
Karl Max Enock Ramos Silva, 55 anos, encontrou em Ceilândia uma oportunidade de renascimento. O chef de cozinha esteve à frente de restaurantes renomados e, atualmente, tem uma tenda de comida na Praça da Bíblia, no P Norte.
Antes das panelas, Max era professor de matemática em Ceilândia, aos 24 anos. Um tio o convidou para entregar currículo em um restaurante francês chamado Maison de France, do chef Dominique Gerard. Max revela que, no início, não queria ir, mas esse poderia ter se tornado o maior arrependimento. "Quando cheguei ao restaurante e vi a cozinha, apaixonei-me", conta.
A primeira função no restaurante foi lavar o chão. Apesar da função simples, ele conta que sempre foi proativo e procurou aprender muita coisa sozinho. "Eu prestava atenção no que os outros cozinheiros faziam e anotava em um bloco de notas", diz. A iniciativa foi notada pelos colegas que, quando Gerard não estava no restaurante, colocavam Max para cozinhar e aprender na prática.
Após a passagem no Maison de France, Max foi trabalhar no restaurante do Hotel Nacional. Lá, ficou durante 10 anos, chegando a servir o presidente Lula e celebridades como Malu Mader, Francisco Cuoco e outros artistas. A carreira teve um destaque ainda maior, sendo convidado a chefiar a cozinha do La Fontaine, no Carlton Hotel. "Eu fiquei nesse restaurante durante seis anos, quando uma crise nos atingiu e eu acabei sendo demitido", relembra.
Incentivo
Sem emprego e com contas a pagar, tentou se reerguer com o próprio negócio. Em meados de 2015, veio o ultimato da esposa. "Ela olhou no fundo dos meus olhos e disse: 'Eu me casei com um homem, não com um rato. Vende um desses carros e vamos vender comida na rua'", conta Max. Após o incentivo, o chef decidiu ocupar parte da Praça da Bíblia, na frente de casa, para vender o cardápio autoral.
"Eu comecei com macarrão. Flambava os pratos e o fogo chamava a atenção das pessoas que passavam pelo local", conta. Logo, a tenda do chef Karl Max começou a fazer sucesso por ter um menu 5 estrelas a um preço acessível e com a mesma qualidade dos pratos servidos em restaurantes finos.
Além do "renascimento" para o próprio chef, o empreendimento ajudou a repaginar o local. Max conta que quando começou a cozinhar na rua, a praça era má frequentada. "Tinha muita coisa errada aqui na praça. Ao longo do tempo, outras pessoas também começaram a colocar empreendimentos, isso revitalizou o local", diz.
O atual patamar da carreira do chef o emociona muito. "Eu fico com os olhos cheios de lágrimas com a forma que esse lugar tomou", comenta. Ceilândia, de um modo geral, representa tudo na vida do chef. "Eu amo essa cidade. Ela deu tudo para mim. Criei minha família aqui e não penso em sair nunca", acrescenta.
Além de cozinheiro, Karl Max se tornou um líder comunitário da região. Atualmente, luta por uma revitalização completa do local. "A minha ideia é fazer da praça uma vila gastronômica. Arborizar todo esse espaço e tornar ainda mais atrativo e seguro para as famílias", projeta.
Cultura e aceitação populares
Ceilândia, durante os anos de construção de Brasília, foi criada para receber as ocupações feitas pelos construtores que saíam do estado natal para erguer a capital. Por causa desse movimento, a cidade recebeu muita influência nordestina. Rony Andrade, 41 anos, utilizou dessa herança para entrar no ramo gastronômico.
Criado em 2023, o Dog do Cangaceiro é uma explosão de cultura e sabores. O conceito do cardápio, fortemente inspirado na cultura nordestina, surgiu pelas características da própria cidade. "Aqui moram muitos nordestinos, quisemos unir o útil ao agradável. Deu muito certo", conta.
Rony afirma que Ceilândia permitiu que ele vivesse o sonho. "Para mim, essa cidade é a melhor para se viver no DF. Aqui, além da casa do Dog do Cangaceiro, também é a minha casa e da minha família", complementa.
O processo para a criação da marca requereu muito estudo. "Levamos dois meses para fazer as receitas definitivas. Usamos referências do Ceará, Pernambuco e outros estados para conseguir o sabor mais parecido", explica. O sucesso foi certeiro: Andrade conta que a aceitação popular foi muito boa. "As pessoas gostaram muito dessa novidade. Teve um cachorro-quente que lançamos que ficou entre os mais vendidos do delivery", acrescenta.
Para ele, a cidade representa mais do que trabalho. "Eu moro aqui com minha esposa e nossos três filhos. É uma cidade maravilhosa", afirma. "Tentei morar em Samambaia, mas a Ceilândia me chamou de novo. Aqui é incrível", finaliza.
Saiba Mais

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF