economia solidária

Sobra de um lado, falta do outro: o desafio de evitar o desperdício de alimentos

Pesquisa revela que 60% dos brasileiros se preocupam com o descarte de comida, mas falhas logísticas e falta de conexão entre excedente e necessidade mantêm um ciclo de perdas evitáveis. Conheça ações como a Ong Fome de Tudo e o Sesc Mesa Brasil

 Mais do que um hábito doméstico, o não aproveitamento se espalha por diferentes etapas do consumo e da distribuição de alimentos  -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Mais do que um hábito doméstico, o não aproveitamento se espalha por diferentes etapas do consumo e da distribuição de alimentos - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Alimentos ainda próprios para consumo percorrem um caminho silencioso até o lixo todos os dias. Não por escassez, mas por falhas de organização. Em um país onde a maioria diz se preocupar com o desperdício, o problema persiste longe das prioridades e revela um sistema em que a comida não falta, ela se perde. Dados revelados em uma pesquisa do Instituto Akatu, no âmbito do Programa Brasil Sem Desperdício, evidenciam a distância entre discurso e prática. Embora cerca de 60% dos brasileiros afirmem se preocupar com o tema, apenas 1% o considera um dos principais problemas do país.

No Centro-Oeste, o índice de naturalização do desperdício aparece equilibrado entre níveis baixo e moderado. Mesmo com esse equilíbrio, não dá para relaxar: é preciso vigilância para evitar que o desperdício cresça. Mais do que um hábito doméstico, o não aproveitamento se espalha por diferentes etapas do consumo e da distribuição de alimentos, expondo uma falha estrutural: sobra de um lado, enquanto falta do outro.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

O levantamento mostra ainda que 93,9% dos brasileiros associam o desperdício à perda de dinheiro, ignorando impactos ambientais e sociais. Ao mesmo tempo, a maioria acredita desperdiçar menos do que familiares e amigos, uma percepção que não se sustenta na prática. Para a fundadora do Instituto Fome de Tudo, Úrsula Corona, o problema não está na falta de consciência, mas na ausência de estrutura. “O desperdício foi tratado durante muito tempo como uma questão cultural, quando, na verdade, é sistêmico. As pessoas não têm ferramentas para agir. Falta conexão entre quem tem excedente e quem precisa”, afirma a a empresária, atriz e empreendedora social, que teve a ideia de criar uma espécie de Tinder da Fome. (Leia entrevista completa abaixo)

Segundo Úrsula, obstáculos como falta de dados em tempo real, insegurança jurídica para doadores e ausência de coordenação entre os envolvidos impedem que alimentos ainda próprios para consumo cheguem a quem precisa. “Hoje, o desafio não é produzir mais comida. É organizar melhor o que já existe”, resume.

  • Empreendedorismo social floresce e alcança comunidades no Brasil

  • Homenageada no Congresso Nacional, Úrsula Corona protagoniza ações de combate à fome na COP30

  • Reality show dá visibilidade ao trabalho de merendeiras escolares do Brasil

Mudança de hábitos

A aposentada Iraci Fernandes, de 76 anos, representa uma geração em que o desperdício foi naturalizado ao longo do tempo. "Às vezes, a gente compra mais do que precisa. Quando vê, já estragou", diz. Apesar disso, ela reconhece o incômodo ao descartar comida. "Dá uma dor na consciência, porque sei que tem gente que não tem o que comer. Eu passei fome, estive do outro lado. É muito doloroso ter vontade e não poder se alimentar", lamenta. 

A fala reforça um apontamento da pesquisa: a percepção do problema existe, mas não se traduz, necessariamente, em mudança de comportamento. O estudante João Victor Nakahara, 21, cresceu ouvindo em casa que não se deve colocar no prato mais do que se consegue consumir. Mas ele admite que o desperdício acontece, principalmente pela correria do dia a dia. "Às vezes, as frutas passam do ponto porque a rotina é corrida. É um desperdício meio irracional. A gente perde a noção do tempo. Eu penso que estou jogando comida fora enquanto tem gente passando fome", afirma.

