Doação de órgãos

Do luto à esperança com um novo coração, Fabíola inspira doadores

Entre o luto pela perda do filho e a urgência de um novo coração, Fabíola superou um infarto na gestação e uma grave infecção para renascer em pleno carnaval

Fabíola Pessoa fez transplante de coração há um mês e hoje celebra a recuperação -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Fabíola Pessoa fez transplante de coração há um mês e hoje celebra a recuperação - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

"Sou uma mulher de muita fé. Sem isso, eu não sobreviveria". As palavras são de Fabíola Pessoa, 41 anos, que enfrentou a perda de seu bebê e seguidos problemas de saúde até passar por um transplante de coração, símbolo — literal — do seu renascimento. Hoje, ela conta sua história de superação nas redes sociais e inspira outras famílias a dizerem "sim" à doação de órgãos. 

Os desafios começaram em meio ao caos da pandemia de covid-19, no final de 2020. Grávida de sete meses de Leo, a analista administrativa seguia à risca todas as recomendações do pré-natal. Estava saudável. Até que uma indisposição ao acordar a levou à Maternidade Brasília, em 28 de fevereiro do ano seguinte.

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"Passei pela triagem sem problemas, mas, quando fui levantar da maca, tive um infarto e caí subitamente. Foram 40 minutos de reanimação e uma cesárea de emergência. Quando acordei, dias depois, passei a mão pela barriga e meu filho já não estava ali. Ele não resistiu", recorda.

A notícia a fez querer "jogar tudo para o alto", mas a filha, à época com 4 anos, e a família foram sua motivação. "A partir do amor deles, tirei forças para sobreviver e lidar com o luto. Vivenciar tudo isso sozinha seria impossível", completa. 

Fabíola com o marido, André, e a filha, Hannah, no dia em que recebeu alta do hospital
Fabíola com o marido, André, e a filha, Hannah, no dia em que recebeu alta do hospital (foto: Arquivo pessoal)

Entre o medo e a fé

Encaminhada ao Hospital Brasília, da Rede Américas, Fabíola passou por diferentes procedimentos, incluindo uma histerectomia total, e idas e vindas à Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ficou 30 dias internada. "Eu, que nunca havia passado uma noite sequer longe da minha filha, fiquei um mês sem poder vê-la", diz. Sobre as causas da parada cardíaca, a analista comenta que, ainda hoje, não há um laudo conclusivo.

"Cogitaram a possibilidade de o bebê, por estar muito grande, ter pressionado os demais órgãos. Esses casos são bem raros, 1 em 1 milhão. Diante de tantas dificuldades, minha família foi a maior rede de apoio. Meu marido, por exemplo, vivenciou tudo isso, ainda que 'por fora'. Foi ele quem enterrou nosso bebê e segurou as pontas", recorda. 

Devido às intercorrências, desenvolveu insuficiência cardíaca avançada e, por meio do acompanhamento constante do cardiologista Vitor Barzilai, soube da possibilidade, em último caso, de precisar de um transplante. Segundo o médico, a rapidez e a integração das equipes foram decisivas para salvar a vida da paciente.

"O coração dela não conseguia mais bombear sangue adequadamente. Utilizamos um suporte avançado que assumiu temporariamente essa função para manter os órgãos funcionando. Mas o que realmente fez diferença foi a atuação coordenada e no tempo certo", explica.

A insuficiência cardíaca foi manejada com tratamento convencional por cerca de quatro anos, inicialmente com boa tolerância. Em 2025, porém, Fabíola apresentou uma descompensação grave, motivada por uma infecção após a picada de uma aranha-marrom, venenosa, na panturrilha esquerda.

A infecção exigiu uma raspagem cirúrgica e sobrecarregou o organismo já fragilizado, levando-a de volta à UTI e tornando o transplante a única saída viável. "Quando o médico disse que era hora de entrar na fila, foi um divisor de águas. Passei a viver esperando essa ligação, entre o medo e a fé", relembra a analista, que, em janeiro de 2025, enfrentava limitações severas, como o cansaço extremo ao escovar os dentes ou tomar banho.

