LUTO

Morre o professor e economista Mário Lisboa Theodoro, aos 68 anos

Acadêmico lutava contra a síndrome de Sézary, um tipo raro e agressivo de linfoma que atinge células do sistema imunológico

O professor, economista e servidor público aposentado Mário Lisboa Theodoro, 68 anos, morreu nesta quinta-feira (26/2). Theodoro tratava um linfoma cutâneo, tipo de câncer de pele, que havia atingido o sangue. A informação foi confirmada pelo Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania da Universidade de Brasília (PPGDH/UnB) através das redes sociais.

Em nota de pesar, a UnB destacou as marcas duradouras deixadas pelo acadêmico nos debates sobre desenvolvimento, racismo e direitos humanos, que reafirmam a centralidade da questão racial na compreensão da formação social e econômica brasileira.

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"Economista de reconhecida trajetória e referência nacional no debate sobre desigualdades, o professor Mário Lisboa Theodoro contribuiu de forma decisiva para o pensamento social brasileiro e para a formulação de políticas públicas comprometidas com a justiça social. Sua atuação foi fundamental no enfrentamento das desigualdades estruturais do país, especialmente no que se refere à questão racial, ao mundo do trabalho e à construção democrática", escreveu. 

Trajetória

Ainda jovem, ao ingressar no curso de economia da Universidade de Brasília (UnB), em 1976, Mário Theodoro se deparou com uma realidade de ser um dos poucos estudantes negros na sala de aula. Formado pela própria UnB, ele seguiu os estudos com mestrado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutorado na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, na França. 

Desde o início da carreira acadêmica, dedicou-se a investigar o mercado de trabalho, com foco especial na informalidade e nas condições de trabalhadores autônomos. O principal ponto de pesquisa das suas obras era sobre a desigualdade econômica no Brasil, que não pode ser compreendida sem considerar o fator racial.

Ao aprofundar os estudos, Theodoro passou a questionar a forma como a economia brasileira tradicionalmente tratava, ou deixava de tratar, a questão racial. Para ele, a precarização do trabalho e os piores indicadores de renda atingiam majoritariamente a população negra. Além disso, defendia que a ausência de vozes negras nos espaços de formulação teórica e política contribuía para a naturalização dessas desigualdades.

Em 2023, lançou pela editora Zahar o livro A Sociedade Desigual: Racismo e Branquitude na Formação do Brasil. Na obra, analisou como o racismo e estrutura de classes se entrelaçam na formação histórica do país, influenciando áreas como educação, saúde, mercado de trabalho, moradia e sistema de Justiça.

Theodoro também atuou na formulação de políticas públicas. Em 2003, participou da criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mais tarde, ocupou cargos no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e atuou como consultor legislativo do Senado Federal. Retornou ao Ipea como diretor e, posteriormente, assumiu a secretaria-executiva da Seppir.

Entre os marcos do período está a consolidação das políticas de cotas raciais nas universidades públicas, que se tornaram obrigatórias em 2012, após aprovação da Lei de Cotas pelo Congresso Nacional.

Nos últimos anos, enfrentava a síndrome de Sézary, um tipo raro e agressivo de linfoma que atinge células do sistema imunológico.

A pesquisadora, professora e doutora pela PPGDH/UnB, Maíra de Deus Brito, que era amiga de Theodoro, ressaltou ao Correio que ele não só era um profissional incrível, mas também uma pessoa fantástica. "O mundo acadêmico pode reservar algumas armadilhas como a vaidade, mas ele foi justamente o oposto: sempre gentil, sempre cuidadoso. Se hoje eu sou uma boa professora foi porque eu aprendi com ele a ser atenta e ouvinte."

"Mário Theodoro deixa saudade e um legado importantíssimo: a incansável luta contra o racismo e pela busca da equidade", disse. 

https://www.correiobraziliense.com.br/webstories/2025/04/7121170-canal-do-correio-braziliense-no-whatsapp.html 

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