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UnB ordena desocupação de estudantes da Colina e substitui moradia por auxílio de R$ 700

Grupo que deixou a Casa do Estudante após conflitos em 2025 tem até 31 de março para sair. Universidade alega segurança, enquanto alunos apontam retaliação

UnB ordena desocupação de estudantes da Colina que foram transferidos por questões de segurança após episódios de hostilidade   -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
UnB ordena desocupação de estudantes da Colina que foram transferidos por questões de segurança após episódios de hostilidade - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Uma ocorrência de perturbação do sossego na Casa do Estudante Universitário (CEU), da Universidade de Brasília (UnB), que, em abril de 2025, terminou em briga e detenções pela Polícia Militar, voltou a gerar desdobramentos sobre a permanência estudantil na instituição. Na última segunda-feira (16/3), quatro estudantes, que foram transferidos da Casa do Estudante para a Colina por questões de segurança após episódios de hostilidade, receberam uma ordem administrativa para desocupar os apartamentos de trânsito até 31 de março.

A decisão do Decanato de Assuntos Comunitários (DAC) encerra a permanência física do grupo no sistema de moradia, substituindo o benefício pelo auxílio-pecúnia de R$ 700 mensais por aluno. Em nota, a UnB defende que, para o grupo de quatro estudantes em moradia compartilhada, "o valor totaliza R$ 2.800,00 por mês, destinado exclusivamente ao custeio coletivo de moradia no período provisório". A instituição afirma, ainda, que a medida é temporária e visa a "preservar a integridade física e a segurança de todos, até a conclusão da apuração".

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Barreira financeira

Para os estudantes atingidos, a mudança compulsória inviabiliza a continuidade dos estudos e ignora o histórico de violência reconhecido pelo Judiciário. Iago Dourado, 22 anos, aluno de Farmácia, afirma que a decisão é contraditória. “A própria universidade reconheceu que havia um problema de segurança e nos mudou. Agora, usam uma decisão judicial que foi favorável a mim para dizer que não posso voltar. Estou sendo punido sem prova e sem ter cometido qualquer irregularidade”, diz.

A UnB rebate as críticas sobre o desamparo financeiro, ressaltando que, além do valor pecuniário, os estudantes "são atendidos por ações de assistência estudantil da UnB, como alimentação gratuita no Restaurante Universitário (RU) e auxílio socioeconômico financeiro". No entanto, um relatório multiprofissional da Secretaria de Direitos Humanos da própria UnB, de junho de 2025, já alertava que os R$ 700 individuais são insuficientes para cobrir aluguéis próximos ao campus e que os alunos não possuem garantias como fiador ou caução.

Breno Torquato, 25, estudante de Direito, aponta o que considera uma retaliação institucional contra quem denuncia irregularidades. "A Universidade evidencia um padrão institucional de impunidade em relação aos envolvidos nas irregularidades e, simultaneamente, de retaliação contra denunciantes", afirma. Ele relata que a resposta da gestão foi investigar os próprios alvos das hostilidades.

Por outro lado, a UnB afirma manter as vagas na CEU reservadas "para eventual retorno dos estudantes, caso oportuno, após a finalização dos procedimentos e as deliberações cabíveis". A instituição destaca que a medida busca um "ambiente seguro, justo e acolhedor".

Decisão judicial

O conflito citado pelos alunos resultou em uma sentença do 6º Juizado Especial Cível de Brasília assinada em fevereiro de 2026 e obtida pelo Correio. O juiz Júlio César Lérias Ribeiro julgou procedentes os pedidos de indenização por danos morais para três dos estudantes, declarando que os atos praticados contra eles na CEU configuraram "excesso, abuso e ilegalidade no direito de manifestação", descrevendo o episódio como escárnio público em resposta às denúncias formuladas pelos alunos.

Bianca Gutierres Veloso, 22, aluna de Economia, reforça que a gestão quer "colocar sobre nós o encargo financeiro para nossa subsistência e moradia", enquanto os apontados como agressores permanecem na residência estudantil. "Não temos dinheiro, não temos emprego, nosso curso é integral, o que dificulta muito até pra pegar estágio. Tenho matérias à noite, e não tenho pra onde ir e estudar ao mesmo tempo. Pois, pelo regulamento não podemos trancar o semestre, pra tentarmos resolver a nossa situação, pois seríamos excluídos da assistência estudantil. É muito injusto", declara.


Confira a nota da UnB na íntegra:

A Universidade de Brasília (UnB) acompanha com atenção e responsabilidade a situação do conflito entre os estudantes. Desde o início, a instituição adotou medidas para preservar a integridade dos envolvidos, garantir ao convívio respeitoso no espaço estudantil e apurar os fatos com o devido rigor.

Em 2025, dois grupos de estudantes passaram a apresentar acusações recíprocas relativas à convivência na Casa do Estudante Universitário. Com aval da Defensoria Pública, foi conduzida mediação para solucionar os embates e restabelecer a harmonia entre os grupos. Sem acordo entre as partes, a Universidade instaurou sindicância para apurar os fatos e coletar elementos probatórios.

Reforça-se que o processo investiga todas as queixas e acusações apresentadas, a fim de garantir ampla defesa e direito ao contraditório aos envolvidos. A sindicância ainda está em trâmite e transcorre em sigilo.
Com o objetivo de preservar a integridade e a segurança das pessoas, a UnB decidiu realocar provisoriamente um dos grupos para apartamentos de trânsito fora da CEU. O cárater temporário da permanência e o prazo para a estadia foram informados aos estudantes.

Finalizado o período destinado à realocação, para evitar o retorno do grupo à CEU antes da conclusão da sindicância, a Universidade ofereceu, de forma provisória, a alternativa de auxílio pecúnia para moradia, garantindo a proteção e a segurança dos grupos envolvidos durante a apuração. O auxílio será pago no valor de R$ 700,00 mensais por estudante.

Na Casa do Estudante Universitário e na Colina, as moradias são coletivas. Considerando que o grupo está atualmente composto por quatro estudantes em moradia compartilhada, o valor totaliza R$ 2.800,00 por mês, destinado exclusivamente ao custeio coletivo de moradia no período provisório.
Além desse apoio, os estudantes são atendidos por ações de assistência estudantil da UnB, como alimentação gratuita no Restaurante Universitário (RU) e auxílio socioeconômico financeiro, conforme critérios e normas institucionais e nacionais.

A Universidade reforça que a medida é temporária e visa exclusivamente preservar a integridade física e a segurança de todos, até a conclusão da apuração. A UnB informa ainda que as vagas na CEU permanecem reservadas para eventual retorno dos estudantes, caso oportuno, após a finalização dos procedimentos e as deliberações cabíveis.

A UnB reafirma seu compromisso com a escuta qualificada, a apuração justa dos fatos e o cumprimento das normativas institucionais e reitera que todas as medidas adotadas têm o objetivo de garantir um ambiente seguro, justo e acolhedor para toda a comunidade estudantil."

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postado em 19/03/2026 17:47
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