 26/03/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Ceasa Brasília. Matéria sobre econômia e disperdício. Ferreira da Silva - agricultor doa as sobras.
Ferreira da Silva tem o costume de doar o que não será vendido (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Na outra ponta, o produtor Ferreira da Silva, 63, filho de agricultores, trabalha desde a década de 1970 na produção e distribuição de hortaliças no DF. Segundo ele, que atua na Central de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa), o controle do desperdício começa ainda na colheita. "O que não serve, a gente deixa na chácara. O que sobra aqui na feira, a gente doa para instituições. Tudo que está em boas condições ganha um novo destino. A gente evita ao máximo jogar fora", afirma.

Nos restaurantes, o descarte de comida ganha contornos financeiros e operacionais. De acordo com o empresário Wesley Moreira, dono de uma rede de restaurantes em Brasília, um estabelecimento de médio porte pode jogar fora entre 5 e 15 quilos de alimentos por dia. "Em média, o desperdício gira entre 4% e 7% do faturamento. Parece pouco, mas é um impacto enorme no custo final", destaca.

Segundo o comerciante, a maior perda ocorre na etapa de preparo, seguida pelo armazenamento inadequado. Já o desperdício no prato do cliente tem diminuído, principalmente com a possibilidade de levar sobras para casa. Para reduzir perdas, o restaurante adota estratégias como controle rigoroso de porções, reaproveitamento integral de alimentos e gestão de estoque. "É uma questão econômica, social e ambiental ao mesmo tempo. Jogar comida fora em um país com insegurança alimentar é indefensável", diz Wesley.

Redistribuição  

À frente da Associação Comunitária Avançar do Brasil há cerca de 15 anos, Léa Lima, 49, atua diretamente na coleta e redistribuição de alimentos na capital. "Meu papel é pedir doação. Eu vou em grandes feiras depois do horário de movimento, e os produtores costumam separar o que não foi vendido ou o que está amassado, mas ainda próprio para consumo", explica. "A gente separa o que está em melhor condição e distribui para famílias. Às vezes, até uma fruta amassada é aproveitada, a gente corta a parte ruim e faz suco", frisa.

Léa afirma que, sem esse tipo de iniciativa, grande parte dos alimentos teria outro destino. "Muitos produtores dizem que, se não fosse a associação, tudo iria para o lixo. Essa ajuda é essencial", reconhece. Hoje, o trabalho é mantido com o apoio de voluntários. "Somos poucos, mas conseguimos atender muitas famílias. O problema é que ainda falta estrutura para ampliar esse trabalho", completa.

Parte dessa conexão passa por iniciativas dentro da própria Ceasa, com programas estruturados que buscam dar destino a alimentos que perderam valor comercial, mas seguem próprios para consumo. O programa Banco de Alimentos, conhecido como Programa de Desperdício Zero (PDZ), atua diretamente nesse processo. Protegida pela Lei nº 7.387, de 5 de janeiro de 2024, de autoria do deputado distrital Fábio Felix (Psol), a medida visa estimular a doação dos itens de diversas fontes — comerciantes, empresas, órgãos públicos, produtores de alimentos e entidades do terceiro setor — para serem repassados às entidades.

"Ao final de um dia movimentado, os grandes produtores ficam com uma leva de produtos que não estão mais visualmente tão atrativos, mas que, do ponto de vista nutricional e da segurança alimentar, estão em perfeitas condições. Esses alimentos são disponibilizados para o banco de alimentos, onde passam por triagem e são direcionados para quem precisa", explica Cleison Wellington, reponsável pelo banco de alimentos da Ceasa..

Outra iniciativa é o programa "Todos Contra a Fome", que amplia o alcance das doações ao integrar pequenos produtores ao sistema. "O banco de alimentos também compra da agricultura familiar e repassa para entidades que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade. Isso garante que alimentos nutritivos cheguem a quem precisa e fortalece pequenos produtores", destaca.

 26/03/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Ceasa Brasília. Matéria sobre econômia e disperdício. Léa Lima da Silva, recebe produtos que são sobras na Ceasa.
Léa Lima da Silva recebe produtos que são sobras na Ceasa (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Além da caridade

Implementado em 2003, o Sesc Mesa Brasil é um programa nacional de segurança alimentar e nutricional de combate à fome e ao desperdício de alimentos. Pioneiro no Distrito Federal, tem como finalidade garantir o direito humano à alimentação adequada. O programa busca doações onde há excedentes e as entrega onde há escassez, contribuindo assim para a redução da desigualdade social no país, sob uma perspectiva de inclusão social. Somente em 2026, foram 477.529 kg de alimentos distribuídos, 111.262 pessoas atendidas e 406 instituições beneficiadas.

