semana santa

Crônica da cidade: Tradição, fé e consumo

Assim, entre o bacalhau superfaturado, o chocolate desejado e o churrasco aguardado, o carrinho segue pesado até o caixa.

Mesa de Semana Santa -  (crédito: Reprodução)
Mesa de Semana Santa - (crédito: Reprodução)

O supermercado está cheio como se todo mundo tivesse tido a mesma ideia ao mesmo tempo. Carrinhos se cruzam, vozes se sobrepõem e, entre os corredores congestionados e as filas no caixa, há uma pressa de dar conta de tudo antes que o calendário avance. É véspera de Sexta-feira Santa e a família avança pelos corredores como quem participa de um ritual sem cerimônia.

A mãe para diante do freezer dos pescados e suspira, longo, quase indignado. O preço do bacalhau salta aos olhos como um desaforo. Ela inclina o corpo, aproxima o rosto da etiqueta, confere de novo, como se o número pudesse ceder por insistência, mas não cede. Reclama baixo, o suficiente para que o marido escute e as crianças percebam que há algo de errado naquele pedaço de peixe que, de repente, vale mais do que deveria.

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"Um absurdo", ela verbaliza, no que tem o apoio de outra consumidora com calculadora a mão.

No entanto, ainda assim, o bacalhau vai para o carrinho da família. Talvez menor, talvez em menos quantidade, talvez substituído por outro peixe mais acessível, mas vai. Porque não é só o preço que conta, mas é preciso manter de pé alguma coisa que vem de antes, mesmo que adaptada.

"Espero o ano todo por este dia", ela argumenta. Ao que o marido questiona: "Mas é proibido comer noutra ocasião quando certamente é mais barato?"

No corredor seguinte, o mundo é outro. Os ovos de chocolate — esses, sim, só surgem nesta época do ano — pendem do teto como lanternas coloridas, chamando atenção de quem passa. As crianças se soltam das mãos dos pais por um segundo, correm os olhos pelas embalagens, escolhem pelos personagens, pelos brindes, pelo tamanho do brinquedo escondido lá dentro. Não querem saber de peixe, de preço, de conta no fim e nem mesmo se o nível de cacau é 50% ou 70%. Os pequenos querem o ovo que fala, acende e promete mais do que chocolate:

"Esse! Não, esse aqui!"

A mãe ainda tenta argumentar e o pai olha de longe, calculando silenciosamente. Há negociação, tentativa de impor limite, aquele teatro conhecido de toda família em supermercado. O tal do "na volta a gente compra" surge, porém, no fim, ao menos um ovo de Páscoa caríssimo entra no carrinho. E a caixa de bombons sortidos para que os adultos também possam adoçar a boca.

Mais adiante, quase como quem não quer nada, o pai encosta no setor de bebidas. É seu refúgio; ali, ele passa a mão pelas latas, escolhe marcas com familiaridade, e há um certo alívio no gesto. A promessa da quaresma está perto do fim e, após 40 longos dias, o sábado de aleluia se anuncia como uma pequena redenção pessoal. Na sequência, no açougue, agora sem a esposa, exibe embalagens de carnes diversas, entre picanhas, maminhas, asinhas de frango e linguiças toscanas. Para o churrasco pós-penitência, não há limite de preços, oras!

Assim, entre o bacalhau superfaturado, o chocolate desejado e o churrasco aguardado, o carrinho segue pesado até o caixa. Ali, a mãe ainda hesita diante do total. Já as crianças seguram seus ovos com ansiedade contida. Por sua vez, o pai empurra o carrinho com um meio sorriso que projeta o fim de semana todo. E, sem perceber, todos atravessam juntos esse intervalo curioso entre contenção e excesso.

No domingo, quando a mesa estiver posta para a Páscoa, logo após a missa ou culto sagrada (o) que é tradição familiar, talvez ninguém se lembre do supermercado, mas da importância de se celebrar a morte e a ressurreição de Cristo.

E a história da Semana Santa continua acontecendo nesses pequenos acordos cotidianos onde a fé encontra espaço mesmo entre prateleiras e orçamentos apertados.

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postado em 04/04/2026 14:26
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