Arte

Obra de Athos Bulcão ganha vida em escola francesa

Reprodução foi autorizada pela Fundação Athos Bulcão. Versão original, de 1979, não agradou ao artista e, por isso, não havia saído do papel, até essa quinta-feira (19/3)

Heitor Kawano, estudante da Lycée Français François Mitterrand de Brasília, tem apenas 12 anos e já sabe da importância de Athos Bulcão para a formação de Brasília. "O Athos foi muito importante. É uma forma de dar mais valor ao estilo brasileiro de arte aqui na escola. Conecta as duas culturas", disse ele, sobre a inauguração, nessa quinta-feira (19/3), de mais uma obra do artista, no espaço escolar.

No processo de reprodução, a arte causou surpresa e curiosidade genuína nos estudantes. Isso porque muitos deles não sabiam que, há 46 anos, o pintor e escultor brasileiro criou uma obra em tons de azul, branco e vermelho, pensada especialmente para a inauguração da escola - em 1973.

Apesar de ter sido pensada para celebrar a instituição, a homenagem nunca encontrou seu lugar de destino. Agora, em março de 2026, uma reprodução inédita da obra ganhou vida em 20 m² de parede na unidade de ensino francesa - atualmente localizada no Lago Sul. Quando criada, a obra em sua versão original não agradou o artista, que escolheu reproduzi-la em tons de ocre, na Escola Britânica de Brasília. Entretanto, a versão original sempre esteve guardada no acervo da Fundação Athos Bulcão, que deu permissão para a reprodução de agora.

Segundo Valéria Cabral, secretária-executiva da instituição, tudo começou quando a filha de Athos viu a obra na fundação e sugeriu que ela ganhasse forma na escola francesa - onde havia estudado no passado. "Ele concebeu a arte original pensando na escola. Por isso, nada mais justo que ela fosse reproduzida, pela primeira vez, na unidade atual da instituição", diz Valéria.

A partir disso, a Embaixada da França no Brasil, com o patrocínio das empresas Vicat (França) e Ciplan (Brasil), decidiram encabeçar o projeto.

Evento

A inauguração da obra ocorreu nessa quinta-feira (19/3) e contou com a presença de estudantes, professores e demais profissionais da escola, lado a lado com o embaixador da França, Emmanuel Lenain, e com o presidente Global da Vicat, Guy Sidos.

Lenain afirma que o mural transmite uma mensagem de continuidade, profundidade histórica e renovação da relação franco-brasileira. "Trata-se de uma obra concebida há mais de 40 anos, no contexto do diálogo entre Athos Bulcão e Oscar Niemeyer, que ganha, hoje, uma nova vida no Lycée Français — um espaço emblemático dessa relação", comemora o embaixador francês.

Curiosidade

Na escola, a reprodução da obra foi tema de um projeto em sala de aula, antes do dia oficial da inauguração. A estudante Luiza Lima Rodrigues, 12 anos, destacou a relação entre o painel e o aprendizado na instituição, já que a obra foi incorporada a um projeto apresentado em francês pelos alunos. "Foi um trabalho fazendo parte da arte daqui de Brasília", explicou. Luiza também demonstrou familiaridade com a obra de Athos Bulcão na cidade, destacando a presença dos azulejos no cotidiano: "Você passa em vários lugares e vê. Eu acho muito bonito".

Luiza apresentou o trabalho com outros dois colegas de sala. Para ela, a instalação na escola reforça a valorização cultural: "É uma obra importante de Brasília representada na minha escola. Também é uma forma de representar a arte brasileira". A estudante ainda ressaltou o impacto no dia a dia, apontando o potencial de reflexão. "Quando a gente olha, pode pensar que é uma obra de grande importância, que faz parte da cultura e da história de Brasília".

Heitor Kawano contou que a primeira reação ao ver o painel foi de surpresa, já que ele acreditava já conhecer a obra de outro espaço. "Eu já tinha visto esse painel antes e fiquei surpreso de ver ele aqui", disse. Ao longo da explicação, ele percebeu as diferenças e o contexto da instalação atual, destacando o caráter único do trabalho de Athos Bulcão: "Eu não acho que nenhuma obra dele é igual à outra, mesmo se tem os mesmos azulejos".

Heitor também ressaltou a importância do artista para a capital e a forma como sua arte se constrói a partir de elementos simples: "Eu acho legal que ele faz uma arte bonita sem precisar de muito detalhe". Para ele, a presença do painel na escola tem um papel simbólico, ao aproximar referências culturais.

O estudante Antônio Ribeiro, 12 anos, também destacou a simplicidade como uma das marcas do trabalho de Athos Bulcão. "Ele gosta de usar formas simples para criar desenhos bonitos, tipo esse aqui", afirmou. Sobre o primeiro contato com o painel, contou que, no início, não entendeu bem a proposta, mas que a explicação em sala ajudou a dar novo significado à obra: "Quando ele foi instalado, eu não entendi por que ele tava aí, mas depois de hoje eu entendi".

Antônio também disse que já tinha visto azulejos do artista antes, sem saber a autoria, e avaliou o painel como "bem bonito", destacando que a experiência de conhecê-lo melhor contribuiu para enxergar a obra de outra forma.

Legado

Considerando todo o legado do artista Athos Bulcão, a inauguração do desenho inédito reafirma que a assinatura dele é arte acessível e participativa. Segundo Andrea Gonçalves Carneiro, Mestre em Comunicação e especialista em Artes Visuais, Athos foi um dos principais responsáveis por transformar a cidade em uma galeria a céu aberto. "Aqui vemos elementos clássicos do seu repertório: modularidade, repetição com variação e uma aleatoriedade rigorosamente pensada", destaca.

Carneiro descreve o painel da escola como um "DNA visual de Brasília". Em sua percepção, o descarte inicial do desenho, pelo artista, confere à leitura uma camada à mais de seu processo criativo, "e não apenas de resultado final". Possibilitando que os apreciadores possam enxergar uma obra que não é só um produto final, mas um fragmento de percurso criativo, "Pois foi rejeitado".

De acordo com a especialista, coordenadora do curso de Artes Visuais na universidade Cruzeiro do Sul Virtual, a reprodução com as cores da bandeira francesa é justamento o que torna a obra tão interessante. "Athos normalmente trabalhava com paletas mais abertas, ou seja não estava preso a um conjunto específico de cores, ou neutras, muitas vezes ligadas ao próprio contexto arquitetônico de Brasília", explica.

Deste modo, a coordenadora destaca que a escolha gera três leituras importantes: a simbólica pois há uma clara referência institucional — uma homenagem direta à escola francesa; a cultural, pois insere uma camada de diálogo internacional dentro de uma cidade que já nasce com vocação global; e estética. "Pois mesmo com cores carregadas de significado, Athos mantém sua lógica abstrata, ou seja, a obra continua sendo sistema, ritmo e composição", finaliza.

Quem foi Athos Bulcão

Athos Bulcão foi um dos principais nomes das artes visuais no Brasil e figura central na construção da identidade estética de Brasília. Parceiro frequente de Oscar Niemeyer, destacou-se pelo uso de azulejos com padrões geométricos e modulares, integrando arte e arquitetura em espaços públicos. Suas obras, marcadas por cores e formas simples, estão espalhadas por toda a capital e ajudam a definir a paisagem urbana da cidade.

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Divulgação/Fundathos - Athos Bulcão

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