Para Diego Simões, gerente de Assistência Social do Sesc-DF, o sucesso de iniciativas como o Mesa Brasil depende de uma visão que vai além da caridade e se estabelece na eficiência operacional. Ele explica que o programa atua de forma estruturada para enfrentar falhas logísticas e de armazenamento, que são os grandes vilões do sistema.

"A identificação dessas oportunidades ocorre a partir de parcerias com supermercados, atacadistas e indústrias que sinalizam excedentes ou produtos fora do padrão comercial, mas ainda seguros", detalha Simões. O diferencial, segundo o gerente, está no controle de qualidade: o Sesc-DF não apenas transporta o alimento, mas capacita os doadores em boas práticas de manipulação. Contudo, o caminho para a eficiência máxima esbarra na infraestrutura. "Hoje, o maior desafio é a escalabilidade. Operar em larga escala exige uma logística capilarizada para alcançar regiões remotas e manter a integridade dos produtos perecíveis", pontua.

No Distrito Federal, o impacto do programa funciona como um motor de economia circular. Ao redirecionar toneladas de alimentos, o Sesc-DF fortalece a rede de proteção social, permitindo que as mais de 400 instituições cadastradas redirecionem orçamentos — antes comprometidos com comida — para áreas como educação e saúde básica.

A estratégia de expansão do braço social da Fecomércio-DF é técnica. Simões revela que o atendimento é personalizado: "Instituições que atendem idosos, por exemplo, recebem alimentos de fácil digestão e específicos para essa faixa etária". Para sustentar esse crescimento, o Sesc mantém uma equipe dedicada de mais de 50 profissionais focados na ampliação da rede de doadores e na otimização da frota.

O combate ao desperdício, no entanto, só se torna sustentável quando atinge a mudança de comportamento mencionada por jovens como João Victor e a aposentada Iraci. Diego Simões reforça que a segurança alimentar é indissociável da educação. "Atuamos junto à comunidade com projetos como o 'Cozinha Eficiente', que realiza oficinas práticas ensinando o aproveitamento integral de cascas, talos e sementes, combatendo o desperdício doméstico", explica o gerente.

Essas ações são integradas a iniciativas itinerantes, como a Caravana Social, que leva assistência a regiões como o Recanto das Emas. Para Simões, o foco é transformar a doação pontual em uma cultura de sustentabilidade consolidada. "O combate à fome não depende apenas de volume de arrecadação, mas de uma gestão inteligente e consciente dos recursos disponíveis", conclui.

Sesc mesa Brasil combate o desperdício e a fome na mesma ação
Sesc Mesa Brasil combate o desperdício e a fome na mesma ação (foto: SescDF/Divulgação)

Políticas públicas

A pesquisa também revela que a população enxerga o governo como principal responsável por liderar mudanças, seguido por supermercados, indústrias e consumidores. Procurado, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) afirmou que atua em diversas frentes para reduzir o desperdício e incentivar a redistribuição de alimentos.

Entre as principais iniciativas está a II Estratégia Intersetorial para a Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos, elaborada entre 2024 e 2025 no âmbito da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan). O plano reúne órgãos públicos, setor privado, organizações da sociedade civil e agências internacionais.

Segundo o ministério, a estratégia parte de um diagnóstico dos principais pontos críticos ao longo da cadeia de abastecimento e estabelece metas até 2027, como a ampliação da medição do desperdício no país, a implementação de planos de redução em cidades brasileiras e estudos para aprimorar a doação de alimentos.

O MDS também destacou o papel dos Bancos de Alimentos, considerados equipamentos estruturantes da política de segurança alimentar. Essas unidades atuam na captação, seleção e distribuição gratuita de alimentos doados, com foco na redução de perdas e no atendimento a pessoas em situação de insegurança alimentar.

