Fotografia

Fotógrafo ensina a fazer registros de ritos afro-brasileiros com celulares

Curso ministrado por Luan Brasil no Instituto Ojuinã ensina técnicas de fotografia com celular e incentiva a preservação da memória cultural dos terreiros

O fotógrafo Luan Brasil capta pelas lentes do celular a essência dos ritos dos terreiros de religiões de matriz africana -  (crédito:  Luan Brasil )
O fotógrafo Luan Brasil capta pelas lentes do celular a essência dos ritos dos terreiros de religiões de matriz africana - (crédito: Luan Brasil )

Neste fim de semana e no próximo, o Ilê Asé Ojuinã Sorokê Efon — Instituto Ojuinã, localizado no Jardim Botânico, promove a oficina "Olhares Ancestrais: Fotografia de Candomblé e Ritos Afro-brasileiros com Celular", ministrada pelo fotógrafo, artista visual e pesquisador Luan Brasil.

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Com uma trajetória marcada pela sensibilidade estética e pelo diálogo com a ancestralidade, Luan atua profissionalmente na indústria fotográfica desde 2014. Seu trabalho busca construir narrativas visuais que abordam temas como diversidade, pertencimento e identidade, explorando a fotografia como instrumento de expressão cultural e de memória coletiva.

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Formado em fotografia pela Universidade do Distrito Federal, Luan atualmente cursa mestrado em artes na Universidade de São Paulo, onde pesquisa a fotografia como forma de registro e documentação de práticas culturais ligadas ao candomblé. Além da formação acadêmica, ele também integra o Axé Ojuinã, onde exerce o cargo de Babá Ebé, função ritual considerada a segunda na hierarquia do terreiro.

Segundo o fotógrafo, a proposta da oficina surgiu de uma demanda da própria comunidade religiosa. "O convite surgiu porque estou inserido no contexto do candomblé, mas também tenho formação em fotografia. Então consigo olhar para esses ritos não apenas pela perspectiva religiosa, mas também cultural", explica.

A oficina foi estruturada para ensinar técnicas de fotografia utilizando o celular como principal ferramenta de registro. Além de apresentar noções de enquadramento, composição e iluminação, a proposta do curso é estimular os participantes a desenvolverem um olhar sensível sobre os rituais e manifestações culturais afro-brasileiras.

"Muitas vezes, quem vai fotografar um rito não tem o conhecimento necessário para entender a moldura simbólica daquele momento. Ou seja, não compreende exatamente o que está acontecendo ou qual é o significado daquilo", explica Luan.

  • Uma das fotos favoritas de Luan mostra três pessoas reverenciando a terra em sinal de respeito e devoção
    Uma das fotos favoritas de Luan mostra três pessoas reverenciando a terra em sinal de respeito e devoção Luan Brasil
  • O fotógrafo Luan Brasil capta pelas lentes do celular a essência dos ritos dos terreiros de religiões de matriz africana
    O fotógrafo Luan Brasil capta pelas lentes do celular a essência dos ritos dos terreiros de religiões de matriz africana Luan Brasil
  •  Oficina Olhares Ancestrais: Fotografia de Candomblé e Ritos Afro-brasileiros com celular
    Oficina Olhares Ancestrais: Fotografia de Candomblé e Ritos Afro-brasileiros com celular" Luan Brasil

O fotógrafo conta que uma de suas fotos favoritas foi, inclusive, feita com celular e registrada logo após um ritual interno no terreiro. "O rito já havia sido encerrado e algumas pessoas realizavam uma atividade posterior, chamada de 'dar comida à terra'", conta. "Na imagem, três pessoas aparecem reverenciando o chão em sinal de respeito e devoção", completa.

"Foi algo muito rápido: tirei o telefone do bolso e, em poucos segundos, fiz o registro", afirma Luan Brasil. "Gosto muito dessa imagem porque ela mostra o dinamismo do olhar fotográfico. A fotografia de rito muitas vezes exige essa agilidade."

Para ele, a fotografia de ritos afro-brasileiros é um mercado que precisa de profissionais especializados. "Existe uma sensibilidade específica para lidar com esse tipo de contexto, entender como abordar os sacerdotes, como se posicionar durante o ritual e como fazer esse registro com respeito", afirma. 

Luan também destaca que incentivar pessoas que participam desses contextos religiosos ou culturais a registrarem suas próprias vivências pode contribuir para a preservação da memória dessas tradições. "A fotografia pode ser uma forma de registrar uma historicidade. É uma maneira de documentar a experiência a partir do olhar de quem está inserido naquele contexto", afirma.

Territórios afrocandangos

A oficina integra o projeto Territórios Afrocandangos, que tem como proposta levar formação, qualificação profissional e valorização cultural para territórios de matriz africana no Distrito Federal. A iniciativa promove cursos, oficinas e rodas de conversa voltados tanto ao fortalecimento da cultura afro-brasileira quanto à geração de oportunidades de renda nas comunidades. Ao todo, 22 territórios de matriz africana do DF são contemplados pela iniciativa, entre eles o Instituto Ojuinã, identificado como território 18, onde será realizada a atividade. 

"A proposta é levar cursos, qualificação, qualidade de vida e valorização cultural para todos os territórios de matriz africana do Distrito Federal", explica Veber de Sorokê, presidente do Instituto e líder do centro Ilê Asé Ojuinã Sorokê Efon.

Entre as ações promovidas pelo projeto estão palestras, rodas de conversa e oficinas práticas voltadas à capacitação e ao fortalecimento cultural. No território 18, além da oficina de fotografia, já foram realizadas oficinas de tranças nagô e de ecoprint, técnica de tingimento natural de tecidos. A programação prevê ainda a realização de uma oficina de macramê com palha da costa.

"A ideia é trabalhar conhecimentos dentro de ofícios que as pessoas possam exercer tanto para geração de renda quanto para ampliar o conhecimento", afirma Veber de Sorokê. A oficina de fotografia, por exemplo, foi pensada como uma forma de unir capacitação profissional e valorização cultural. A proposta é ensinar técnicas de fotografia acessíveis, utilizando apenas o celular.

Além do aprendizado técnico, o objetivo também é incentivar o registro de manifestações culturais e do cotidiano das comunidades. "Isso contribui para que a nossa cultura seja registrada de forma mais qualificada e também abre um mercado de trabalho real, que precisa de profissionais preparados para esse tipo de registro", afirma.

 


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postado em 07/03/2026 07:09
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