
Nem sempre o acesso à comunicação, à convivência e a espaços culturais acontece de forma natural para quem está no espectro do autismo. No Brasil, cerca de 2 milhões de pessoas vivem essa realidade, muitas ainda fora de ambientes que estimulem o desenvolvimento social e emocional. No Distrito Federal, o cenário inclui filas por diagnóstico e acesso limitado a terapias, o que torna iniciativas de inclusão ainda mais necessárias.
É nesse contexto que o Instituto Autismos consolidou, ao longo de mais de uma década, um trabalho que une terapia, arte e protagonismo. Criado em 2015 pela musicoterapeuta Ana Carolina Steinkopf, o projeto atendeu mais de 5 mil participantes e suas famílias. "O nosso programa leva acessibilidade para pessoas que muitas vezes não têm acesso a diferentes formas de desenvolvimento", afirma a idealizadora. Segundo ela, os encontros acontecem semanalmente, em grupos reduzidos, ao longo de um processo que pode durar até 10 meses.
O resultado desse trabalho ganha visibilidade no musical Uma sinfonia diferente, que volta a ser apresentado no Centro Cultural Banco do Brasil, Brasília. A montagem reúne cerca de 200 participantes em cena — número que cresceu nos últimos anos. "Na edição passada, eram cerca de 80. Hoje, conseguimos chegar a 200, entre crianças, adolescentes e adultos", destaca Ana.
Além do espetáculo, a proposta está no processo. Ao longo dos encontros, são trabalhadas comunicação, linguagem e interação social. Dados do projeto indicam que mais de 25 mil pessoas já assistiram às apresentações, e uma pesquisa nacional aponta que 65% dos participantes desenvolveram linguagem verbal.
É nesse percurso que histórias como a de Henrique começam a mudar. Aos 4 anos, ele ainda falava poucas palavras e tinha dificuldade de se comunicar. Foi após episódios na escola que a mãe, a confeiteira Keila Ramos, 40, buscou ajuda especializada e recebeu o diagnóstico. "A neurologista olhou para mim e disse: 'Agora seu filho vai precisar que você lute por ele'. E foi isso que eu fiz", conta.
A busca por terapias levou Keila até o projeto. "A Carol foi a primeira pessoa, além de mim, que acreditou no potencial do Henrique", afirma. No início, a adaptação não foi simples. "Ele não parava quieto, era muito agitado. Muitas vezes, eu pensei: o que estou fazendo aqui?", relembra. Ainda assim, decidiu continuar.
Meses depois, veio o convite para o espetáculo. A insegurança voltou. "Eu fiquei preocupada, porque ele não prestava atenção nos ensaios", diz. A resposta veio no palco. "Naquela noite, meu filho mostrou que, mesmo sendo diferente, ele conseguia. Ele cantou todas as músicas, fez as coreografias… e eu só sabia chorar", conta a mãe. Ao final da apresentação, Henrique pediu o microfone e disse: "Obrigado, pessoal".
Hoje, aos 8 anos, ele se comunica com mais facilidade e mantém o vínculo com o projeto. "Ele reclama se não vai. Está muito feliz", completa. Para Carol, esse tipo de transformação resume o propósito do trabalho. "Eles entendem que ali é o espaço deles. A apresentação inteira é pensada para que sejam vistos", afirma. Ao final de cada espetáculo, a sensação é recorrente: "É possível. Com estudo e oportunidade, é possível".
A estrutura do musical acompanha essa proposta. Dividido em três blocos, o espetáculo reúne gradualmente os participantes até o momento final, quando todos ocupam o palco. Em alguns trechos, monitores e familiares oferecem suporte, sem retirar o protagonismo.
A edição deste ano conta, ainda, com a participação do compositor Hélio Ziskind, que esteve no projeto em 2024 e retorna com canções que fazem parte da memória afetiva de muitas famílias.
Experiência ampliada
Além do musical, a programação inclui a oficina Batucadeiros de Música Corporal, realizada também no CCBB Brasília. A atividade propõe o uso do corpo como instrumento musical, por meio de jogos e experiências coletivas.
Criada pelos educadores Patty Amorim e Ricardo Amorim, a prática surgiu de forma improvisada e se consolidou como metodologia. "A musicalidade faz parte da existência humana. A música é uma relação com o outro", afirma Ricardo. A oficina reúne crianças com e sem diagnóstico no mesmo espaço, sem divisão por perfis. "Todos ali são seres de possibilidade. A gente respeita o tempo de cada um", completa. Uma das músicas trabalhadas será incorporada ao espetáculo, aproximando público e apresentação.
Serviço
Musical
Uma sinfonia diferente
Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (SCES, Trecho 2 - Brasília/DF)
Dias: 4, 5, 11 e 12 de abril
Hora: 16h
Classificação: livre
Ingressos: retirados online no site do CCBB ou presencial na bilheteria do local.
Oficina Batucadeiros de Música Corporal - Corpo, música e encontro
Dias: 4, 5, 11 e 12 de abril
Hora: 14h30
Participação gratuita
Classificação: livre
Ingressos: serão disponibilizados no site um dia antes de cada oficina e presencialmente na bilheteria do local.
*Estagiária sob a supervisão de Patrick Selvatti
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