A viabilização do novo coração exigiu uma engenharia de precisão, cruzando fronteiras estaduais. Segundo Fernando Atik, cirurgião cardiovascular do Hospital Brasília, o sucesso do procedimento dependeu de uma sincronia absoluta, visto que o tempo no qual o órgão pode ficar fora do corpo é curtíssimo.

"O apoio logístico de transporte, a organização da retirada e o acondicionamento são fundamentais. Esse é um momento único, de emoção indescritível, e o motivo pelo qual escolhi a medicina", afirma o cirurgião, ressaltando que o tratamento só é possível graças à autorização familiar para a doação.

  • Fabíola Pessoa fez transplante de coração há um mês, e hoje celebra a recuperação
    Fabíola Pessoa fez transplante de coração há um mês, e hoje celebra a recuperação Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Fabíola Pessoa fez transplante de coração há um mês e hoje celebra a recuperação
    Fabíola Pessoa fez transplante de coração há um mês e hoje celebra a recuperação Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • "Árvore da vida" no Hospital Brasília, onde os pacientes transplantados deixam as digitais para marcar o início do novo ciclo Arquivo pessoal

Batuques do coração

O transplante ocorreu em plena sexta-feira 13 de carnaval, trazendo um ritmo novo para a vida de Fabíola. A cirurgia foi um sucesso, e a recuperação surpreendeu a equipe médica. Afinal, a paciente foi extubada no mesmo dia e, na manhã seguinte, caminhava pelos corredores do hospital. O despertar, porém, trouxe uma sensação inédita.

"Eu acordei sentindo uma bateria totalmente diferente no peito. Parecia um batuque de tambores, algo que queria saltar para fora. Lembro de perguntar para a médica se era normal bater tão forte, e ela sorriu dizendo que era exatamente assim que deveria ser", conta, emocionada.

Um dos momentos mais marcantes do pós-operatório foi o reencontro com a filha, Hannah. O gesto, antes de cuidado, tornou-se celebração. "Ela sempre teve o hábito de encostar a cabeça no meu peito para ouvir meu coração. Depois do transplante, quando fez isso pela primeira vez, o som ouvido era de vida plena, de um recomeço que ela também esperava", recorda.

Para Fabíola, a presença constante e o acolhimento do cardiologista Vitor Barzilai foram essenciais nesse processo. "Ele foi um anjo que me deu toda a assistência, sempre jogando limpo, mas com um cuidado que acalmava a mim e à minha família", completa.

Um mês após o transplante, Fabíola vive um período de adaptações, com restrições alimentares e cuidados com a imunidade, mas encara cada limitação com gratidão profunda. A saudade do "filhote de quatro patas" e a distância temporária de algumas atividades sociais são pequenos preços diante da fortaleza que é sobreviver.

O apelo final de Fabíola é para que a morte deixe de ser um tabu e que as famílias conversem abertamente sobre o desejo de ser doador. "Minha história é a prova viva de que um gesto de generosidade pode mudar destinos e transformar luto em esperança", diz. Com o vigor de quem carrega um novo motor no peito, ela não aceita mais fronteiras para os sonhos. "Hoje nada me impede. O céu é o limite."

 

Como ser um doador

Segundo o Ministério da Saúde, para ser doador de órgãos no Brasil, basta comunicar a decisão à família, visto que apenas os familiares podem autorizar a doação em caso de morte encefálica. Para uma formalização da intenção ou para aqueles que ainda em vida decidem doar, é possível registrar uma manifestação eletrônica por meio site www.aedo.org.br ou do aplicativo AEDO, que permite a seleção dos órgãos desejados. Além da formalização do desejo de doar, é necessário que doadores vivos tenham mais de 18 anos, gozem de boa saúde e passem por uma avaliação médica para verificar a compatibilidade e garantir que a doação não prejudicará seu organismo. A Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO) soma mais de 458 solicitações emitidas no DF, fortalecendo a política pública de transplantes no Brasil.

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postado em 15/03/2026 06:07
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