Para Úrsula Corona, a solução exige mais do que diretrizes institucionais. “A boa vontade não escala. O que resolve é sistema, tecnologia e integração. Quando você conecta os dados e organiza a cadeia, o desperdício deixa de ser invisível e passa a ser gerenciável”, afirma. Segundo a fundadora do Fome de Tudo, modelos internacionais mais eficientes operam com plataformas que conectam, em tempo real, produtores, varejo e organizações sociais, permitindo que alimentos excedentes sejam rapidamente redirecionados. “Hoje, conseguimos medir o impacto social, ambiental e econômico. Isso transforma o combate ao desperdício em uma agenda estratégica”, conclui. 

O Instituto Fome de Tudo é uma agência de transformação social ligada ao Programa Mundial de Alimentos (WFP) das Nações Unidas (ONU). 

 

ENTREVISTA

Úrsula Corona, fundadora do Instituto Fome de Tudo

Úrsula Corona, atriz e apresentadora
Úrsula Corona, do Instituto Fome de Tudo: problema sistêmico (foto: Leandra Benjamin/Divulgação)

Como o Instituto Fome de Tudo avalia esse paradoxo entre a preocupação declarada da população e a baixa priorização do desperdício como problema social?

Esse paradoxo existe porque, até hoje, o desperdício foi tratado como uma questão cultural ou comportamental, quando, na verdade, ele é um problema estrutural e sistêmico. As pessoas se importam, mas não têm ferramentas para agir. Falta conexão entre quem tem excedente e quem precisa, falta inteligência de dados e, principalmente, falta uma infraestrutura que transforme intenção em ação. Foi exatamente esse vazio que o Instituto Fome de Tudo decidiu enfrentar ao longo dos últimos seis anos. Desenvolvemos uma tecnologia que transforma esse problema invisível em algo mensurável, rastreável e acionável. Quando você traz dados, previsibilidade e integração de cadeia, o desperdício deixa de ser um tema abstrato e passa a ser uma oportunidade concreta de impacto social, ambiental e econômico.

Na prática, quais são os principais gargalos que impedem que alimentos ainda próprios para consumo cheguem a quem precisa?

Os gargalos não estão na falta de alimento estão na falta de sistema. Hoje, o que vemos é: desconexão entre oferta e demanda; falta de agilidade e inteligência; ausência de dados em tempo real; insegurança jurídica para doadores; e inexistência de uma coordenação estruturada entre os atores. Nos centros urbanos, como o Distrito Federal, isso se agrava pelo volume de desperdício concentrado. A nossa tecnologia atua exatamente nesses pontos: ela conecta os elos da cadeia, identifica excedentes, direciona para quem precisa, organiza a logística e ainda mede todo o impacto gerado. Ou seja, substituímos improviso por sistema.

A partir da experiência internacional do Instituto, que modelos de redistribuição ou aproveitamento de alimentos têm se mostrado mais eficazes e poderiam ser aplicados no contexto do DF?

Os modelos mais eficazes no mundo têm três pilares em comum: tecnologia, dados e integração. Não são mais modelos baseados apenas em doação pontual, mas em plataformas que operam como infraestrutura : conectando agricultores, produtores, varejo e organizações sociais em tempo real. Seja doando ou vendendo. O que o Instituto Fome de Tudo fez foi entender essa jornada e amadurecer junto com profundidade: criamos uma tecnologia que, além de redistribuir alimentos, gera inteligência para toda a cadeia. O agricultor passa a ter oportunidades sem intermediários e assim tendo mais empoderamento econômico do seu produto; o varejo entende onde está perdendo e como otimizar; o poder público ganha visibilidade para tomada de decisão e controle de dados em tempo real; e o impacto passa a ser medido com precisão. Esse é exatamente o modelo que estamos levando para o piloto com o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário que assinamos uma aplicação prática, escalável e adaptada à realidade brasileira, com seis anos de maturidade.

De que forma o desperdício de alimentos se conecta com outras dimensões além da financeira, como impacto ambiental e desigualdade social?

