"Eu era tão pequenininha (...). Hoje, ninguém passa em cima da minha feminilidade, dos meus direitos", a frase é da professora Priscylla Adriana Silva. O relato marca a transformação pessoal após um período de dois anos e quatro meses de violência doméstica. Segundo ela, o processo de reconstrução começou a partir do acolhimento recebido em equipamentos públicos voltados à proteção da mulher no Distrito Federal.
Priscylla contou ter vivenciado as diferentes formas de violência previstas na Lei Maria da Penha — física, psicológica e patrimonial. De acordo com ela, o comportamento do agressor evoluiu de controle financeiro e desqualificações verbais para agressões físicas e restrições mais amplas à sua autonomia. "O controle começa de maneira sutil. Ele dizia que era mais inteligente com dinheiro, que eu não sabia administrar. Aos poucos, a gente vai acreditando", lembrou.
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A professora relatou que teve a vida financeira comprometida pelo então companheiro, situação que a levou a dificuldades materiais severas. Em um dos momentos mais críticos, passou dias sem ter o que comer e enfrentado intenso sofrimento emocional.
O ponto de virada, segundo ela, foi quando teve acesso a informações sobre o Comitê de Proteção à Mulher de Águas Claras, instalado na Biblioteca Pública da região administrativa. "Eu tinha dinheiro apenas para chegar até lá. Quando fui atendida, recebi acolhimento e orientação", afirmou.
Hoje, Priscylla conta sua experiência em palestras e conversas com outras mulheres, defendendo a importância de buscar ajuda aos primeiros sinais de violência. Ela afirma que o acompanhamento psicológico e jurídico foi fundamental para a reconstrução da autoestima e reorganização da vida pessoal e financeira. "Hoje, eu sou dona da minha vida", resumiu.
Portas abertas
Os Comitês de Proteção à Mulher foram instituídos pela Lei nº 7.266/2023 no Distrito Federal, com a proposta de funcionar como espaços de "portas abertas", oferecendo escuta qualificada, encaminhamento para serviços públicos e acompanhamento dos casos.
Segundo a coordenação do comitê de Águas Claras, as unidades têm o objetivo de evitar a revitimização — situação na qual a mulher, ao buscar ajuda, é exposta a novos constrangimentos ou a descrédito institucional. Além de receber denúncias, os comitês acompanham o cumprimento de medidas protetivas e articulam atendimento com órgãos de segurança e assistência social.
Atualmente, o Distrito Federal conta com unidades em funcionamento em regiões como Itapoã, Ceilândia, Lago Norte, Estrutural, Sobradinho, Santa Maria e Águas Claras. "As mulheres podem chegar tanto por demanda espontânea quanto por meio de encaminhamentos, que geralmente vêm da rede da saúde e dos Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social)", explicou Andreia de Queiroz, coordenadora da unidade de Águas Claras.
