias. A produção no DF tem crescido bastante. Para se ter uma ideia, saímos de 2.163 toneladas em 2024 para 2.637 toneladas em 2025, aumento de 22%. Essa alta está bem acima da observada em outras cadeias produtivas daqui", garantiu Adalmyr Borges, extensionista rural, médico-veterinário e responsável pelo Programa de Aquicultura da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF).  

Segundo o especialista, o período entre o carnaval e a Semana Santa concentra 40% de toda a comercialização anual de peixadas do quadradinho. "O DF é o terceiro maior mercado consumidor de pescado do Brasil, o que impulsiona o planejamento dos produtores locais para que o ciclo de engorda de seis a oito meses culmine na Quaresma. Mesmo assim, o mercado ainda recorre a estados vizinhos, como Minas Gerais e Goiás, para suprir a demanda", completa Borges. 

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Dicas para os consumidores

» Peso do peixe fresco: ao comprar peixes em feiras ou mercados, certifique-se de estar presente na hora da pesagem e da embalagem do produto.

» Conservação: em supermercados, os peixes frescos devem ser armazenados em balcões refrigerados. Nas feiras, é essencial estarem cobertos com gelo picado, expostos em balcões inclinados de aço inoxidável e protegidos da luz solar e insetos. Os feirantes devem utilizar luvas descartáveis.

» Produtos congelados: é importante que o balcão com peixes não fique excessivamente cheio para não impedir a circulação do ar frio, comprometendo a qualidade do produto. Os itens devem estar armazenados a temperaturas inferiores a - 18 ºC, e abaixo de 0 ºC para os resfriados.

» Cuidado com o gelo: se você prefere que o peixe seja embalado com gelo para manter sua qualidade durante o transporte, esteja atento para garantir que o vendedor não pese o gelo junto com o peixe.

» Bacalhau: verifique a procedência do bacalhau. Uma pesquisa de preços e variedades de qualidade pode levar a uma melhor escolha. Se possível, não adquira o bacalhau se ele apresentar manchas avermelhadas ou pintas pretas no dorso, porque isso pode indicar presença de mofo ou deterioração.

» Compre em locais de procedência e desconfie de preços muito abaixo do mercado.

» O Procon orienta os consumidores que identificarem problemas e infrações a realizar denúncia pelo telefone 151 ou e-mail151@procon.df.gov.br. 

Fonte: Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon-DF)