O desperdício de alimentos é um dos maiores pontos de interseção entre crise ambiental e desigualdade social. Quando um alimento é desperdiçado, não estamos falando apenas de perda financeira estamos falando de: emissões desnecessárias de carbono e metano; uso ineficiente de água e solo; pressão sobre o sistema produtivo; e, ao mesmo tempo, pessoas em situação de insegurança alimentar. A grande virada é que, hoje, conseguimos medir isso. A nossa tecnologia calcula não só quantas pessoas foram impactadas, mas também quanto carbono e metano deixaram de ser emitidos. Isso transforma o combate ao desperdício em uma agenda estratégica de ESG, clima e desenvolvimento social tudo ao mesmo tempo, de foram real e precisa.

Quais ações concretas seja do poder público, da iniciativa privada ou da sociedade são mais urgentes para transformar a conscientização em prática no combate ao desperdício?

A primeira ação urgente é reconhecer que esse problema não será resolvido sem tecnologia. Boa vontade não escala. O que escala é sistema. Por isso, três movimentos são fundamentais:

1. Poder público: Adotar tecnologias que integrem dados e permitam políticas públicas mais inteligentes como o piloto que estamos iniciando com o Ministério, que inaugura um novo modelo de atuação baseado em evidência e impacto real.

2. Iniciativa privada: Deixar de ver o desperdício como perda inevitável e passar a tratá-lo como oportunidade de eficiência, reputação e impacto mensurável.

3. Sociedade: Participar de um ecossistema organizado, onde a ação individual está conectada a uma rede estruturada.

Depois de seis anos de maturidade, o que estamos construindo não é um projeto é uma nova infraestrutura de impacto. Uma tecnologia capaz de conectar o que hoje está desconectado, reduzir desperdício, gerar dados estratégicos e, principalmente, garantir que o alimento chegue a quem realmente precisa. É emocionante ver o impacto gerado em hospitais, instituições , asilos, e cada território que atuamos.

O Fome de Tudo acaba de chegar à China. O que representa esse ingresso para o instituto?

A chegada do Fome de Tudo à China é um marco emocionante e, ao mesmo tempo, muito consistente com tudo o que construímos ao longo dos últimos seis anos. Ela reflete o nosso compromisso diário com propósito, aliado à maturidade de uma jornada que sempre buscou escala e impacto real. A China é um dos países que mais produzem e consomem alimentos no mundo e, ainda assim, enfrenta um desafio significativo de desperdício um reflexo de uma questão global de quase todos os países. Hoje, estima-se que o país desperdice cerca de 35 milhões de toneladas de alimentos por ano, segundo a Chinese Academy of Sciences. Apenas no consumo urbano, esse número pode chegar a 17 a 18 milhões de toneladas anuais, especialmente nos grandes centros. Esse cenário deixa claro que o problema não é a falta de alimento e sim a falta de inteligência na cadeia. É exatamente nesse ponto que a nossa tecnologia atua: conectando excedentes a demandas reais, com inteligência de dados, rastreabilidade e mensuração precisa de impacto em diversas camadas. Além do impacto social direto, conseguimos também quantificar efeitos ambientais relevantes, como a redução de emissões de carbono e metano. Hoje, o sistema alimentar global é responsável por uma parcela significativa das emissões, superior, inclusive, a setores como o da aviação. E o nosso diferencial é ir além da mensuração: e iniciaremos a comercialização dos créditos de carbono e metano entregando impacto social, ambiental e econômico em um mesmo sistema. Isso é o reflexo de uma maturidade de 6 anos nessa profundidade, operação e estudo constante. Ter o Fome de Tudo na China é aprender e construir junto esse olhar trocando conhecimento em um dos ambientes mais complexos e exigentes do mundo. É a prova de que estamos construindo uma capacidade de operar em diferentes realidades e gerar dados concretos para tomada de decisão nas áreas que atuamos : proteção social, saúde, capacitação , empreendedorismo social, tecnologia e pesquisa. Quando conseguimos atuar em um país com esse nível de escala e complexidade, reforçamos que com propósito e compromisso, os resultados rompem qualquer barreira. No Brasil, avançamos na mesma direção: assinamos um piloto com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, liderado pelo ministro Wellington Dias, e com o Ministério da Agricultura, sob liderança do ministro Paulo Teixeira, que será implementado em breve e marca um passo importante na aplicação dessa tecnologia em políticas públicas. Todo esse momento se deve a todo time Fome de Tudo que me emociona e ensina diariamente.

 


  • Google Discover Icon
postado em 03/04/2026 05:00
x