Por Manuela Sá* — O Podcast do Correio recebeu Lúcia Mendes, presidente da Associação Preserva Serrinha. Em bate-papo com os jornalistas Roberto Fonseca e Rafaela Gonçalves, a ativista destacou a importância da Serrinha do Paranoá para o abastecimento hídrico do Distrito Federal. A área é um dos nove terrenos públicos destinados a compensar prejuízos relacionados ao Banco de Brasília (BRB), como estabelecido pelo Projeto de Lei (PL) aprovado pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) na terça-feira.
Lúcia conta que os moradores foram pegos de surpresa com a inclusão da área, que não estava na primeira lista. Somente na terça-feira, quando liberaram um mapa, foi que a ativista teve a confirmação de que parte da Serrinha está entre esses nove terrenos. Ela lembrou que a região sempre passou por dificuldades para ter sua importância ambiental reconhecida.
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Até 2015, a Serrinha era tratada como área de expansão urbana, como era previsto pelo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) de 2009. "Quando você fala que é expansão urbana nessa região, que está muito perto do Plano Piloto, a especulação imobiliária se assanha, todo mundo quer botar algum empreendimento ali. É uma área bem localizada", explicou.
Nascentes vitais
À época, só havia duas nascentes registradas oficialmente no local. No entanto, a comunidade da Serrinha se mobilizou para fazer novo mapeamento, que registrou 97 nascentes. Recentemente, foi feito outro estudo que identificou 119. Assim, foi comprovada a importância da região para o equilíbrio hídrico do DF.
Em 2019, foi promulgada a Lei do Zoneamento Ecológico Econômico, que mapeou todo o território do DF e identificou, na região da Serrinha, quatro grandes riscos: de contaminação, de perda de Cerrado nativo, de erosão e, principalmente, de perda na recarga de aquíferos. Diante desse alerta, Lúcia enfatizou a necessidade da preservação.
"As árvores têm um papel importante no sistema ecológico da cidade, porque elas têm raízes muito profundas. A água toda da chuva desse período infiltra onde tem Cerrado. Onde ela infiltra, vai acumulando água lá embaixo e forma os aquíferos, que vão dar origem aos lençóis freados, onde brotam as nascentes que viram os córregos, responsáveis por abastecer o Lago Paranoá", detalhou. "Quando, em 2017, nós tivemos aquele crise de abastecimento em Brasília, foi na boca do Núcleo Rural do Palha que eles puseram uma estação de captação da Caesb, que era para ser emergencial. Ela se tornou permanente e já foi duplicada", contou Lúcia.
Quando descobriu que a Serrinha foi incluída na lista, o grupo da região fez um manifesto e um abaixo-assinado para chamar a atenção dos deputados. O objetivo era pedir que o PL não fosse votado na correria. "Essa lista precisa ser revista. O patrimônio de Brasília é patrimônio da população", disse Lúcia.
Preservação
Lúcia demonstrou preocupação com os efeitos de tratar a Serrinha com displicência. "Se você sai tratando esse território como um que você pode fazer e desfazer como você bem quiser, e não considerar sua importância hídrica, você coloca em risco não apenas os moradores, mas também o abastecimento hídrico da cidade", alertou.
Ela também discutiu os efeitos da aprovação desse PL. "Estão projetando uma venda para projetos imobiliários urbanos. Se for isso, nós estamos realmente condenando aquela região a morrer, matar todos os córregos, porque as nascentes vão secar", falou.
Desde a aprovação do Projeto de Lei (PL), Lúcia avalia que a principal mudança foi a indignação da população. "A gente está muito mais bravo. Semana passada, estávamos buscando os deputados, tentando dialogar. Alguns nos ouviram, e outros ouviram a Terracap, que falou que na Serrinha não mora ninguém", disse. "Essa área que vocês estão falando que não tem nada, tem Cerrado", completou.
De acordo com Lúcia, o melhor destino para a região seria transformá-la em uma Área de Preservação Permanente para garantir que a vegetação seja mantida. "Essas árvores que estão lá garantem a produção de água", afirmou.
A ativista convidou todos para uma roda de conversa neste domingo, no Espaço Comunitário do Urubu. Ela também lembrou que há um abaixo-assinado disponível no Instagram do Fórum de Defesa das Águas do Preserva Serrinha, que, segundo Lúcia, já coletou três mil assinaturas.
* Estagiária sob supervisão de Patrick Selvatti
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