Internada no Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), a jovem de 23 anos que foi dopada e estuprada por um advogado em Águas Claras relatou o crime em um vídeo compartilhado nas redes sociais. Natural do Amazonas, ela é estudante de Direito e veio ao Distrito Federal para estudar e trabalhar. Por meio de amigos, soube da oferta de emprego do suspeito, 53, cuja proposta tinha como foco pessoas interessadas nas áreas de estética e acessórios.
Em um áudio compartilhado pela jovem durante o depoimento, o homem descreve a oferta. "Em Águas Claras, eu tenho lojas na beira da pista. E a 'mulherada' daqui consome grana 'para caramba', entendeu? É muita informação, não dá para ficar falando por áudio. Como você está de tempo hoje? Você tem tempo para a gente sentar e jantar? Pelo menos para bater um papo?", diz o suspeito.
Em seu relato, a estudante detalha como foi o encontro, no qual o homem se apresentava como policial, vestia uma camisa camuflada e tinha no braço uma tatuagem com a frase 'anjo da morte'. "Na entrevista, ele falou sobre o emprego e, em certo momento, eu comecei a ficar meio 'grogue'. Foi quando ele se ofereceu para me levar em casa, mas neguei e disse que poderia pedir um carro de aplicativo. Ele insistiu e me fez entrar no veículo. Lá, encontrei uma arma, algemas e várias fardas", descreve.
O suspeito levou a jovem até seu apartamento e deu a ela outra bebida. Nesse momento, ela apagou. "Quando acordei, estava deitada na cama dele, coberta apenas por um lençol. Ele estava deitado ao lado, apenas de cueca. Vesti a roupa, disse que ia ao banheiro e corri dali, cambaleando", completa. Em um carro de aplicativo, ela relatou ao motorista o ocorrido, que a levou para a delegacia. Posteriormente, a vítima passou pelo exame de corpo de delito e foi encaminhada ao Hmib.
De acordo com o depoimento do motorista de aplicativo, "ela entrou no veículo em estado de desorientação, não sabendo sequer em qual dia e horário estava. Esta testemunha a conduziu direto à delegacia de polícia, onde foi feito o registro do fato", afirma a delegada da 21ª DP, Elizabeth Frade. Imagens internas do prédio onde o crime ocorreu também mostram a vítima entrando no elevador cambaleando.
Prisão
Diante do registro da ocorrência, a 21ª DP representou ao plantão judiciário, que deferiu a prisão temporária e mandado de busca e apreensão na residência do suspeito, na manhã deste sábado (14/3). Ao ser surpreendido pela polícia, o autor se preparava para fugir com a ajuda de um sargento da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), que foi autuado em flagrante pelo crime de favorecimento pessoal.
"No local, foram apreendidos celulares, além de diversos medicamentos que possivelmente foram utilizados para dopar a vítima. Ele foi preso por estupro de vulnerável. A ação contou com atuação da Seção de Atendimento à Mulher da 21ª DP (SAM), com apoio da Seção de Investigação de Crimes Violentos (SICVIO) e da Seção de Repressão às Drogas (SRD)", completa a delegada.
O homem foi identificado como advogado, com registro ativo na Ordem dos Advogados do Brasil, na seccional do Distrito Federal (OAB-DF), e possui mais de 10 passagens por outros crimes, incluindo ameaça e extorsão.
Segundo registros policiais, o suspeito tem 13 passagens pelos crimes de ameaça, injúria, falsificação de documentos, extorsão e duas por parte ilegal de arma de fogo. O homem também é investigado em mais de um processo por violência doméstica e lesão corporal. Em outra denúncia, que corre em segredo de justiça, ele é acusado de uso ilegítimo de uniforme ou distintivo.
Durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão, os policiais encontraram, no carro do advogado, uniformes do Batalhão de Policiamento de Choque da Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO), além de medicamentos possivelmente usados para dopar a vítima e um soco inglês.
Em 2019, o homem foi preso por se passar por um delegado da Polícia Federal em Brasília. Segundo reportagens da época, ele extorquia dinheiro de um ex-detento, afirmando que o alvo da extorsão estava sendo investigado por tráfico e que iria concluir o inquérito contra ele. À época, foram encontradas fardas militares e duas armas de pressão na casa do advogado. No celular, ele usava como fundo de tela o símbolo da PF.
O Correio questionou a OAB-DF e a PMGO sobre quais medidas serão tomadas a respeito do registro do suspeito na Ordem e do uso indevido do uniforme da corporação, respectivamente, mas ainda não obteve retorno. Em nota, a PMDF afirmou que tomou conhecimento da ocorrência e adotará as providências administrativas cabíveis. "A Corporação pauta sua atuação pelos princípios da legalidade, disciplina e responsabilidade funcional, tratando eventuais situações dessa natureza por meio dos procedimentos institucionais previstos, com a devida apuração e respeito às garantias legais." completaram.
Onde pedir ajuda
» Ligue 190: Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). Serviço disponível 24h por dia, todos os dias. Ligação gratuita.
» Ligue 197: Polícia Civil do DF (PCDF). E-mail: denuncia197@pcdf.df.gov.br. WhatsApp: (61) 98626-1197. Site: www.pcdf.df.gov.br/servicos/197/violencia-contra-mulher.
» Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, canal da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres. A denúncia pode ser feita de forma anônima, 24h por dia, todos os dias. Ligação gratuita.
» Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (Deam): funcionamento 24 horas por dia, todos os dias.
Deam 1: previne, reprime e investiga os crimes praticados contra a mulher em todo o DF, à exceção de Ceilândia. Endereço: EQS 204/205, Asa Sul. Telefones: 3207-6172 / 3207-6195 / 98362-5673. E-mail: deam_sa@pcdf.df.gov.br.
Deam 2: previne, reprime e investiga crimes contra a mulher praticados em Ceilândia. Endereço: St. M QNM 2, Ceilândia. Telefones: 3207-7391 /3207-7408 / 3207-7438.
