
A trajetória da Ceilândia, da sua fundação por meio de um processo de remoção à consolidação como a maior região administrativa do Distrito Federal, foi o tema central do CB.Debate — Ceilândia em Movimento, realizado nesta terça-feira (31/3) no auditório do Correio. O evento, ocorrido no mês em que a cidade completou 55 anos, reuniu autoridades, especialistas e moradores, em um tom que mesclou o resgate emocional da memória pioneira com a análise técnica sobre infraestrutura e desenvolvimento. O teor geral das falas destacou uma Ceilândia que não aceita ser vista como periferia, mas como um lugar pulsante e autossuficiente, cuja força dita o ritmo da economia e da cultura do DF.
A superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do DF (Sebrae-DF), Rose Rainha, utilizou sua participação no CB.Debate para analisar o papel estratégico da região como motor econômico da capital federal. Filha de pioneiros celiandenses, Rose pontuou que a trajetória da cidade, marcada pela remoção da Vila Esperança para o atual território, consolidou um perfil de resiliência, que hoje se reflete em um comércio autossuficiente e descentralizado. "Ceilândia mostra a força que impulsiona o DF. É pulsante, tem vida própria e um povo aguerrido que move a nossa capital", afirmou.
A superintendente destacou que o diferencial competitivo da região reside no seu desenho urbanístico original. Segundo Rose, o planejamento que previu conjuntos comerciais em cada entrequadra foi fundamental para fortalecer o lojista de bairro e criar uma dinâmica de consumo interna única. "O comércio foi espalhado por toda a cidade. Temos uma Feira Central que funciona sete dias por semana e representa um dos fluxos mais movimentados do país. O papel do Sebrae é justamente potencializar esse modelo, oferecendo capacitação e consultoria para que esses empresários continuem crescendo", explicou.
Representatividade
Ao abordar a formação da identidade local, Rose recordou os contrastes sociais enfrentados pelos moradores ao circularem por outras áreas de Brasília. Ela relatou que o estigma em relação a Ceilândia exigia uma postura de afirmação constante por parte dos jovens da cidade. "Fomos forjados a enfrentar dificuldades. Quando estudei no Plano Piloto, percebia o preconceito, mas a resposta era sempre pautada na determinação de quem tem raízes fortes e patrimônio próprio. Essas barreiras tornaram as lideranças da cidade mais preparadas para ocupar espaços de decisão", avaliou.
Rose também ressaltou que a presença de "filhos da terra" em cargos de destaque nos poderes Executivo e Legislativo é um indicador da maturidade política da região. Ela citou sua própria trajetória — que inclui o primeiro contato com as vendas aos 7 anos de idade — como exemplo do espírito empreendedor que define a comunidade. "É uma honra levar a estrutura do Sebrae para a minha cidade. O vínculo permanece técnico e afetivo: hoje, minha filha mantém uma clínica médica no mesmo lote onde minha família foi criada, provando que Ceilândia oferece condições reais de desenvolvimento profissional e sucessão familiar", destacou.
Revitalização
Dilson Resende de Almeida, administrador regional de Ceilândia, detalhou o trabalho da gestão focado na zeladoria e no planejamento da infraestrutura, fatores considerados essenciais para o desenvolvimento da cidade. Segundo o gestor, o local passou por um processo de recapeamento geral, além do funcionamento 24 horas da administração para ouvir a população.
O administrador contou que, quando assumiu a cidade, ele e sua equipe não encontraram um planejamento para a cidade. "A primeira providência que tomamos foi fazer um levantamento de toda a infraestrutura da cidade para entender quais eram os gargalos existentes", explicou. O mapeamento feito revelou que Ceilândia possui mais de 10 mil bocas de lobo, um número muito superior às estimativas iniciais, o que evidencia a demanda maciça por manutenção. Entre as medidas tomadas estão a drenagem pluvial e a manutenção de vias.
"Temos, hoje, a certeza de que Ceilândia precisa realmente muito de investimento em drenagem", afirmou Dilson Resende. Ele informou que a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) iniciou o processo de chamamento para a elaboração de um projeto de drenagem fluvial, um estudo intenso que considera a captação da água e as cautelas ambientais, sendo um projeto de médio e longo prazo.
Recapeamento
De acordo com Resende, a segunda maior demanda da cidade é a pavimentação de vias, resultado de um asfalto, muitas vezes, colocado de forma provisória no passado. O administrador reforçou que, desde o início de sua gestão, pistas inteiras foram recapeadas. "Foram feitos 32 quilômetros de substituição completa de pavimento de vias principais", informou.
No quesito calçadas, ele apontou que a malha antiga não priorizava a acessibilidade. Por isso, afirmou que a administração tem trabalhado em projetos com vistas à inclusão de pessoas com dificuldades de locomoção, tendo reformado quase 120 quilômetros de calçadas novas em áreas importantes, como no entorno do Sesc e na revitalização da via Hélio Prates.
Resende mencionou as medidas da gestão voltadas ao meio ambiente. Ela admite que a cidade sofre com a falta de arborização. "Ainda há essa demanda muito grande na cidade, existe essa necessidade urgente de elaborar um planejamento para o plantio de árvores de espécies adequadas", comentou. Segundo o gestor, a ideia das árvores nativas é evitar que as raízes, à medida que crescessem, quebrassem calçadas.
Crescimento
O presidente do Correio Braziliense, Guilherme Machado, ressaltou a transformação histórica da região. Para Machado, o evento não é apenas uma efeméride de aniversário, mas um fórum necessário para discutir a maturidade de uma cidade que superou o estigma de sua origem. "Ceilândia começa como uma invasão e se torna hoje a potência que é. Uma potência empresarial e cultural, celeiro de pessoas realmente relevantes para a nossa sociedade", destacou.
Machado enfatizou que a presença de grandes empresários e políticos de destaque nascidos ou criados na região comprova o sucesso da trajetória ceilandense. "O Correio resolveu fazer este evento para, primeiro, festejar os 55 anos e, segundo, discutir o futuro. Temos nomes importantes aqui que têm muito a dizer sobre esse crescimento."
Ao promover o debate, o presidente do Correio reforçou o compromisso do jornal em ser o palco de discussões que impactam o desenvolvimento regional e a inclusão social. "O objetivo é celebrar essa trajetória de sucesso e projetar os próximos passos para que a cidade continue sendo esse polo de lideranças", destacou.

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF