
A encenação da Paixão de Cristo no Morro da Capelinha atingiu seu ápice nesta Sexta-Feira Santa, reunindo um público de 100 mil fiéis para acompanhar os últimos passos de Jesus. O espetáculo, que se consolidou como um dos maiores eventos religiosos do país, reservou um momento de profunda emoção pouco antes da cena da Ressurreição. A tradicional "surpresa" preparada pela organização este ano foi uma homenagem a quatro das mais icônicas invocações de Maria, reforçando o simbolismo do acolhimento materno.
A celebração destacou as trajetórias de Nossa Senhora de Fátima, que apareceu a três pastores em Portugal no ano de 1917; Nossa Senhora de Lourdes, cujas aparições na França remontam a 1858; e a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem foi encontrada por pescadores no Rio Paraíba do Sul em 1717. Completando o quarteto, Nossa Senhora de Guadalupe recebeu atenção especial, já que o tema da Via-Sacra de 2026 — "Nada te aflija! Não estou aqui eu que sou tua mãe?" — foi inspirado justamente nas palavras ditas pela Virgem ao indígena Juan Diego, no México, em 1531.
O encerramento do espetáculo foi marcado por um imponente show de fogos de artifício, que iluminou o céu de Planaltina e simbolizou o triunfo da vida sobre a morte na narrativa cristã. Com o fim da apresentação, a multidão agora inicia a descida do morro em um fluxo tranquilo, orientada pelas forças de segurança, levando consigo as mensagens de renovação e esperança que marcaram a jornada deste ano.
Tradição e memórias
Para a dona de casa Natália Teresinha Pereira, 67 anos, o Morro da Capelinha foi um cenário de memórias que remontam à sua infância, quando o acesso ainda era feito por trilhas de terra batida. "Eu gosto de tudo o que acontece aqui. Vinha com meus pais, depois com meus filhos e agora trouxe minhas netas, que estão adorando cada ano mais", contou, sentada em seu banco e cercada por almofadas e lanches para a família.
Moradora de Planaltina, ela preferiu garantir seu lugar no topo antes do início do evento para evitar o cansaço da subida durante a encenação. "A estrutura melhorou demais, hoje é muito mais seguro para a gente presenciar tudo".
"Foi uma oportunidade única de assistir a algo tão grandioso no nosso estado e valorizar a cultura", afirmou Vanusa Marinho Bispo, 50, que saiu do Jardim Botânico com o marido e o filho Lourenço, 11. Para a servidora pública, a força das cenas de Jesus na cruz e o momento da prisão foram ferramentas poderosas para transmitir valores ao filho, que estuda em colégio católico e já foi coroinha.
O pequeno Lourenço, acostumado a pedalar e caminhar, subiu o morro sem cansaço e esteve atento aos detalhes históricos. "Achei muito impressionante o momento em que o Pilatos entrevistou Jesus", comentou o menino.
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A enfermeira Ana Cláudia Silva, 25, viu na tradição de sua cidade natal, Planaltina, um significado que ultrapassou barreiras religiosas. "Independente de qualquer religião, as pessoas precisaram vir. Isso aqui me lembrou muito sobre o amor e sobre perdoar o próximo", refletiu a jovem, que é evangélica e frequentou o evento desde pequena, quando sentava no chão ao lado dos pais.
Acompanhada pelo noivo, ela se emocionou especialmente com a crucificação. "Me doeu muito porque o mundo hoje é muito orgulhoso, e essa cena me lembrou que Jesus morreu por nós em troca de nada. Foi sobre recomeço".

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