
Nas subidas laterais, íngremes, a gentileza é uma das principais características dos espectadores. Os que já estão sentados no topo dão as mãos aos que também desejam acompanhar a encenação com uma visão privilegiada. O esforço físico é recompensado pela força das imagens: o espetáculo ultrapassou o momento do julgamento de Jesus e, agora, se concentra na primeira estação da Via-Sacra, sob o olhar atento de milhares de famílias.
Para a militar Tamires Castro, 37 anos, que trocou o Rio de Janeiro por Águas Claras, a preparação é a chave para vivenciar o momento com a filha Ana Clara, 5, e o marido Felipe Jasmim. "Viemos prevenidos com lençol, almofada para sentar por conta das pedras, comida e água. Afinal, é um tempo considerável de missa e encenação", explica.
Para a carioca, o espetáculo brasiliense supera outras experiências. "No Rio, nunca vi uma encenação tão bem-feita e perfeita. É um momento de paz, de se conectar com Deus e mostrar a história desse sofrimento ocasionado para nos salvar. É muito gratificante", afirma.
A emoção também transborda no relato de Ludmila Gomes, 26, que partiu de Planaltina (GO) com um grupo de 15 pessoas, incluindo os filhos Noha Felipe, 6, e Lara Persilha, 4. "É a primeira vez deles e estão amando cada pedacinho. Eu fico muito emocionada, porque é uma história linda para ser contada a cada geração", conta a monitora de transporte escolar.
Mesmo chegando um pouco mais tarde para respeitar o ritmo das crianças, Ludmila destaca que cada passo da encenação é imperdível. "Todos os momentos tiram um pedacinho da nossa atenção e criam uma expectativa legal. Vemos a dedicação enorme deles na preparação. É incrível estar aqui", comenta.
O Morro da Capelinha é o epicentro da devoção no Distrito Federal nesta Sexta-Feira Santa, com a expectativa de reunir uma multidão que pode superar os recordes anteriores. Após atrair 100 mil pessoas em 2024 e alcançar a marca de 150 mil fiéis em 2025, o espetáculo de 2026 encerra a programação religiosa com fôlego renovado. Mantendo uma tradição que resiste desde 1973, a encenação da Paixão de Cristo em Planaltina mobiliza o Grupo Via Sacra ao Vivo, que conta com uma equipe de 1.400 colaboradores — sendo 1.100 atores dedicados a dar vida aos personagens bíblicos.
O ápice das celebrações começou com a Celebração da Santa Cruz, seguida pelo início do espetáculo que, ao longo de quatro horas, reproduz os momentos cruciais da narrativa cristã: julgamento, prisão, crucificação, morte e ressurreição. Nesta edição, a jornada de 800 metros é guiada pelo tema "Nada te aflija! Não estou aqui eu que sou tua mãe?", inspirado em Nossa Senhora de Guadalupe, consolidando o evento como um dos maiores patrimônios culturais e religiosos do Brasil.

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF