
Ceilândia, apesar da importância e grandeza, carrega um estigma de marginalidade que influencia no modo como o Distrito Federal vê a cidade. Reconhecendo que a região é um berço onde diversos talentos podem estar escondidos, o projeto Jovem de Expressão ocupa a Praça do Cidadão há 19 anos, resgatando e dando visibilidade à juventude local.
Participando do projeto de forma voluntária, a psicóloga Yasmin Moreira, 28 anos, atua como psicóloga voluntária há quatro anos. Apesar de ser de Vicente Pires, ela afirma que Ceilândia virou a primeira casa devido ao tempo que passa no projeto. "Tudo que eu faço e muitas coisas que eu aprecio vêm daqui, desse espaço mais que cultural. Então, para mim, é um mito que Ceilândia é uma cidade dormitório", afirma.
Para a psicóloga, a atuação do projeto é importante para ressignificar os estereótipos que a quebrada carrega. "Tentamos dar todas as possibilidades, entendendo que o jovem que mora aqui não tem muitas perspectivas. Muitos direitos são negados, então trabalhamos para que essas pessoas consigam esses direitos de volta", explica.
O projeto oferece diversas atividades, gratuitas, para os jovens. Yasmin destaca que são ofertados cursos de pré-vestibular e oficinas que englobam a cultura da cidade, como dança, cinema e audiovisual. "Não temos tantos equipamentos públicos culturais na cidade, mas toda vez que oferecemos essas oportunidades, atraímos muitas pessoas que têm interesse", diz. Segundo a psicóloga, a iniciativa de pré-vestibular, por exemplo, aprovou mais de 200 jovens em diversas universidades públicas do país.
Uma das oficinas oferece aulas de fotografia. Nessas oportunidades, os participantes encontram a junção da teoria com a prática. Kauê Martins dos Santos, 17, conta que a família sempre esteve envolvida no meio artístico e cultural. Com um pai iluminador de teatro, um irmão fotógrafo e a mãe artesã, o morador do P Sul reafirma o interesse pelas câmeras. "Aqui, eu consigo ter acesso a informação e a equipamentos que seriam muito difíceis de conseguir por conta própria", diz. Segundo o jovem, o projeto representa uma chance única para muitas pessoas que, assim como ele, sonham com um futuro brilhante. "Fico muito feliz de ter essa oportunidade. Sou privilegiado por fazer parte do projeto, é uma felicidade enorme", acrescenta.
Orgulhoso, ele destaca: "Ceilândia é o meu lugar". Kauê afirma que, por crescer na cidade, enxerga que há um senso de comunidade, diferente das outras regiões. "Aqui, tem esse sentimento de lar. A comunidade é unidade, tem um sentimento diferente de fazer parte, de pertencer", observa.
As oficinas também servem como uma reconexão com a cidade. Akyra Iwamura, 18 anos, conta que antes do projeto, não frequentava a praça e não vivia Ceilândia direito. "Mesmo morando aqui perto, não vivenciava as experiências que a cidade oferecia. Isso mudou quando vi uma publicação do projeto nas redes sociais", relata. O que mais motivou Akyra a participar do projeto foi preencher lacunas. "Eu sempre quis fazer cinema, entretanto, era inacessível esse curso para mim. Então, como o projeto oferece oficinas de cinema, eu comecei a participar do projeto", acrescenta.
O Jovem de Expressão representa um espaço seguro para o público-alvo. Akyra comenta que encontrou outras pessoas parecidas na questão da vivência de periferia e na visão de mundo. "São pessoas que veem o quanto Brasília é uma capital desigual. Isso nos uniu", diz. O projeto também oferece um espaço para a ocupação jovem. "Temos que ocupar os espaços que são de direito. O projeto transformou essa praça em uma coisa nova, revitalizou todo o espaço e isso é importante para a comunidade", pontua.
Apesar do nome, pessoas de todas as idades são bem-vindas. Luciano Sousa, 54, conhece o projeto há tempos. Apaixonado por Ceilândia, ele vê a promoção cultural como primordial para os jovens da cidade. "É muito enriquecedor. A arte é o caminho", afirma.
O projeto também o ajuda a espairecer a mente. "Ao invés de eu estar pensando besteira, venho para cá e faço um curso, aprendo alguma coisa. Assim como ocupa a minha mente, o projeto também faz isso para os jovens", acrescenta. Nascido e criado na cidade, Sousa não esconde o amor que tem por Ceilândia. "Sou suspeito para falar, mas crescer aqui foi incrível", declara.
Para comemorar o aniversário da cidade, a tradicional galeria Risofloras inaugurou a exposição 'Terra dos Incansáveis' na segunda-feira passada. As obras, concebidas por artistas locais, mostram a história e a força do povo ceilandense por meio de fotografias que poderão ser acessadas pelo público.
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